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"O
MELHOR DE ANGOLA É QUE O ANGOLANO NÃO DESISTI, NUNCA"!
Depois
de 6 anos de estudos no Brasil, o novo "jurista" angolano
Armando João decidiu voltar para Angola. Leva consigo um currículo que
soma vários cursos de formação intelectual e capacitação para o
trabalho. São dois bacharelados (Teologia e Direito), uma pós-graduação
(latu sensu) em direito do consumidor, além de vários estágios em
diferentes organismos, quer no âmbito da vida social, quer no âmbito da
vida eclesiástica. Armando, que é natural do Uige, atuou com dedicação
exemplar na organização do I Fórum de Quadros Angolanos e Angolanistas.
Hoje ele integra, como membro pleno, o Fórum Permanente de Quadros
Angolanos e Angolanistas no Brasil. Armando é um estudante atento e
chegado à investigação acadêmica, apaixonado pelo direito e seu
enraizamento nas outras ciências, sobre o qual ele planeja escrever e
publicar livros. Ele diz que tomou a decisão certa de voltar para Angola
neste momento decisivo da reconstrução nacional, embora ainda sem uma
oportunidade de trabalho à mão. Ele é primeiro estudante a ser
entrevistado nesta secão de Angolanistas.org, em sua nova base eletrônica.
ANGOLANISTAS: Armando, fale-nos um pouco de você e de sua identidade natal.
Quando e onde você nasceu em Angola?
ARMANDO
JOÃO: Chamam-me
Armando João, e sou formado em direito pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro, em Teologia pela FATEFI e pós-graduado em direito do
consumidor pela Universidade Cândido Mendes. Sou natural do Damba, Uige,
onde vim a luz no dia 5 de Agosto de 1976.
Como aconteceu a sua vinda ao Brasil?
Pelas mesmas razões que levavam centenas de jovens angolanos para fora do
país. Enquanto o país esteve em guerra, sou um dos jovens que zarpou em
busca de segurança e novos horizontes para a minha formação e minha
existência no exterior. Deixei de ir para a Alemanha com uma tia e vim
parar no Brasil. Tudo porque, tendo à época completado 15 anos de idade,
sem poder estudar e ainda arriscado a participar na guerra, como vítima
das "rusgas" da polícia e do exército, e sem poder estudar
mais nos turnos do dia, vim parar no Brasil depois do consentimento dos
meus pais.
Que experiências marcaram mais a sua vida neste país?
AJ:
São inúmeras as
experiências, mas quero destacar uma que me ocorreu quando concorria a
uma vaga de trabalho no Ponto Frio, uma grande e tradicional loja do
Brasil. Éramos 14 candidatos e, sem muito estudar, acabei entre os
finalistas e depois como primeiro classificado na última fase de provas.
Começaria então meu estágio nessa empresa, no seu departamento jurídico,
como o primeiro estrangeiro e negro nessa empresa.
Depois
de 6 longos anos vividos no Brasil, o que você gostaria de ter feito e não
fez antes de voltar para Angola?
Em todos estes anos
aqui vividos procurei incrementar a minha formação, quer através do
ingresso em cursos de curta duração, quer tentando entrar para a pós-graduação
strictu senso. Infelizmente acabei reprovado na difícil prova de mestrado
da UFF, e mais adiante também reprovado, já na segunda fase, da prova da
OAB do Brasil, por não ter alcançado a média necessária para advogar
no Brasil. Estes acontecimentos, juntada a minha vontade de conhecer todo
o Brasil que não se realizou, estão entre as coisas que gostaria de ter
feito e não fiz.
Agora nos conte um pouco sobre a trajetória da sua formação.
Não é difícil a
gente estudar no exterior quando não tem nenhuma ajuda ou uma bolsa para
custeio dos estudos. Graças a Deus, que cuida com diligência os seus
filhos, consegui estudar ao custo de estágios sucessivos e muita
"ralação" até terminar os cursos que fazia. Paguei minha
formação com muitas privações, muita fome e muito daquele sentimento
que se instala quando estamos longe daqueles que nos amam: a solidão.
Em
que sentido, e de que maneira, a sua formação ajudará Angola?
AJ:
Bem, hoje eu sou formado e, como tal, mais capacitado a ajudar o meu país.
Usarei a minha formação e minha pesquisa para atuar em todos os setores
abertos à contribuição dos interessados. Ensinando ou atuando
cientificamente, espero poder corresponder a expectativa do meu povo sobre
seus quadros.
Você
realizou alguma pesquisa específica e relevante aos interesses de Angola?
Justifique.
Desde a minha graduação
em direito, na qual apresentei uma monografia sobre Naturalização e
Nacionalidade, procurei refletir e privilegiar as preocupações e
problemas de Angola. Passei depois ao estudo mais aprofundado do sistema
jurídico angolano, cujo relatório apresentei em artigo num evento acadêmico
na UFRJ em 2005.
Você chegou a
participar de algum projeto de pesquisa científica, ou de grupo de
estudos, ao longo destes anos da sua formação superior?

Sim, em vários.
Destaco minha participação de um grupo de estudos sobre Ações
Afirmativas para negros, com participação em mesas redondas sobre o
tema.
Tem
planos de ainda retornar à universidade como discente?
Com certeza. Para alguém que
acabou de sair de uma universidade, depois de ter sido apresentado ao
encanto da pesquisa científica, queima dentro do coração sair dela para
não mais retornar. Tenho muita vontade de voltar à universidade para
prosseguir estudos e ajudar a mudar ou melhorar a visão que temos de
ensino, e não da pesquisa, na universitária em Angola.
Você participou do I Fórum
de QA&A. Como você avalia esse evento, e qual é sua expectativa
sobre o II Fórum, que deve acontecer em Agosto de 2007?
Como primeiro fórum
deste gênero no Brasil, organizado quase totalmente por angolanos, com a
participação de renomados professores das universidades brasileiras, o I
Fórum de Quadros Angolanos foi muito bom. Mais importante, o evento
defendeu um tema de profunda relevância para Angola, que foi a reflexão
sobre a nacionalidade e os caminhos a levar em conta na definição e
produção de um projeto desenvolvimentista real. Com todas as
dificuldades que estiveram no caminho desse, considero a nota 8 uma avaliação
justa e injusta ao mesmo tempo. Precisamos de mais eventos deste quilate
no Brasil, com uma pauta séria e rica como foi a do I Fórum. Já estou
ansioso pela chegada de Agosto de 2007. Espero participar no II Fórum
apoiando em tudo o que eu poder. A minha expectativa é que o II Fórum
seja maior e melhor que o primeiro. Tanto a experiência que adquirimos
com o I, quanto a esperança que centenas de quadros angolanos no Brasil
esperam por ele, tenho certeza que teremos um evento bem maior, até
porque já saberemos evitar os erros que foram cometidos no I Fórum.
Que conselho você
deixaria para os outros estudantes angolanos que aqui ficam?
As decisões na vida
de uma pessoa sempre serão individuais. Se eu tivesse mesmo moral para
dar um conselho aos estudantes angolanos que ficam e virão no Brasil, ele
seria este: que busquem sempre alcançar o melhor que este Brasil pode
oferecer, seja na universidade com real dedicação à pesquisa, como nos
diversos cursos livres e gratuitos que temos por aqui aos milhares, muitos
dos quais tratando das capacidades mais demandadas pelo nosso país hoje,
depois de caladas as armas. Lutar e não desistir dos seus ideais, que
busca acha quem bate lhe aberto à porta.
Armando, é de presumir que você tem consciência que não encontrará
cama e mesa postas em Angola, esperando por sua chegada para desfrutar. O
que você espera realmente encontrar lá?
Espero encontrar lá de tudo um
pouco. Passei muito tempo aqui e isso com certeza mudou bastante a minha
maneira de entender a minha existência histórica e intra-mundana. Não
sei se terei dificuldade de lidar com aqueles tabus que caracterizam
nossos costumes e tradições. Mas tenho plena consciência que este
momento do pós-guerra aconselha cautela e cuidado no auto-posicionamento
social dentro dessa nossa "aldeia" chamada Angola. Contudo, meu
sonho é que Angola me receba como um filho que voltou cheio de gás para
equilibrar a balança a favor da nossa grande família. Parafraseando
a imaginação brasileira, digo que sou angolano e que o melhor de Angola
é que o angolano não desiste nunca.
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