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«Angola é o
mais belo país da África»
Por
Gabriel Baguet Jr. Artigo publicado originalmente no site AngoNotícias.
«Angola é o
país mais belo de África. A viagem a Angola foi uma experiência de trabalho
única. Entre tantas recordações, não consigo escolher uma», referiu Anabela
Saint Maurice, jornalista e autora do documentário "Quando o Comboio
Apitar", ao Canal AngoNotícias. Salientou ainda, que das recordações que
trouxe de Angola e as que permanecem na memória, são «talvez a viagem de
comboio entre a Calenga e a Caála, no planalto do Huambo».
Questionada sobre a possibilidade que este documentário representa em termos de
uma porta para soluções futuras, Anabela Saint-Maurice, disse que «a paz é
fundamental para que haja progresso, mas importa não esquecer que a desminagem
em Angola, é uma tarefa para várias dezenas de anos».
A história deste trabalho audiovisual da autoria da jornalista angolana Anabela
Saint Maurice, insere-se num conjunto de dois documentários sobre dois Estados
membros da CPLP, produzidos pela RTP (Grupo Rádio e Televisão de Portugal)
nomeadamente sobre São Tomé e Príncipe, que versa sobre a exploração do
cacau nas ilhas e intitula-se "O Contrato". O segundo, "Quando o
Comboio Apitar", relata a história do Caminho-de-ferro de Benguela,
construído em Angola nas primeiras décadas do século XX.
Neste encontro com a história colonial e o pós-independência de Angola,
Anabela Saint-Maurice, fez coincidir a apresentação destes dois documentários,
no ano em que se assinala, por decisão da Organização das Nações Unidas e
da UNESCO, o Ano Internacional das Comemorações da Luta Contra a Escravatura e
a sua Abolição, o que permitiu à RTP com a colaboração do Comité Português
para a Rota dos Escravos, dirigido pela professora Isabel Castro Henriques,
assinalar a data, com a exibição nos canais da RTP sobre esta face da história
da humanidade e da história colonial.
Relativamente ao Caminho-de-ferro de Benguela, historicamente conhecido pelas
iniciais CFB, esta estrutura ferroviária de Angola, ganhou notoriedade em toda
a África e tornou-se mítico na região.
Apesar de ter beneficiado a presença portuguesa no território angolano, a
linha com a extensão de 1.346 quilómetros foi construída no princípio do século
XX por Robert Williams, um empresário inglês que esteve interessado em escoar
o minério de cobre da região do Katanga, situada no antigo Zaire, hoje República
Democrática do Congo.
O documentário "Quando o Comboio Apitar", de Anabela Saint-Maurice,
com a duração de 58 minutos, já exibido na RTP, aborda o passado, o presente
e o futuro, deixando uma interrogação sobre o futuro, já que o
Caminho-de-ferro de Benguela, mais do que uma razão histórica forte, constitui
e assume um valor estratégico determinante não só para Angola, como para a
toda região da África Austral. Mas a história e as circunstâncias trágicas
que marcaram o quotidiano angolano, com quase cerca de trinta anos de guerra
civil e catorze de guerra colonial, os Caminhos-de-ferro de Benguela, com a
guerra civil, foi perdendo a força e a importância que a sua estrutura
representava e representa, para o desenvolvimento económico de Angola e o
bem-estar social das suas populações.
Resultante da pesquisa histórica, uma equipa da RTP, deslocou-se em Setembro do
ano passado a Angola e percorreu a história de vários lugares, estações e
apeadeiros, do Caminho-de-ferro de Benguela e por onde o comboio apitou. A
guerra infelizmente, tem esse terrível lado, de destruir estruturas e pessoas,
mas o actual documentário de Anabela Saint-Maurice, abre uma porta ao futuro e
a esperança do belo território angolano. Para isso, basta voltar a ver o
documentário e estar atento à frase que fecha este belíssimo trabalho
documental da jornalista Anabela Saint-Maurice, que refere e "Como será
quando o comboio apitar?".
Arrisco a dizer, que "Quando o Comboio Apitar ", Angola tem a sua paz
consolidada e o desenvolvimento, será a locomotiva desejada para todo o povo
angolano.
[AngoNotícias] Como nasce a ideia deste documentário?
[Anabela Saint-Maurice] Li por acaso uma pequena notícia sobre o projecto
de reabilitação do Caminho-de-ferro de Benguela. Achei que o CFB poderia
servir para falar do passado e do presente de Angola.
[AngoNotícias] No decorrer do mesmo quais foram os momentos mais marcantes
das filmagens?
[Anabela Saint-Maurice] Juntamente com o meu colega e operador de imagem
Pedro Silveira, cheguei a Angola em meados de Setembro. Durante três semanas e
meia viajámos do Lobito até ao Luau tentando retratar pontos que me pareceram
cruciais do caminho-de-ferro. O que mais me impressionou foi o mau estado das
estradas e o isolamento a que estão sujeitas as populações do interior.
A pobreza e a destruição provocadas pela guerra civil contrastam de forma
comovente com a beleza paisagística de Angola. Há dois momentos marcantes na
minha viagem: as filmagens nas oficinas do CFB no Huambo e a visita ao campo de
refugiados em Luau.
[AngoNotícias] Porquê o Caminho-de-ferro de Benguela e não outro assunto
para investigação documental?
[Anabela Saint-Maurice] O CFB é um assunto fascinante por ter implícita a
noção de viagem.
[AngoNotícias] O documentário aponta várias análises, entre as quais, a
época colonial e o pós-independência de Angola. Essa contextualização foi
propositada ou uma forma de reflexão entre o passado, o presente e o futuro?
[Anabela Saint-Maurice] O documentário deve contextualizar as questões que
levanta e deve fazê-lo de forma criativa.
[AngoNotícias] Foi fácil a pesquisa documental?
[Anabela Saint-Maurice] A pesquisa foi difícil mas aliciante. Eu gosto de
material de arquivo e procurei visionar tudo o que havia de imagens sobre o
Caminho-de-ferro de Benguela. Algumas imagens, filme e fotografias, foram-me
cedidas por particulares, as restantes pertencem ao Anim e ao arquivo da RTP.
[AngoNotícias] Como reagiram às filmagens as populações por onde o
comboio passou e a respectiva equipa de filmagem?
[Anabela Saint-Maurice] Os angolanos são em geral muito cordiais e bem
dispostos mas, claro está, uma câmara de televisão suscita a curiosidade de
todos e em particular dos garotos. Por isso direi que não o é fácil filmar em
Angola, as pessoas reagem muito à presença da câmara. Mesmo assim o Pedro
Silveira conseguiu captar imagens em que a vida de todos os dias nos é
apresentada no écran com naturalidade.
[AngoNotícias] Com que imagem ficaste da Angola que percorreste?
[Anabela Saint-Maurice] O documentário é sobre o CFB, mas a imagem que eu
retenho de Angola é de um país desfeito pela guerra. Os angolanos estão
marcados pela violência, pela morte ou pela perda de familiares, desconfiam por
isso da paz que agora conhecem. A reconstrução está em curso mas irá levar
muito tempo a chegar ao interior de Angola.
[AngoNotícias] Este documentário pode ser a porta para uma solução
futura? Ou seja, quando o Comboio voltar a apitar, a paz em Angola é um dado
absolutamente adquirido e o desenvolvimento das regiões percorridas, uma
consequência?
[Anabela Saint-Maurice] A paz é fundamental para que haja progresso mas importa
não esquecer que a desminagem em Angola é uma tarefa para várias dezenas de
anos.
[AngoNotícias] Que lugar ocupa Angola no teu imaginário?
[Anabela Saint-Maurice] É o mais belo o país de Africa..
[AngoNotícias] Para quando uma apresentação pública do documentário em
Angola?
[Anabela Saint-Maurice] Creio que isso dependerá da RTP.
[AngoNotícias] Projectos para o futuro?
[Anabela Saint-Maurice] Estou a fazer um documentário sobre Eduardo Lourenço,
um ensaísta que gosta de reflectir sobre Portugal.
[AngoNotícias] O que te fascina em Televisão?
[Anabela Saint-Maurice] Na televisão como no cinema fascina-me a história,
o enredo. "Como contar esta história ?" - esse é o ponto de partida
formal. Previamente claro está, há que ter a matéria-prima que é a história
em si.
Eu gosto muito da fase da montagem do programa. "Quando o combóio
apitar" foi montado por António Namorado Freire, cujo trabalho eu aprecio.
Mas convém ter em conta que um documentário é o resultado do trabalho de várias
pessoas: Pedro Silveira (câmara), Antonio Garcia (áudio) Nicolau tudela
(grafismo) e Ari de Carvalho (sound designer). A produtora Ana Lucas foi o meu
braço direito.
[AngoNotícias] Que recordações trazes de Angola e quais as que permanecem
na tua memória?
[Anabela Saint-Maurice] A viagem a Angola foi uma experiência de trabalho
única. Entre tantas recordações não consigo escolher uma. Bem, talvez a
viagem de comboio entre a Calenga e a Caála , no planalto do Huambo. Um dia
farei de novo essa viagem...Só me resta esperar que o caminho de ferro de
Benguela volte a ligar o porto do Lobito ao Luau.
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