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IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais

Luanda, 28 a 30 de Novembro de 2006

O Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais é um encontro bienal que reúne cientistas sociais dos países de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guine Bissau, Moçambique, São Tome e Príncipe, Portugal e Timor Leste). Iniciou-se em 1990, pela mão do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. As oito edições seguintes realizaram-se em várias cidades: S. Paulo, Maputo, Lisboa, Rio de Janeiro, Porto, reunindo especialistas das várias áreas das Ciências Sociais e Humanas.

Até agora a África tem sido um palco secundário para a realização deste congresso de cientistas sociais. Em 1998, teve lugar o V Congresso Luso-Afro- Brasileiro de Ciências Sociais, o primeiro e, até agora, o único realizado em África. Foi organizado pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique e abarcou um leque variado de temas-base: Segurança das Sociedades, Novas Democracias, Artes e Sociedades, Populações e Territórios e Oceano Índico. Decidiu-se constituir a Associação de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa (ACSHELP) e o lançamento de uma publicação própria, a revista Travessias, apresentada como a revista da Associação de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa. O IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais que se realizou em Luanda de 28 a 30 de Novembro de 2006, é assim o segundo congresso a
realizar-se em África, desta vez com o apoio da Universidade Agostinho Neto. Esta edição foi dedicada ao tema geral "Dinâmicas, Mudanças e Desenvolvimento no Século XXI". Diversidade cultural, cidadania, migrações e comunidades transnacionais foram algumas das áreas temáticas a abordar.

O Congresso contou com a participação de mais de 200 congressistas e organizou-se em três dias de trabalho. As manhãs foram ocupadas por sessões plenárias e as tardes com sessões parciais, organizadas segundo grandes temas. Os congressistas organizaram-se em pequenos grupos de discussão que decorreram nas muitas salas do Centro de Conveções do Futungo e da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto.

Pela impossibilidade de aqui se dar conta, em detalhe, das dezenas de comunicações apresenta-se em anexo uma lista dos grandes temas abordados.

O objectivo deste congresso era também chegar a uma reflexão crítica sobre o papel e a contribuição das Ciências Sociais para uma discussão acerca dos desafios actuais que enfrentam e devem enfrentar as Sociedades em Desenvolvimento. Por isso tem interesse referir as duas conferências inaugurais que discutem as ciências sociais em África e a sua relação com o papel dos intelectuais e a produção de modelos de desenvolvimento. No primeiro caso, “Saberes endógenos, Ciências Sociais e desafios das sociedades africanas”, Víctor Kajibanga (ISCED-UAN, Luanda), retoma toda uma tradição de pensamento que reclama para a África um paradigma de desenvolvimento alternativo ao Ocidental e que vê na produção dos saberes endógenos a via para aí chegar. No segundo caso, “O Percurso de Mário Pinto de Andrade”, Carlos Lopes (ONU, Guiné-Bissau), analisa o percurso de Mário Pinto de Andrade, numa formulação que é uma homenagem e também uma maneira de pensar os intelectuais e a África. Embora com enfoques teorico-metodologicos diversos e também por isso mesmo, as conferencias revelaram-se complementares.

Para concluir interessa sublinhar que este congresso se realizou na cidade de Luanda, quatro anos após a declaração da paz em Angola, depois de décadas de guerra. Há alguns anos atrás seria praticamente impensável fazer em Angola um congresso com estas características e com estas dimensões. Apesar de todas as dificuldades e algumas falhas logísticas, sob o ponto de vista simbólico a realização deste Congresso é importante para os angolanos, quer para os cidadãos, quer para os que se movimentam nos meios académicos e devolve-lhes a hipótese de se inscreverem no mapa dos
cientistas sociais, dentro de casa. Para os congressistas que chegaram da Europa, do Brasil e também de outros pontos da África, fica a sensação de contraste entre uma cidade e uma sociedade que parece debater-se para se refazer, as impossibilidades que estão à vista, e ao mesmo tempo uma vitalidade que contagia. Depois do regresso fica a memória viva da viagem de Luanda até ao Centro de Convenções; um Centro que poderia situar-se em Luanda ou em qualquer cidade do primeiro mundo. Mas é nesse intervalo, entre os hotéis e as salas de reuniões, que se situa a diferença e que vale a pena ficar a pensar: a travessia dos bairros e dos musseques, a Samba ou o Rocha Pinto,
povoados de gente e de muito lixo, os engarrafamentos onde coexistem carros de alta gama com os candongueiros azuis e brancos, os ruídos da rádio, onde se escutam longas teatralizações sobre o recenseamento eleitoral; “já te registaste….que documento é preciso….precisa de uma testemunha, o catequizador ou soba…” , ou ainda a visão, estranha, das falanges de chineses que em Angola como por toda a África, abrem estradas.

Para os cientistas sociais que pensam e escrevem sobre a África o congresso foi em si mesmo um exercício de terreno que, certamente, cada um incorporará nas suas reflexões.

 

 

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