1975-1990

NEGOCIAÇÕES POLÍTICAS 

INFRUTÍFERAS 

MARCARAM O PERÍODO

.......Uma série de negociações políticas infrutíferas e grandes acções militares marcaram os principais acontecimentos registados no período 1975/ 1990 da história de Angola. Eis a cronologia dos principais acontecimentos:

.......A 03 de janeiro de 1975, delegações do MPLA e Unita reúnem-se em Mombaça, Quénia, para concertar uma plataforma comum de negociação com o governo português para a formação do governo de transição que conduziria Angola à independência.

.......Doze dias depois, os três movimentos de libertação de Angola (MPLA, FNLA e Unita) assinam os acordos de Alvor, Portugal, sob a égide do governo português, no qual se propõem a repartir as responsabilidades da governação do país.

.......Porém, a 20 de setembro do mesmo ano, soldados do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) e o Sétimo Batalhão de Infantaria do Exército zairense iniciam uma ofensiva para tomar Luanda.

.......A 14 de outubro, o governo dos EUA, com vista a liquidar o movimento revolucionário em Angola, lança o exército sul-africano contra Angola, aproveitando-se que os racistas sul-africanos ocupavam ilegalmente a Namíbia.

.......Nove dias mais tarde, as tropas sul-africanas lançam a operação "Savannah" contra o território angolano para auxiliar os guerrilheiros da Unita e impedir a tomada do poder pelo MPLA.

.......Entretanto, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (Fapla), com a ajuda de instrutores cubanos, impedem a progressão de mercenários de diversas nacionalidades ao lado do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA), na região de Kifangondo.

.......No dia 26 do mesmo mês, as forças sul-africanas, integradas por uma brigada mecanizada e por mercenários do "ELP" que penetraram no território angolano em duas colunas através de Ngiva e Ruacana, ocupam a cidade do Lubango, província da Huíla.

.......A 10 de novembro, na véspera da independência nacional, as Fapla, com a ajuda de instrutores cubanos, esmagam uma grande ofensiva de forças da Fnla e mercenários equipados com canhões sul-africanos de 140 mm e zairenses de 130 mm, na região de Kifangondo.

.......Apesar deste acto, no dia seguinte, o MPLA, sob liderança de António Agostinho Neto, proclama perante a África e o mundo, a independência de Angola.

.......No ano de 1976 e cinco meses depois de iniciada, o fracasso da operação "Savannah" contra o território da Republica Popular de Angola se materializou com a retirada do último soldado sul-africano, e três dias mais tarde, os representantes de Angola, Cuba e África do Sul assinam no Ruacana, Cunene, uma acta sobre as conversações em tomo da fronteira com a Namíbia.

.......A 22 de abril, os governos de Angola e Cuba definem, um mês depois das tropas invasoras sul-africanas se terem retirado de Angola, um programa de redução paulatina das forças internacionalistas.

.......A 18 de outubro de 1988, os chefes de Estado de Angola, José Eduardo dos Santos, do Gabão, Ornar Bongo, e do Congo, Sassou Nguesso, reúnem-se pela primeira vez em Franceville (Gabão).

.......Os negociadores do processo de paz anunciam, a 15 de novembro, terem chegado a um acordo sobre o calendário da retirada das tropas cubanas, abrindo caminho para a implementação da Resolução 435 da ONU sobre a independência da Nami'bia.

.......A 27 de abril, os presidentes do Zaire, Congo e Gabão, respectivamente, Mobutu Sesse Seko, Sassou Nguesso e Ornar Bongo, reunidos em Kinshasa, traçam a forma mais apropriada de ajudar Angola a encontrar a paz e a unidade nacional, tendo sugerido a realização, em Luanda, de uma cimeira regional.

.......Foi a 16 de maio que se realizou, na capital angolana, a Cimeira dos "oito" chefes de Estado de África Austral e Central, nomeadamente do Gabão, São- Tomé e Príncipe, Moçambique, Zâmbia, Zimbabwe, Congo e Zaire, sobre o processo de paz angolano, durante a qual Angola apresenta aos estadistas presentes um plano para o alcance da paz.

.......O presidente zairense, Mobutu Sesse Seko, confirma, a 8 de junho, ao seu homólogo angolano, José Eduardo dos Santos, que o líder da Unita tinha aceite o plano de paz do governo angolano.

.......O presidente José Eduardo dos Santos anuncia, durante uma reunião com os embaixadores angolanos, realizada no dia 21 de junho em Luanda, que o plano de paz do governo prevê o afastamento voluntário e temporário de Jonas Savimbi.

.......Esclarece, entretanto, que este afastamento insere-se no quadro do tratamento especial a dar ao caso do líder da Unita, e a integração dos demais membros da Unita na sociedade, segundo as suas capacidades individuais.

.......No dia 22 de junho, um aperto de mão entre o presidente José Eduardo dos Santos e o líder da Unita, Jonas Savimbi, na presença de 18 estadistas africanos, sela os acordos de Gabdolite (Zaire), entre o governo angolano e a Unita. Cinco dias depois, o governo angolano denuncia a violação do mesmo pela Unita.

.......No mesmo dia, Jonas Savimbi desmente ter aceite o seu afastamento da cena política para facilitar o processo de paz, e afirma ser essa uma mentira do marechal zairense, Mobutu Sesse Seko.

.......A 3 de julho, os chefes de Estado do Congo, Gabão e Angola, nomeadamente, Denis Ssasou Nguesso, Ornar Bongo e José Eduardo dos Santos analisam, durante uma reunião, em Ponta-Negra, o processo de reconciliação nacional, depois do fracasso de Gabdolite.

.......Dezesseis dias depois, delegações do governo e da Unita, sob mediação zairense, reúnem-se em Nseles, (república do Zaire), na sua primeira ronda negocial, e voltam a fazé-lo a 07 de agosto.

.......A 11 de agosto, o chefe de Estado angolano reúne-se, na mesma região, com o seu homólogo zairense, a quem encoraja a prosseguir os esforços de mediação no controverso processo de paz para Angola.

.......Ainda nesse mês, realizou-se no Congo, um encontro tripartido de concertação entre os presidentes de Angola, Congo e Zaire, antes da segunda Cimeira dos "oito", depois de Gabdolite.

.......No dia 22 de agosto, em Harare (Zimbabwe), os "oito" chefes de Estado reiteram o acordo de Gabdolite. Na cimeira, Mobutu fez circular uma proposta da Unita, na qual negava os pressupostos de Gabdolite, referentes ao cessar-fogo imediato e ao início de discussões políticas paralelas.

.......Depois do encontro, concretizam-se o impasse e a crise do acordo de Gabdolite, cujo fracasso se atribui a Mobutu.o ano de 1990 destacou -se devido à mudança de mediador do conflito, pois que, a 6 de abril, em face da ineficácia do acordo de Gabdolite, José Eduardo dos Santos prescinde da mediação zairense e opta pela portuguesa.

.......Doze dias mais tarde, Afonso Van-Dúnem "Mbinda" e Durão Barroso, ministro das Relações Exteriores de Angola e secretário de Estado da cooperação de Portugal, lançam as bases para Portugal mediar as conversações de paz, durante um encontro realizado em Lisboa.

.......Cinco dias depois deste encontro, delegações do governo e da Unita encontram-se pela primeira vez, sob mediação portuguesa, em Évora.

.......A 16 de junho, realiza-se a segunda ronda de conversações no Forte de São Julião da Barra, em Oleira. A reunião foi interrompida por decisão unilateral da Unita, que alegou ter sido chamada pela sua direcção para "consultas" na Jamba, seu quartel-general.

.......Aparentemente, estava em causa o problema da capacidade negocial dos enviados da Unita. A constituição do exército único e a fiscalização eram os temas em debate.

.......No dia 19, o secretário de Estado português da Cooperação e medianeiro do processo de paz para Angola, Durão Barroso, faz o balanço do encontro à imprensa e anuncia a ronda negocial seguinte para julho.

.......No primeiro dia do mês de agosto, Durão Barroso recebe, em audiências separadas, em Lisboa, o chefe da delegação da Unita e o viceministro angolano das relações exteriores, Venando de Moura.

.......Oito dias depois, na cidade de São Tomé, o primeiro-ministro português, Aníbal Cavaco Silva, anuncia um novo encontro entre o governo angolano e a Uni ta, e apela as duas partes a darem provas de flexibilidade para que se encontre a paz mais rapidamente.

.....A 15 de agosto, em Luanda, o governo angolano responsabiliza a

.......Unita pelo adiamento da nova ronda negocial, prevista para 21 de agosto.

.......No dia 27 de agosto realiza-se, finalmente, no Instituto de Altos Estudos Militares, nos arredores de Lisboa, a terceira ronda. As divergências entre as partes subsistem e a reunião termina sem resultados.

.......No entanto, Durão Barroso anuncia novo encontro para a segunda quinzena de setembro, e defende a participação futura de observadores norteamericanos e soviéticos.

 

 

 

1991-1993



ANOS MARCADOS PELOS ACORDOS DE
BICESSE E PELAS ELEiÇÕES GERAIS



.......O processo de paz em Angola, no período de 1991 a 1993, foi marcado por vários acontecimentos históricos para o panorama políticomilitar nacional, com destaque para a assinatura do acordo de paz, protagonizado pelo presidente da República José Eduardo dos Santos e o líder da Unita, Jonas Savimbi....

Assinatura do Acordo de Bicesse



.......A anteceder a assinatura do acordo, as delegações do governo e da Unita reuniram-se em fevereiro, na sexta ronda, para contactos bilaterais com a participação dos observadores, mas o impasse persistiu.
.......No mesmo período, Portugal, Estados Unidos da América e URSS aprovaram um documento de base para a próxima ronda negocial, tendo em abril se iniciado na Escola Superior de Hotelaria, em Bicesse (Estoril), a última ronda de conversações em torno do documento tripartido (Portugal, Estados Unidos e URSS) e de uma proposta da mediação, baseada em novo modelo de trabalho previamente acordado pelas partes: em regime "non stop".
.......A 15 de maio, Lopo do Nascimento, pelo governo angolano, e Jeremias Chitunda, pela Unita, rubricaram os acordos, sob observação portuguesa, na pessoa de Durão Barroso.
.......Dezesseis dias depois, José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi assinaram o acordo de paz, depois das duas forças políticas terem aceite o cessar-fogo e normas de convivência, nomeadamente a constituição de um exército único e a marcação de eleições pluripartidárias, para 1992.
.......A 12 de junho, o chefe da missão de verificação da retirada das tropas cubanas do território angolano, o general Péricles Ferreira Gomes, anunciou que 350 militares e 90 policiais da ONU, que doravante se denominara "Unavem-II", fiscalizariam o cumprimento do cessar-fogo em Angola.



.......Outro aspecto relevante nesse período foi o início, em Luanda, da primeira reunião da comissão conjunta político-militar e a convocação em Angola, pelo presidente da República, das eleições simultâneas, presidenciais e legislativas, para os dias 29 e 30 de setembro de 1992.




.......Já em setembro foi saliente a chegada ao país do novo
chefe da Unavem, major-general nigeriano Ushie Unimna, para substituir o brasileiro Péric1es Ferreira Gomes.
Um mês depois, o novo chefe militar da Unavem-II, o major-general nigeriano Ushie Unimna, foi empossado.
.......Ainda em outubro, o secretário-geral adjunto da ONU para os assuntos políticos especiais, Marrack Goulding, chegou à Luanda para inspeccionar os efectivos da Unavem-II, que em Angola procediam à fiscalização do cumprimento dos acordos de Bicesse.
.......A representante especial em Angola do secretário-geral da ONU, Margareth Anstee, admitiu naquele período a possibilidade da realização, na cidade do Namibe, de um encontro entre as delegações do governo e da Unita.
.......O Conselho de Segurança da ONU decidiu prolongar o mandato da Unavem-II em Angola até 31 de maio, e solicitou ao secretário-geral que remetesse um relatório sobre Angola com recomendações sobre o futuro papel daquele organismo das Nações Unidas.
.......No mês de maio, iniciou-se oficialmente o registo eleitoral em todo o país sob a égide do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), ao qual se seguiu, em junho, uma reunião em Luanda do CNE com o corpo diplomático dos países africanos acreditados em Angola, a fim de solicitar o seu apoio para o processo de paz no país.
.......Setembro ficou marcado pelo juramento de fidelidade à pátria e à constituição dos oficiais generais da Unita integrados nas novas Forças Armadas Angolanas (FAA), bem como pela realização das primeiras eleições gerais presidenciais e legislativas na história do país, depois de quase 500 anos de domínio português e 18 pós-independência.

Eleições em Angola

.......Um mês depois daquele histórico acontecimento, o líder da Unita rejeitou em declarações públicas os resultados eleitorais parcelares por alegada fraude, e ameaçou retomar à guerra caso fossem divulgados os resultados.
.......Na sequência das declarações de Jonas Savimbi, um número substancial de oficiais generais da Unita integrados nas FAA e que tinham jurado fidelidade à pátria e à constituição, retiraram-se do exército e aliaram-se à ala militarista.
.......No mesmo período, o Conselho de Segurança da ONU decidiu prorrogar o mandato da Unavem-II até 30 de novembro de 1992, para garantir um acompanhamento integral do processo eleitoral em Angola, manifestar a sua profunda preocupação pela deterioração da tensão política no país e reafirmar o total apoio à sua representante especial em Angola, Margareth Ardee, condenando veementemente os ataques e acusações infundadas da Unita contra a mesma.
.......No mês seguinte, chegou à Luanda o secretário-geral adjunto da ONU encarregado das operações de manutenção de paz, Marrack Goulding, para tentar aplicar medidas de segurança e de consolidação do cessar-fogo em Angola e relançar o processo de paz.
.......O chefe de Estado angolano José Eduardo dos Santos inaugurou, em Luanda, os tr'abalhos da segunda reunião multipartidária, no quadro das mudanças políticas no país, e a representante especial da ONU em Angola, Margareth Anstee, lamentou a ausência da Unita nessa reunião, destinada a consultas entre o governo e os partidos políticos.
.......As delegações do governo e da Unita encontraram-se na cidade do Namibe com o fito de iniciar as conversações à luz dos acordos de Bicesse, para pôr fim à situação crítica político-militar resultante da rejeição pela Unita dos resultados eleitorais e tentativas de tomada do poder pela força das armas.
.......O Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu prorrogar até finais de janeiro a presença da força da ONU em Angola - Unavem-II - e pediu o cumprimento dos acordos de paz às partes em conflito.
.......A organização renovou ainda o mandato da Unavem-II até 31 de janeiro de 1993 e exortou as partes para que respeitassem escrupulosamente o cessar-fogo e parassem imediatamente todos os movimentos de tropas.
.......Em janeiro de 1993, o secretário-geral da ONU, Boutros Gali, recomendou a redução ao mínimo da presença das Nações Unidas em Angola, de 700 para 64 membros, e a retirada completa daquele país se não houvesse progressos para um cessar-fogo até o dia primeiro de abril do mesmo ano.
.......De fevereiro a março, registou-se o início, em Addis-Abeba (Etiópia), de uma ronda destinada a alcançar um cessar-fogo depois do fracassado encontro do Namibe. Sem resultados palpáveis, a reunião decidiu uma nova ronda, 10 dias depois.
.......Em abril, a ONU confirmou oficialmente o reinício das conversações entre o governo e a Unita para o dia 12, em Abidjan (Côte D'Idoire), destinadas a tentar encontrar uma solução negociada para o conflito angolano.
.......O governo angolano e a Unira, sob a mediação da representante especial da ONU em Angola, Margareth Anstee, iniciaram em Abidjan uma nova ronda negocial, e o secretário-geral da ONU, Boutros Gali, condicionou a permanência da ONU em Angola a progressos nas conversações de paz no país.

.......Ao final da ronda, Margareth Anstee reconheceu o relativo fracasso da reunião de Abidjan, por não ter sido conseguido, até aquele momento, um acordo de cessar-fogo em Angola.
Naquele período, foi prolongado o mandato da missão de verificação das Nações Unidas em Angola, Unavem-II, por mais um mês, até maio, por decisão do Conselho de Segurança Internacional que operava no país.
.......Em maio, a representante especial das Nações Unidas em Angola, Margareth Anstee, mostrou-se favorável ao envio de uma força simbólica de capacetes azuis, para dar o necessário ambiente de confiança entre o governo e a Uni ta.
.......O primeiro encontro oficial entre o novo representante especial da ONU em Angola, Alioune Blounde Beye, e as autoridades angolanas, representadas pelo vice-ministro das Relações Exteriores, João Miranda, também foi um marco histórico para o alcance da paz.
Ainda em julho, o chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, recebeu no Futungo de Belas em Luanda, o representante da ONU Alioune Blondin Beye, com quem analisou a situação política do país. .......O encontro serviu também para a apresentação do novo chefe militar nigeriano major-general Chris Garuba.

 

 

 

1994


ANO MARCADO PELA ASSINATURA DO PROTOCOLO DE LUSAKA

.......Este acordo deu a possibilidade para a formação de um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), bem como a inclusão das forças da Unita no exército nacional.
O acordo foi rubricado depois de intensos meses de negociações entre as partes envolvidas no conflito, que tiveram o auxílio da "Troika" de Observadores (Rússia, EUA e Portugal) e do então medianeiro do processo de paz, o maliano Allioune Blindi Beye.


Assinatura do Protocolo de Lusaka



.......Os primeiros dias do ano começam com a visita do representante especial do secretário-geral da ONU, o maliano Maí'tre Beye, à República de São Tomé e Príncipe, a fim de contactar as autoridades locais e preparar a reunião das chefias militares do governo e da Unita. .
.......Maí'tre Beye estende a sua viagem ao Gabão e ao Zaire, para informar os presidentes Ornar Bongo e Mobuto, respectivamente, do andamento das conversações para a paz em Angola.
.......As conversações entre o governo e a Unita são retomadas no dia 24, depois de uma pausa provocada pela deslocação de Blondin Beye à Luanda, onde se encontrou com a directora executiva do Programa Alimentar Mundial (PAM), Caterine Bertini.
.......As delegações do governo e da Unita aprovam os princípios gerais sobre reconciliação nacional, depois de duas semanas de discussão.
.......O governo e a Unita decidem, a 28 de março, avançar com a discussão para a conclusão do processo eleitoral, devido ao impasse surgido nos debates das questões de participação da Unita nos diversos níveis de poder angolano.
.......O governo e a Unita chegam a um acordo, a 20 de abril, sobre os quatro princípios gerais a reger na segunda volta das eleições presidenciais em Angola, numa reunião plenária com a presença do medianeiro e dos observadores do processo de paz.
A 9 de setembro, o Conselho de Segurança da ONU aprova uma declaração sobre Angola, na qual estabelece a data de 30 de setembro para o fim das conversações de paz.
.......A 20 de novembro, o governo e a Unira assinam o Protocolo de Lusaka, representados por Venâncio de Moura e Eugênio Manuvacola, respectivamente, ministro das Relações Exteriores de Angola e chefe da equipa negocial da Unita.
.......Dois dias depois, entra em vigor o cessar-fogo, em todo o território
nacional, pondo fim às hostilidades entre o governo e a Unira.
No dia 26, a Comissão Conjunta (CC), órgão coordenador da implementação do processo de paz angolano, reúne-se pela primeira vez em território nacional, depois da assinatura dos acordos de Lusaka.
.......No dia 6 de dezembro, o presidente da República, José Eduardo dos Santos, reúne-se no Futungo de Belas, em Luanda, com 55 líderes de partidos políticos e representantes das principais associações.
.......No dia 8, o Conselho de Segurança da ONU prorrogou a missão de verificação para Angola-Unavem-II para até 8 de março de 1995, e adiou o seu reforço até que o cessar-fogo fosse respeitado.

 

 

1995



MINI-CIMEIRA DESTINADA A UM NOVO IMPULSO AO 
PROCESSO DE PACIFICAÇÃO



.......O mês de fevereiro ficou marcado pelo anúncio do presidente da República ter recebido do líder da Unita uma resposta positiva para uma reunião.

.......A 6 de maio, tem lugar o encontro entre o presidente da República, José Eduardo dos Santos, e o líder da Unita, Jonas Savimbi, em Lusaka, Zâmbia, seis meses depois da assinatura do Protocolo de Lusaka, numa mini -cimeira destinada a dar novo impulso ao processo de pacificação.
.......A 20 de maio, chega à Luanda o Primeiro Batalhão de Infantaria dos Capacetes Azuis, composto por 200 soldados da Índia. O grupo juntou-se aos 46 observadores militares da ONU provenientes da Jordânia, Malásia e Suécia, que já fiscalizavam o cessar-fogo em Luanda, desde janeiro.
.......A 21 do mesmo mês, o governo angolano convida oficialmente o líder da Unita, Jonas Savimbi, a ocupar o cargo de vice-presidente da República, com base nas consultas efectuadas anteriormente entre Luanda e Bailundo.
.......O dia 14 de julho ficou marcado pela visita de três dias do secretário geral da ONU, Boutros Ghali, a Angola, a terceira de um S.G. desse organismo internacional.
.......Nesse mesmo dia, o chefe do Estado-Maior do Exército do Zimbabwe, general Phillip Sibanda, é nomeado chefe das Forças de Manutenção da Paz das 'Nações Unidas em Angola.
.......Para o mês de agosto, o realce vai para a aprovação, no dia 7, pelo Conselho de Segurança, por unanimidade, da Resolução 1.008, na qual se prorrogou igualmente por mais seis meses o mandato da missão de verificação da ONU para Angola (Unavem-III).
No dia 9, o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, e o líder
da Unita, Jonas Savimbi, reúnem-se numa cimeira em Franceville, Gabão.
.......A 24 de setembro, o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, e o líder da Unita, Jonas Savimbi, reúnem-se em Bruxelas, Bélgica, na véspera da primeira mesa redonda de doadores destinada a obter fundos para a reconstrução de Angola, com vista à concertação de posições.
.......No dia seguinte, ambos participam em Bruxelas, Bélgica, de uma conferência de doadores destinados à obter fundos para a reconstrução de Angola.



1996



ESFORÇO DO GOVERNO EM CUMPRIR COM A 
IMPLEMENTAÇÃO DO PROTOCOLO DE LUSAKA



.......As tentativas do governo angolano em cumprir e fazer cumprir a implementação do Protocolo de Lusaka (Zâmbia) marcou o ano de 1996 no país.

.......A 4 de janeiro, o governo transmite aos Estados Unidos a sua preocupação pelo facto de a Unira não ter retomado até a data o processo de aquartelamento das suas tropas. O representante especial da do secretário geral da ONU em Angola, Alioune Blondin Beye, transmite ao presidente da República o desejo do secretário-geral da ONU, Boutros Ghali, de ver "em Angola uma paz definitiva".
.......Já na segunda quinzena, os Estados Maiores das Forças Governamentais e da Unita concordam em incluir 26 mil e 300 efectivos dos guerrilheiros de Savimbi nas FAA, sendo 26 mil para o Exército, 200 na Força Aérea (FAN) e 100 na Marinha de Guerra.
Em Negage, Uíge, a Unavem-III garante estarem criadas todas as condições de logísticas para o aquartelamento de cerca de metade do efectivo previsto pela Unita.
.......Boutros Ghali, então secretário-geral da ONU, recomenda ao Conselho de Segurança o prolongamento do mandato da missão de verificação da ONU em Angola (Unavem-III), até 8 de agosto. Já em fevereiro, 139 capacetes azuis portugueses integrados na Unavem-III são condecorados em Luanda com medalhas da organização mundial, devido ao serviço prestado ao país.
.......Alguns dias depois, por via telefónica, o líder da Unira, Jonas Savimbi, informa a Madeleine Albright, embaixadora norte-americana em Angola, que no máximo até o dia 10 de fevereiro teria cumprido a sua promessa de acantonar 16 mil e 500 soldados.
.......Enquanto isto, o Conselho de Segurança da ONU prorroga por mais três meses o mandato da missão de verificação da ONU em Angola (UnavemIII), e pede para ser informado mensalmente sobre o processo de desmobilização das tropas.
.......A Unita aquartela, a 14 de fevereiro, 13 mil militares dos 16 mil e 500 previstos, dos quais 4 mil no Negage, 1.700 em Quibaxi, (Bengo), 3 mil na Vila Nova e igual número no Lunduimali (Huambo).
No final do mês, o governo e a Unita reúnem-se em Luanda, para a discussão de um novo calendário de aplicação do Protocolo de Lusaka, e identificam alguns pontos comuns sobre acções específicas para fazer avançar o processo de paz.
.......Em março termina em Libreville a Cimeira entre o presidente José Eduardo dos Santos e o líder da Uni ta, Jonas Savimbi. No encontro, o chefe de Estado angolano convida Jonas Savimbi a ocupar o cargo de vice-presidente, após Savimbi ter apresentado a lista dos membros do seu partido para integrar o futuro governo de unidade nacional e aceite o adiamento das eleições até o ano 2000.
O secretário-geral da ONU, Boutros Ghali, critica, a 8 do mesmo mês,
os atrasos e o insuficiente progresso no cumprimento do processo de paz.
.......Em Luanda, o chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, promulgou
a nova lei de amnistia, depois da sua aprovação pela Assembléia N aciona!.
.......Porém, a Unita opõe-se à lei de amnistia promulgada pela Assembléia Nacional, e anuncia que não enviará os seus generais e outros oficiais à Luanda, pois duvidava da vontade do governo de cumprir todos os pontos dos acordos de Lusaka .
.......No dia 20, em Luanda, reiniciam-se as conversações militares entre as delegações da Unita e do governo, para a abordagem do regresso dos generais da Unita ao exército único. As chefias militares da Unita e do governo acordam os meses de junho e julho como período para a conclusão da formação do exército único.
No mesmo período, a Unita condiciona o prosseguimento do processo de selecção e incorporação dos seus efectivos nas FAA à participação do seu "Estado Maior" nesta operação, e o Conselho de Segurança da ONU decide prorrogar até 11 de outubro a Unavem-III.

.......No Andulo, uma delegação do governo na Comissão Conjunta aborda com o líder da Unita a retomada do processo de selecção e incorporação, em bases sólidas, das tropas de Jonas Savimbi, enquanto o chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, recebia, em Luanda, o medianeiro do processo de paz, a quem informou o resultado da sua última conversa telefónica com o líder da Unita.

.......Em agosto, Jonas Savimbi recebe uma mensagem do primeiro ministro português, António Guterres, sobre o assunto, mas Savimbi respondeu que iria rejeitar ocupar uma das vice-presidências que lhe foi proposta pelo governo, no quadro da reconciliação nacional, em face das condições que rodeiam a criação do cargo.
.......A 9 de setembro, o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, recebe em Luanda uma mensagem do seu homólogo norte-americano, Bill Clinton, que aborda a problemática do processo de paz, chegando também à Luanda os primeiros cinco generais da Unita, com destaque para "Ben-Bem" e "Wiyo", para finalizar as negociações de todo o processo de incorporação nas FAA.
.......Em outubro, a cimeira dos chefes de Estado e de governo da SADC recomenda a realização" o mais urgente possível" de uma reunião de alto nível entre o governo e a Unita, a fim de ser ultrapassado o clima de desconfiança ainda prevalecente no processo de paz.
.......Em outubro, chegam também à Luanda os restantes quatro generais da Unita que integrariam as FAA. Trata-se de Demostenes Chilingutila, Alberto Canjongo Pongolola "Bunji", David Wenda Catapa e Job Sungueto "Long Fellow" .
.......Em novembro, a Assembléia Nacional aprova, em sessão plenária ordinária, um Projecto de Resolução que revoga uma outra referente ao cargo de vice-presidente da República, a revisão da lei constitucional e de reajustamento do orçamento geral do Estado.
No dia 25 do referido mês, o governo e a Unita iniciam, em Luanda, conversações para a constituição de um governo de unidade e reconciliação nacional (GURN), o regresso dos deputados do maior partido da oposição ao Parlamento, o acordo sobre o estatuto especial de Jonas Savimbi e a extensão da administração do Estado a todo o território nacional.
.......Em dezembro, nove generais provenientes da Unita são oficialmente incorporados nas FAA.




1997


DESARMAMENTO, AQUARTELAMENTO E 
INTEGRAÇÃO DOS MILITARES DA UNITA 
NO EXERCITO NACIONAL



.......Neste âmbito, durante o mês de janeiro, 18.577 efectivos da Unita foram se1eccionados em todo o país, com vista à sua integração nas Forças Armadas Angolanas (FAA), dos quais 521 são oficiais, 1.099 sargentos e 656 soldados.
Segundo a Unavem-III, desde o início do processo, a 24 de setembro de 1996, já se encontravam incorporados nas FAA 72 oficiais das Forças da Unita e 1.072 menores desmobilizados nas 15 áreas de aquartelamento.
.......A fonte refere ainda que 4.832 polícias da Unira foram transportados das zonas em que se encontravam para as respectivas áreas de aquartelamento, e entregaram à Unavem-III 2.150 armas de vários calibres e 4.085 quilogramas de munições diversas.
.......Ainda neste período, o líder da Unira, Jonas Savimbi, vai à África do Sul convidar o presidente Nelson Mandela para mediar a realização do seu quinto encontro com o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos.
.......Alguns dias depois, José Eduardo dos Santos lança um apelo ao governo sul-africano no sentido de não abrir novas vias de diálogo no processo de paz em Angola, alistando-se a respeitar a mediação das Nações Unidas, ao receber cumprimentos de fim de ano do corpo diplomático acreditado no país.
.......Neste processo, o chefe da delegação do governo na Comissão Conjunta, Faustino Muteka, e o seu adjunto, Higino Carneiro, abordam com a direcção da Unira, no Bailundo (Huambo), aspectos sobre o estatuto especial de Jonas Savimbi, a tomada de posse dos deputados da Unira na Assembléia Nacional e a formação do GURN.
Durante o mês, outras centenas de efectivos militares e polícias provenientes da Unira foram patenteados e integrados nas FAA e polícia nacional, vários menores são desmobilizados e passam à vida civil. Enquanto isso Jonas Savimbi garante à ministra de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Commonwealth, a baronesa Linda Chalre, que vai enviar a tempo os seus quadros para integrarem o Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN) previsto para 25 de janeiro.
.......Neste mês, doze deputados e quatro governantes da Unita chegam à Luanda, no dia em que se esgota o prazo dado à organização para enviar à capital do país todos os seus membros escolhidos para o Parlamento e o futuro governo.
.......Por outro lado, a Unavem-III dá como ausente, nas cinco áreas de acantonamento, 17.190 efectivos da Unita, acrescentando que até a data 4.882 polícias da Unita foram seleccionados para integrar o corpo nacional angolano de polícia, incluindo a de intervenção rápida, tendo 774 polícias desertado.
.......Até 19 de fevereiro, segundo a Unavem, dos 26.300 militares da Unita previstos para a integração no exército nacional único, apenas estavam incorporados 78 oficiais, 451 sargentos e 5.554 praças. Por outro lado, o número de soldados desertores da Unita subiu para 17.606, permanecendo nos 65.844 registados pela Unavem-III.
.......O presidente da República, José Eduardo dos Santos, aborda, em Luanda, com o representante especial de Kofi Annan, Aliuone Blondin Beye, questões militares e políticas e da ajuda humanitária para actualizar o relatório do secretário-geral da ONU discutido pelo Conselho de Segurança.
.......Ainda no dia 25 de fevereiro, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, solicita, em Luanda, que o futuro Parlamento angolano se transforme no símbolo de paz, unidade e reconciliação reconquistadas, em discurso proferido no Parlamento que, pela primeira vez, acolheu a maior parte dos 70 deputados da Unita eleitos em 1992 para este órgão legislativo.
A Unita compromete-se em enviar à Luanda, até o dia 27, a parte restante dos seus membros indigitados para integrarem o GURN e a Assembléia N aciona!.
.......No dia 27 de fevereiro o Conselho de Segurança da ONU admite voltar a aplicar contra a Unita as sanções suspensas desde 1993, se até a próxima reunião não se registassem avanços significativos na formação do GURN, e decide prorrogar até o dia 3 de março o mandato da Unavem-III.

.......Nos dias seguintes, o medianeiro do processo de paz, Alioune Blondin Beye, mantém contactos com várias personalidades, e com a Comissão Política da Unita analisa questões relativas ao processo, afirmando que a fixação da data de empossamento do GURN depende do resultado das consultas que têm sido efectuadas entre as delegações do governo e da Unita na Comissão Conjunta.
.......A 21 de março, em relatório, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, considera a Unita a principal responsável pelos últimos atrasos na formação do GURN em Angola, por não cumprir o compromisso de enviar todos os seus representantes à Luanda, para ocupar os seus lugares na Assembléia Nacional.
.......O Conselho de Segurança da ONU apela ao governo e à Unita para aproveitarem a presença do secretário-geral da ONU em Angola para instalarem o GURN, e adverte que considerará necessária a imposição de medidas punitivas "contra a parte responsável" pelo falhanço na formação deste. A Assembléia Paritária da União Européia-África, Caraíbas e Pacífico considera, em Bruxelas, a Unita a principal responsável pelas "irregularidades" e "atrasos" do processo de paz.
.......Um dia depois, o secretário-geral da ONU manifesta-se em Luanda, esperançado de que o GURN venha a ser instituído em Angola antes do dia 31 de março. Mais tarde avista-se com o presidente da República, José Eduardo dos Santos, a quem transmite as promessas do líder da Unita sobre o envio à Luanda dos seus deputados e membros que integrarão o GURN, dentro de quatro dias.
No Bailundo, Kofi Annan considera passos decisivos e concretos as garantias dadas por Jonas Savimbi de enviar à Luanda os restantes deputados e membros do GURN do seu movimento. Porém, o líder da Unita descartou a possibilidade de estar presente em Luanda para assistir o acto de empossamento.
.......No dia 25, o secretário-geral da ONU recomenda ao Conselho de Segurança a prorrogação, até 15 de abril, da missão de verificação da ONU em Angola que termina a 31 de março. No dia seguinte, o seu representante Alioune Blondin Beye informa, em Luanda, ao corpo diplomático acreditado em Angola, os últimos desenvolvimentos de paz.

.......A 28 de março, três membros da Unita indigitados para o GURN e 12 deputados para o Parlamento chegam à Luanda, vindos do Bailundo (Huambo) para tomar posse.
.......Dois dias mais tarde, o medianeiro do processo de paz angolano, Alioune Blondin Beye, manifesta-se satisfeito com a decisão do governo e da Unita de confirmar para 9 e 11 de abril a tomada de posse dos deputados e do GURN.

.......O Conselho de Segurança da ONU prolonga o mandato da UnavemIII até o dia 6 de abril, e felicita a decisão da Unita de permitir a presença em Luanda da totalidade dos seus membros à Assembléia Nacional, considerando indispensável a implementação de medidas urgentes pelo governo e a Unita para cumprir os seus compromissos para que a comunidade internacional possa continuar a participar no processo de paz.
.......Alioune Beye reafirma em Luanda, em um acto especialmente dirigido à imprensa, que o estatuto a ser atribuído ao líder da Unita, Jonas Savimbi, será aprovado pela Assembléia Nacional antes do dia 9 do corrente mês. A 7 de abril o Conselho da República, órgão de consulta do chefe de Estado, debruça-se, em sua reunião extraordinária, sobre a formação do GURN.
.......Um dia depois, 21 agentes da polícia nacional provenientes da Unita são patenteados em Luanda nos graus de oficiais e sargentos, enquadrados na unidade de protecção de individualidades protocolares. Foram patenteados 17 como inspectores e subinspetores, e os quatro restantes no grau de segundo sargento.
.......A lOdo mesmo mês, o presidente José Eduardo dos Santos nomeia, por decreto presidencial, os membros do GURN.
.......Finalmente, a 11 de abril, é empossado, em Luanda, o GURN
composto por 28 ministros, 55 vice-ministros e um secretário de Estado.


1998



MORTE DE BLONDIN BEYE MARCA CENÁRIO POLÍTICO-MILITAR



.......O desenrolar da cena político-militar em Angola, no ano de 1998, ficou marcado pela morte, a 26 de junho, por acidente de avião, na Costa do Marfim, do mediador do processo de paz, o maliano Alioune Blondin Beye, aos 56 anos de idade.
A morte de Beye ocorreu numa altura em que o processo de paz verificava um impasse devido à recusa da Unita em dar passos concretos para a conclusão do Protocolo de Lusaka.
.......No entanto, o ano de 1998 começou de forma positiva no que concerne ao cumprimento pelo governo e a Unita das tarefas inerentes ao Protocolo de Lusaka, com o início da desmobilização de cerca de 1.600 soldados residuais da Unita a 5 de janeiro, no Bailundo, Huambo, e numa altura em que nas localidades de Sambo, Sambote, Chiumbo e Chinhama já haviam sido desmobilizados 200 militares.
.......Ainda em janeiro, verifica-se o incremento da reposição da administração do Estado em várias localidades, com realce para as povoações de Lukunga (Bocoio), Hanja (Chongoroi), Chiluange(Muconda).
.......Três dias depois, o presidente José Eduardo dos Santos envia uma mensagem ao líder da Unita relacionada com o próximo encontro entre os dois políticos, da qual é portador o chefe-adjunto da Delegação do Governo na Comissão Conjunta, Higino Carneiro.
No entanto, ainda em janeiro verificam-se alguns incidentes que mancham o bom andamento do processo de paz, dos quais se destaca a descoberta de um paiol de armamento pela polícia nacional em Malange, com 80 espingardas-metralhadoras Akm, 11 carregadores, três Rpg7, um morteiro de 81 milímetros, 14 minas antipessoal, 68 munições, um míssil antitanque e outros materiais bélicos.
.......No Huambo, descobrem-se 232 obuses de morteiro, 159 granadas diversas, 3.600 cartuchos de antiaéreas e metralhadoras de Pkm, 29 espingardas, um Rpg7, um morteiro e dois mísseis. De igual modo caças da Força Aérea angolana interceptam o Kuando- Kubango, um cargueiro do tipo c-4, com oito pessoas a bordo, e que transportava provisões e material de extracção de diamantes para a Unita.
.......Os meses de fevereiro e março ficaram marcados por algumas acções de reposição da administração do Estado a diversas localidades, a constatação de uma série de violações ao Protocolo de Lusaka, destacando-se o assassinato e rapto de vários cidadãos pelas tropas residuais da Unita.
Durante o mês de fevereiro, as Nações Unidas divulgam os nomes dos dirigentes e quadros da Unira proibidos de circular no exterior. Na lista destacam-se os nomes de Jonas Savimbi, Antônio Dembo, Paulo Lukamba Gato, Altino Sapalalo "Bock", Alcides Sakala, Marcial Dachala, entre outros.
.......A 3 de abril, o enviado do presidente norte-americano, Paul Hare, recebe, no Andulo, garantias do líder da Unira de que os assuntos que restam por concluir no protocolo serão resolvidos brevemente, para três dias depois o Conselho de Segurança da ONU apelar à Unira a cooperar plenamente com o governo angolano, nas questões ainda pendentes.
Ainda na primeira quinzena de abril, Antônio Dembo realça que "não fazia sentido a continuação das sanções impostas à sua organização pela ONU, e no final do mesmo mês (29) o presidente sul-africano, Nelson Mandela, reafirma, em Luanda, "o apoio inequívoco do seu país ao processo de paz em Angola, com base ao preceituado no Protocolo de Lusaka.
.......A 15 de maio, o medianeiro do processo de paz Alioune Blondin Beye tenta, no Bailundo, convencer o líder da Unita Jonas Savimbi e a sua direcção política para viabilizar a reposição da administração do Estado no Bailundo, Mungo, Andulo, Nharea e noutras localidades. No mesmo dia tropas residuais da Unita atacam a localidade da Hanja, em Benguela.
.......Já no princípio de junho, Blondin Beye denunciou, em Luanda, a existência de tropas organizadas da Unita em algumas províncias, após esta organização ter declarado já não possuí-Ias.
No mesmo documento, a ONU proíbe a importação de diamantes que não estejam certificados pelo governo, e impede todos os contactos oficiais com os dirigentes da Unira.
No entanto, o curso normal do Protocolo de Lusaka é abalado pela morte prematura e inesperada do medianeiro do processo de paz, Alioune Blondin Beye.
.......De Maputo, levanta-se a voz do secretário-geral da Organização da Unidade Africana (OUA) Salim Ahmed Salim, que apela a Unita a cumprir o postulado no Protocolo de Lusaka. Já em Luanda, o chefe interino da Comissão Conjunta, General Kofi Obeng, mostra-se esperançado no processo de paz e afirma que apesar da crise ele terá um desfecho positivo.
.......Em agosto, chegam à opinião pública, por meio do jornal norteamericano "New York Times" e do sul-africano "Star", denúncias de que a Bulgária tornou-se fornecedora de armas para Uni ta, e que mais de 300 mercenários, muitos dos quais sul-fricanos, entraram em Angola para combater ao lado da Unita.
.......Tendo em conta as diversas acções subversivas desenvolvidas pela Unita, o governo angolano adverte que os seus representantes nas diferentes instituições do Estado poderão ser suspensos das suas funções, se o movimento de Jonas Savimbi não se desmilitarizar até o final do mês.
.......A Unita declara, em comunicado, que passará a "ignorar toda e qualquer colaboração com a "Troika" de observadores (Portugal, EUA e Rússia), acusando-os de ferir os critérios de neutralidade, equidistância e isenção.
.......Nos meses de setembro e outubro, verificam-se diversas campanhas diplomáticas para pôr cobro à degradação da situação político-militar no país. Nota-se a ascensão do movimento renovador da Unita, liderado por Jorge Valentim, Eugénio Manuvakola e o general Chilungutila, que apelam aos seus colegas a abandonar a ala militarista do partido e enveredar por uma luta meramente política.
Numa visita à Luanda, no princípio de novembro, a sub-secretária de
Estado norte-americana para os Assuntos Africanos, Susan Rice, realça a tendência belicista de Jonas Savimbi como razão fundamental do recrudescer do conflito angolano; e em Viena, Áustria, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama, afirma na cimeira Europa-SADC que a "principal causa" da crise em Angola é a recusa da Unita belicista em cumprir os compromissos no âmbito do Protocolo de Lusaka.
.......Eugênio Manuvakola anuncia após um encontro com o medianeiro do processo de paz, Issa Diallo, que cerca de quatro mil soldados savimbistas já aderiram ao movimento renovador.
Dias depois, a direcção provisória da Unita responsabiliza Jonas Savimbi pela desastrosa política de confrontação militar que pode conduzir o país a uma nova guerra.
.......Na senda da onda terrorista, militares da Unita abatem um avião do tipo Antonov, de fabrico russo, na área de Kunhinga, Bié.

 



1999


"OPERAÇÃO RESTAURO" - O MARCO DA 
VIRAGEM PARA O CAMINHO DA PAZ


Manifestação a favor da paz



.......O início da "Operação Restauro", pelas Forças Armadas Angolanas (FAA), em 17 de setembro de 1999, marcou o começo da derrocada das tropas da Unita, depois de, meses antes, terem iniciado a guerra e ocupado mais de 50% do território nacional.
.......Num período em que os combates se agudizavam, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, defendeu a retirada da missão de observação das Nações Unidas em Angola, levando o Conselho de Segurança a estudar com o governo as modalidades do tipo de presença da ONU no país.
.......Ainda no decorrer do mês de janeiro, o governo acusou em Libreville (Gabão), o Burkina-Faso, Togo, Ruanda, Uganda, Zâmbia e forças ligadas ao antigo regime da África do sul de terem ajudado Jonas Savimbi a rearmar o seu exército para uma nova guerra.
Esta acusação do governo angolano foi acrescida por várias denúncias de organismos e personalidades internacionais, que afirmaram o envolvimento de companhias aéreas de vários países, principalmente Togo, Côte D'Ivoire e Burkina-Faso, no abastecimento de equipamentos militares as tropas da Unita.
.......Com vários dados apresentados, o Executivo angolano enceta, no mês de fevereiro, uma operação diplomática consubstanciada em encontros a nível internacional e declarações de indignação sobre a conduta de certos indivíduos em relação à Unita.
.......Deste modo, o presidente da República, José Eduardo dos Santos, abordou, em Luanda, com o representante do secretário-geral da ONU em Angola, Issa Diallo, a situação vigente no país.
.......Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores de Angola, João Miranda, alertou várias entidades sobre o conflito em Angola, entre elas o enviado especial do presidente norte-americano para os grandes lagos, Howard Wolpe, e o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama.
.......No mês de fevereiro, o Conselho de Segurança (CS) acolhe favoravelmente, em Nova Iorque, um relatório que propunha classificar como "crime" a prestação de apoio logístico à Unita.
.......Por esta razão, o embaixador da Côte D'Ivoire em Luanda, Eetienne Eezo, anunciou na capital do país que o seu governo anulou todos os passaportes que concedeu a indivíduos da Unita militarista.
.......Devido às exigências do governo angolano da retirada incondicional da Monua, por esta não cumprir o seu papel, o CS da ONU deu por terminada a referida missão, baseada na Resolução n° 1.299.
.......Em março, o Conselho de Ministros da Organização de Unidade Africana (OUA) condenou a Unita pela retomada da guerra e defendeu o seu isolamento. E a polícia sul-africana expulsou do seu território 43 pilotos estrangeiros e 23 aeronaves que utilizavam ilegalmente aeródromos do país para o abastecimento da Unita.
.......No mesmo período, a comunidade de desenvolvimento da África
Austral (SADC) e os Estados Unidos da América (EUA) prometeram, em Gaberone (Botswana), fornecer ao Comité de Sanções da ONU todas as informações ligadas ao fornecimento de armamento e logística à Unita.
.......Durante a 22a Conferência da União Interparlamentar Africana, decorrida em Luanda, os parlamentares recomendaram a todos os países do continente que velassem pelo território angolano, por forma a não servir de retaguarda para o desencadeamento de acções terroristas, que seus autores fossem presos, submetidos à justiça ou extraditados.
.......Por sua vez, o presidente norte-americano, Bill Clinton, emitiu uma ordem executiva que orientava a continuidade da lei de emergência nacional, decretada a 26 de setembro de 1993, contra a organização terrorista de Jonas Savimbi.
Bill Clinton disse ainda que os actos terroristas das forças de Jonas Savimbi constituíam uma ameaça à política externa da administração norteamerIcana.
.......Outro aspecto marcante em setembro foi a posição do ministro da Defesa Nacional, general Kundi Paihama, que desvalorizou, na sessão de abertura do VI Congresso da Comissão Mista Permanente da Defesa e Segurança Angola/Namíbia, a suposta intenção de Jonas Savimbi de negociar com o governo angolano, qualificando tal atitude como uma manobra diversionista.
.......A retomada do Andulo pelas Forças Armadas Angolanas (FAA), um dos maiores redutos da Unita de Jonas Savimbi, e o anúncio do governo de Angola sobre a libertação dos municípios do Bailundo, Andulo, Kalandula, Kangamba, Kalussinga, Londuimbali, Luacano, Luau, Lumbala Nguimbo, Mungo, Mussende e Tempwe, também foram marcos importantes registados no princípio e em meados de outubro.
.......No dia 17, o chefe do Estado-Maior, general das FAA, João de Matos, tranquilizou o país, na base da Catumbela, ao afirmar que "não era mais possível a Savimbi tomar o poder pela força das armas".



2001


AUMENTO DA PRESSÃO INTERNACIONAL SOBRE A UNITA


.......A Televisão Namibiana anuncia que sete elementos do grupo terrorista foram mortos e quatro outros feitos prisioneiros em combate com as forças namibianas junto à fronteira com Angola.
.......O Parlamento Europeu (EU) decide aumentar a pressão sobre a Unita, exortando-a a respeitar os acordos de Lusaka e responsabilizando-a pelo reacender das hostilidades em Angola.
.......O Conselho de Segurança das Nações Unidas, em reunião consagrada à situação política em Angola, decide reforçar o regime de sanções impostas à Unita. 
.......A Conferência Ministerial da OUA, no final dos seus trabalhos, convida os estados membros a isolarem totalmente a Unita belicista.
O presidente da Unita Renovada, Eugênio Manuvakola, acusa, em, Benguela, lonas Savimbi de ter mandado matar o ex-chefe do Estado Maior General das FALA, general Altino Sapalalo "Bock", e os generais "Tarzan" e "Bigin" .
.......Em 28 de março, as FAA retomam as localidades de Cuilo Pombo e Calumbo, nos municípios de Sanza Pombo, e Puri na Província do Uíge.
.......No Caxito, a 5 de maio, um ataque resultou na morte de mais de 200 pessoas e no ferimento de várias outras, além do rapto de 60 crianças e adolescentes, entre os 10 e 18 anos.
A 9 de maio, as Nações Unidas exigem a libertação imediata das 60
crianças raptadas por militares de lonas Savimbi.
.......O cativeiro das crianças e adolescentes raptados no Caxito viria .terminar a 25 de maio, quando uma unidade das Forças Armadas Angolanas os libertou na área de Ambaka, província do Kwanza-Norte.
.......Em agosto, no Zenza do Itombe, Kwanza-Norte, registaram-se duas centenas e meia de mortos no comboio de mercadorias e passageiros que fazia o trajecto Luanda-Dondo. O ataque deixa também dezenas de feridos.
.......No primeiro dia de setembro, mais de 40 pessoas morreram nas Cachoeiras, uma localidade turística, cerca de 48 quilômetros da cidade do Sumbe, capital do Kwanza-Sul.
A 21 de novembro, no Ambriz, a Unita massacra onze civis, na sua
maioria velhos, mulheres e crianças.

 



2002

ANGOLA ALCANÇA A PAZ
.....


Assinatura do Memorando de Entendimento/ Luena FAA-UNITA

.......O ano de 2002 ficará inscrito nos anais da História de Angola como o ano da paz, na sequência da morte do líder da rebelião armada e da assinatura do acordo de cessar-fogo definitivo.

.......Em 22 de fevereiro, registou-se no Lucusse, no Moxico, o confronto entre as forças governamentais e tropas da Unita, que culminou com a morte do líder da Unita militarista, Jonas Savimbi.
Neste mesmo dia, a "Troika" de Observadores do Processo de Paz (Portugal, Estados Unidos e Rússia) é formalmente informada sobre os acontecimentos de Lucusse pelo ministro angolano das Relações Exteriores, João Miranda.
.......De Nova lorque, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, reitera a determinação da ONU em prosseguir com o processo de paz angolano, mesmo com a morte do líder da rebelião.
Três dias depois, o coordenador do Comité lntersectorial do Processo de Paz, Fernando da Piedade "Nandó", disse que o governo angolano pretende avançar para um cessar-fogo se os militares, que ainda se encontrem nas matas, manifestem a intenção de pôr fim às hostilidades.
.......Em março, as FAA anunciam a intenção de estabelecer contactos com as chefias militares da Unita, gesto este que é saudado em Luanda por políticos da oposição.

Uma missa a favor da paz em Angola


.......O chefe do Estado-Maior General Adjunto das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, declara que a guerra em Angola "está próxima do fim" com a morte do ex-líder da rebelião.
.......No dia 13 de março, o Estado-Maior General das FAA é instruído pelo governo angolano, através da sua Declaração à Nação, no sentido de ordenar as tropas a cessar todos os movimentos ofensivos a partir da zero hora do dia 14, de modo a permitir o estabelecimento de contactos directos, no interior, entre as chefias militares das FAA e da Unita.
.......Imediatamente a seguir àquela instrução (isto no dia 15), iniciam-se os primeiros contactos entre as chefias militares das FAA e da Unita, representadas respectivamente pelos generais Nunda e "Kamorteiro".
.......A 20 de março, prosseguem os trabalhos entre as subcomissões das chefias militares das FAA e da Unita. 

.......Dia 30, após sete dias de conversações, é rubricado um memorando de entendimento, complementar ao Protocolo de Lusaka, para a cessação das hostilidades e a resolução das questões pendentes.
A 4 de abril, o memorando de entendimento complementar ao Protocolo de Lusaka, para o cessar-fogo definitivo e a resolução das questões pendentes, foi assinado, formalmente, no Palácio dos Congressos, em Luanda, pelos generais Armando da Cruz Neto, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), e Abreu Muengo Ukuatchitembo "Kamorteiro", chefe do Alto Estado-Maior Geral das Forças da Unita.
.......O Sub-secretário das Nações Unidas para os Assuntos Africanos, Ibrahi Gambari, e os representantes dos países da "Troika" dos observadores, nomeadamente, Crhistopher William DeU, dos Estados Unidos da América, Sergey Andreev, da Rússia, e Fernando Neves, de Portugal, rubricaram também o acordo de cessar-fogo.
.......A cerimônia de assinatura ocorreu na presença do chefe de Estado Angolano, José Eduardo dos Santos, e do coordenador da Comissão de Gestão da Unira, Paulo Lukamba Gato. Poucos dias depois deste acto, seguiu-se a aprovação pela Assembleia Nacional da amnistia contra os crimes cometidos durante a guerra.

Momento da proclamação da independência da República de Angola.

No palanque a presença do ex-presidente Dr. Antonio Agostinho Neto.

2005