Fernando
D`Aqui, uma saga sócio-antropológica angolana!
Texto
apresentado no lançamento da obra, na Academia Brasileira de Letras
Por Zakeu A. Zengo
Fernando
D´Aqui é o quarto livro de Isabel Ferreira, o
primeiro a ser lançado em primeira edição no exterior. Seu lançamento no
Brasil constitui, a nosso ver, um alegre avanço, vez que só recentemente as
Literaturas Africanas de Língua Portuguesa começaram a ganhar um estatuto
acadêmico com melhores definições e recortes mais nítidos na academia
brasileira.
A
autora, Isabel Ferreira, é ela própria irmã gêmea das deusas kaluandas,
entronizadas no altar poético que decora as páginas da obra. Sem os
complexos da heteronímia que costumam presidir a tradição literária de
Angola, ela assume um nome público e divulga na própria obra uma curta
biografia. Além do nome, dá-nos o seu rosto no verso da capa e contra-capa,
uma data de nascimento, além de indicativos sobre as atividades que exerceu e
exerce. Apresenta-se como autora em evolução, com uma lista de obras
publicadas da qual não consegue esconder sua vontade de atar seu destino à
vocação literária (e a outras belas artes). À Margem das Palavras Nuas,
anunciado prelo, deixa entrever seu próximo porto no itinerário para dentro
da literatura angolana. É como se através desta pequena biografia o livro
nos indicasse quais os aspectos que são importantes para compreendermos a sua
crônica, a sua poesia, a sua filosofia e a sociologia por detrás de Fernando
D´Aqui. Ela nos faculta os sinais para entrevermos a pessoa filosófica e
sociológica que assume na tecitura ardente e profunda encontrada nas páginas
deste romance.
Quando
o que lemos é bom (estilisticamente eficaz, e poeticamente inspirador) somos
tentados a seguir as palavras com as imagens que elas nos sugerem, muitas
vezes sem sequer repararmos naquele entrançado de palavras que sustentam a
imaginação. Nos deixamos dominar pelos efeitos, pelas invenções, pelas
transgressões (inclusive lingüísticas) de efeito arrebatador; somos capazes
de imaginar a estória contada como se estivéssemos lá, tanto pela
identificação histórica quanto pelo encantamento pitoresco do fantástico
mundo inventado. Afinal, a fantasia é o nosso segundo mundo. Fernando D´Aqui
reúne toda a força capaz de fazer brotar esses encantos humanos, e com a
mesma habilidade destruí-los com seu realismo que desnuda nossas fantasias e
denuncia a crueldade do nosso mundo vivido - mundo angolano.
Ao
todo, Fernando D`Aqui é um romance de quatro contos, cada um evocando
a poética africana que privilegia os cruzamentos culturais urbanos.
Comecemos
por “Fernando D`Aqui”, personagem que empresta o nome ao livro: português
alentejano, é um engenheiro de construção civil que viveu em Angola durante
25 anos de enriquecimento contínuo como “cooperante”, ao longo dos quais
se deu a sua conversão à vida boêmia, enfeitiçado pelas noitadas de Musulo
e pelo encanto das sereias-deusas kaluandas, que lhe roubam não só a alma
portuguesa, mas também o coração de marido (in)fiel: “viver para mim é
um novelar diário de amor e prazer”, confessa D`Aqui. Casado em Lisboa,
destino de toda a fortuna que acumula em Angola, é também oficialmente
amigado em Luanda (prole lá e acolá), além de membro confesso de tantos
outros leitos de jovens negras kaluandas, sua raça predileta em matéria de
amor carnal.
Fernando
D´Aqui enfatiza o conflito cultural de duas realidades separadas apenas pelo
mar, e unidas pela história. Nele e através dele, esse “muangolê puro de
coração”, ou mais exatamente “muangolê de coração”, a tropicalidade
polissêmica, poligâmica, simbólica e mítica luandense opõem-se até
ofuscar a cultura artificial e invernada de Lisboa. Aos olhos e coração de D´Aqui,
o fascínio de Luanda encampa, avilta e anula a beleza de Lisboa. O reencontro
com Tejo e com a imponente arquitetura da ponte 25 de Abril, sobre o Tejo,
suscita antes as lembranças das belezas e noitadas de Musulo; a graça das
garinas kaluandas anula aos seus olhos o alegado encanto do mundo feminino de
Lisboa, pois as de Luanda são “esculpidas pelas mãos divinas”. Fernando
é um cosmopolita luandófilo, porque para ele o mundo tinha que ter em cada
cidade um recanto afro-luanda. A Lisboa moderna, cosmopolita, é ainda mais
desprezível em comparação com a Luanda nova, pós-guerra: Lisboa cheira à
pedofilia, Luanda cheira a noitadas de Musulo, mar acolhedor, à garinas
eficientes na arte de amar, por amor e por sobrevivência.
Cedo
a paixão de Fernando revela-se inconsistente e controversa. “Não passa de
um enfeitiçado pela picante doçura do feitiço angolano”, diz o narrador.
Ainda confrontado pela constatação realista dos amigos observadores, ele não
tem olhos para as contradições humanas da Luanda pós-guerra. D´Aqui é na
verdade filho legítimo daquela Luanda aburguesada, encastelada no luxo das
mansões de Marçal e Alvalade, cega e surda diante da miséria nua e crua do
quotidiano kaluanda. Fernando nega-se a reconhecer a Luanda-contradição,
onde “a fome abunda na mesma proporção do luxo dos governantes”. Apenas
o triste e inusitado fim deste resignado branco com coração negro-kaluanda
consegue denunciar o caráter contraditório de um Fernando D`Aqui, mas também
D`Lá: enquanto a família de Lisboa tudo herda, a família kaluanda, mais
numerosa em matéria de prole, adentra a dura realidade do mundo viúvo e órfão
da Luanda desemparada.
O
segundo conto narra a estória de um casal na atual sociedade emergente de
Luanda: Dona Dirmã e Adão. Com eles o romance adentra o mundo dos costumes e
das tradições angolanas em seu encontro “miscigenado” com as “emergências”
e “demandas” daquela sociedad, marcada pelo pregão da modernidade e da
mobilidade social. Esta estória é alimentada com nuances que atravessam o
atlântico até esbarrar-se às terras brasileiras, e expõe a dinâmica dos
ofícios de sobrevivência em Angola, por um lado, e por outro, os sacrifícios
do exílio acadêmico capazes de decidirem para melhor o futuro de um jovem
angolano.
“Dizem
que o sofrimento gera criatividade”, nos conta o narrador. Dirmã, uma Maria
mijona que não sabia cuidar de si, casara-se com o famigerado Adão no tempo
em que tudo se resolvia por meio de cunhas e requisições. Tornaram-se
quinguileiros dedicados e abnegados, compradores do Rio de Janeiro e
vendedores de Luanda. Foi assim que a sorte do casal partiu em linha
ascendente, para cima. Adão deixa mulher para se “aprumar” na “arte de
ludibriar os jurados” numa faculdade do Rio de Janeiro, enquanto a esposa
logra completar o curso de medicina em Luanda, até com especialização em
Nova Iorque. Enfim, subiram na vida, europeizaram os hábitos e adentraram o
seleto mundo dos mwatas de Angola e dos assimilados da globalização.
Contudo, a morte abrupta e prematura de Adão leva a narração de volta à
resistência das nossas tradições. Neste ponto, o romance ressalta a cultura
da fraternidade angolana, bem mais consolidada pelas malambas da guerra
passada. Diante dela, e do sofrimento da viúva, ressalta o ditote: “mulher
tem que estar preparada... o homem não pode ser só teu. Aqui estamos m´bora
em África – aqui se divide e partilha tudo, até homem”.
A
“tambi” de Adão leva o fantasioso mundo de Dirmã de volta à força das
tradições e dos costumes angolanos, capazes de amenizar e compensar a tragédia
e transformar o trágico em alma-comédia da vida vivida: o choro copioso das
carpideiras para atenuar a dor dos enlutados, o rapar do cabelo da viúva para
inibir a entrada de mulheres mandonas na família “defuntada”.
Neste
ponto a autora transforma a modernidade dos emergentes em “mundo estranho”
ao sabor dos mais velhos, do povo do antigamente - esta modernidade em que se
nectariza com borracha protetora; este estranho tempo da síndrome de independência
dividida do amor (= sida), enfim, tempo de muita “matumbice intelectual
lixada”.
Fernando
D´Aqui é também uma narrativa histórica, que
volta ao distante tempo da luta revolucionária por sonhos que ainda teimam a
não realizar-se. Nesta mistura de futuro-passado-presente (nesta ordem), o
romance dá vida às memórias complexas e aos mitos da revolução que
presidiu a Angola dos últimos 30 anos; denuncia o presente de uma Angola
luandizada à la Fernando D´Aqui; o presente da resistência cultural em
tempos de globalização – até a morte de um estrangeiro “angolanizado”,
que enluta por “amigamento” (sem alambamento) a gente da terra, impõe as
tradicionais exéquias fúnebres [komba], nas quais até “os corpos são
remexidos para deskijilar os espíritos da morte”. Ademais, é preciso
mexericar ara descobrir de que lado veio a pemba, porque, segundo manda
a tradição, “nenhuma desgraça vem só”.
Enfim,
a obra desnuda a cegueira metafórica dos tempos da guerra revolucionária, em
que até as mulheres foram obrigadas a pegar em armas para lutar “contra os
artifícios enfumegados que engoliam os seres humanos, deixando filhos órfãos
e mulheres trilhando por incertas crateras”...
Tempos
“em que lado-a-lado homens e mulheres rumavam de arma na mão...; “em que
vidas em plena periferia urbanizavam, em vão, desejos num porvir airoso...;
“em que as mulheres, as mais sacrificadas, de megafone na mão gritavam
‘viva o poder popular... a luta continua’ (um tributo à mulher angolana
que, ceifada por tantos porquês da vida, não busca terapia)...; tempos “em
que a comida era comprada na cantina da Comissão Popular do Bairro, só para
portadores do cartão de morador”, “tempos de enormes bichas e um minúsculo
cartão”...; tempos “de faculdades descarteiradas..., “de paganismo que
se veste de ousadia”.
A
vida em Angola é cheia de infortúnios, cada qual mais inusitado que o outro.
O terceiro conto é uma reflexão sobre a infortunada Chiquita Bangaia, uma
“sereia kaluanda” de humilde berço que fez fortuna e fama com garra e
ousadia masculinas. Comprou apartamento na baixa de Luanda, como rainha da
kandonga de quatro rodas. “Até que um dia, na vida da eskindosa, tudo se
transformou como um vulcão”. Os filhos da inveja e a sina do mau-olhado
mandaram uma “onda” e Chiquita foi ter aos braços da desgraça. O
namorado Querabim, que vivia às custas dela, vendeu tudo que a ela pertencia,
bazou para Lisboa, casou com uma loira portuga e virou europeu.
Nas
tradições da cosmovisão angolana, um infortúnio chama outro, o próximo
podendo ser mais inusitado que o anterior. Afinal, como reza o ditote, “a
vida é um novelo, tem forma de juntar dois anjos para tricotarem um mastro em
pleno vendaval”. Como “o Nzambi que paira em todo mundo é igual”,
Querabim viveu apenas o tempo que o anjo da desgraça precisou para tricotar
um mastro para o vandaval do racismo e da intolerância européias. Ele morreu
vítima de traição conjugal, jogado no fosso do preconceito português-europeu
contra os emigrantes africanos, esses “seres muito estranhos que querem
viver na Europa como vivem na África... Como animais”. Mas a mãe de
Chiquita não tem dúvida, e batiza o epitáfio do transladado Querabim com as
certezas da tradição: “voltaste que nem uma onda... a mesma que enviaste a
minha filha”.
No
quarto conto novamente nos deparamos com o sinistro da tragédia ceifando a
inocência de uma “linda sereia” de rosto angelical, recém chegada da
Lunda-Norte, que se entrega (desta vez) aos mujimbos encantadores de Sanguito,
um “homem de hábitos tradicionais, com postura de ilhéu estilizado, da
famosa ilha de Luanda”. Casaram. Receosos do mau-olhado, da onda dos ilhéus
e da pemba da Lunda, bazaram para Tuga em núpcias, de onde nunca mais
voltaram. Mas a felicidade do começo é provisória, porque Angélica não
pode procriar. De braços com o infortúnio do ventre estéril,
tradicionalmente “uma espécie de castigo pela lindeza e formosura”, um
interdito dos deuses às musas do corpo escultural, a jovem lunda abraça o
amor de Sanguito como o único destino da sua vida. Mas não tarda e outro
amor, branco-europeu, rouba-lhe esse destino. Nessa terra distante
multiplicaram-se as desgraças, que a obrigaram a partir para longe de
Sanguito seu eterno amor, para dividir a vida com o próprio infortúnio e com
a saudade amorosa que teima em reinar.
Parte,
enfim, de volta para Luanda só para descobrir que, muito tempo depois, Angola
continua a mesma: que gente importante do poder também é infiel, e serve-se
das doçuras amorosas de mulheres indefesas dos muquifos, sem qualquer
compromisso com o bem-estar delas.
Jogada
no anonimato de uma identidade inventada, na exclusão social, resta-lhe
recorrer à sensibilidade de Mindo, um importante ministro que fazia do seu
leito altar de prazeres inconfessáveis. Contudo, no mundo à luz do sol o
ministro não existe para uma viúva sem teto decente: “Ministro mão-de-vaca,
se rouba do Estado o que é que custa, ajudar uma pobre como eu?”. O
ministro é um desses governantes chegados a ostentação inescrupulosa,
inexplicavelmente dono de “tantos carros novíssimos”, e vivendo em mansão
que abriga a pobreza e o lixo ao lado. “Esses nossos governantes também...
Nem imitam só os países onde viajam todos os dias...”, observa o vendedor
ambulante sufocado pelo cheio pobre da lixeira ao lado da mansão do nguvu.
Foi
assim que Angélica caiu em si, lavou a alma das exigências de berço, e
descobriu a única Angola que lhes restava para ainda poder amar, ser amada e
se possível procriar. Nesta Angola “não há homens! Por isso há que
repartir, partilhar, emprestar...”. Angélica precisa acreditar, enfim, num
novo reflorir da vida. “Sem kilapes para amar, sem a exclusão social, com
kilúnji”.
Como
de tudo isso se depreende, predomina ao longo de todo o romance uma indisfarçada
crítica social, âmbito no qual particularmente se inscrevem os motivos que
permeiam o último conto. A autora não usa de romantismo antropológico que
caracteriza a literatura dos costumes nacionais, e nem de uma aceitação ingênua
e resignada do modo de vida kaluanda, nascido dos cruzamentos com o poder da
revolução, da economia de mercado e da globalização.
Trata-se,
concluindo, de uma obra marcada por encontros transversais, transnacionais,
transatlânticos, trans-históricos. No plano da literatura, o encontro de gêneros,
circulando desde o romance, a poesia, o conto, até à ficção e a narração
histórica; o texto não se furta aos arranjos de um tratado filosófico
(privilegiando a filosofia da existência e da história, além da sua metafísica
indisfarçada); é ainda construção antropológica e uma elucidação sociológica.
No plano geográfico, atina para o encontro de três continentes (África,
Europa e América) e três países fundidos pela história e pela língua
(Angola, Portugal e Brasil). É ainda um encontro da ficção com a realidade,
o antigo com o novo, numa tensão que desfaz enquanto faz a aliança entre o
passado das tradições angolanas, o presente da modernização e globalização
kaluandenses e o futuro obscuro da cega hipocrisia capitalista que prefere a mística
do doce feitiço das sereias kaluandas e noitadas de Mussulo a enxergar a
rudeza de uma terra difícil e partida pela guerra. É, portanto, um livro
feito de ensaios e reflexões críticas, na corrente do que talvez melhor se
faz hoje no domínio da literatura angolana, sem ficar devendo nada à
grandeza dos nossos mestres mais aclamados.
Rio
de Janeiro, 30 de Setembro de 2005