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Fernando
D’Aqui
A picante
doçura do
feitiço
angolano
Por Isabel
Ferreira
Prefácio
Fernando
D´Aqui tem, em suas páginas, a sensualidade, a ternura, o calor, ou a
provocação e o abandono do inebriante feitiço angolano.
Longo
poema ou conjunto de contos irregulares com personagens mutantes, a estuarem de
alegria, de paixão, é um texto de excesso de invenção permanente. E de
encantamentos. Onde se inventam palavras com saudável humor e se misturam o calão
de Luanda, algumas expressões vindas do quimbundo ou do quioco e uma infinidade
de aventuras verbais que nos desconcertam e nos prendem.
Fernando
D´Aqui convida-nos a entrar num universo mágico, entre a inocência e o
mistério, onde assistimos a amores e contendas e de perto vemos surgir carícias
e os risos d‘amor. Nós próprios participamos das festas e das emoções e
das desordenadas evocações que se sucedem num ritmo de dança.
Entre
Luanda e Lisboa, entre o mar e o asfalto, entre as dores que por vezes cantam e
as canções que por vezes choram arde sempre uma intensa fome de vida e de
ternura.
Isabel
Ferreira vai tecendo histórias e até a história do seu país; e as
figuras que vão surgindo representam os seus papéis, remexem-se e rebolam à
beira da tragédia ou do infortúnio.
É
claro que Isabel Ferreira nos fala também da guerra e do pós-guerra em
Angola, mas sobretudo da vida comum da gente da rua, do hospital, do baile, do
musseque, da alegria e da desgraça que tantas vezes se dão as mãos.
Não
é talvez um livro perfeito. É sem dúvida um livro controverso.
Não
já uma promessa, mas a certeza de uma jovem escritora a caminho de si e do
mundo dos outros, de instrumentos e sinais de salvação. Amarguras e sorrisos
combinam-se e diluem-se; transformam-se na amorosa forma de estar no mundo que
é a sua.
Urbano
Tavares Rodrigues - Escritor, professor catedrático jubilado da
Faculdade de Letras da Universidade de Letras em Lisboa.

Intróito
“Canta,
chora, dança, ó minha deusa Kaluanda!”.
Há muito que não te
“galo” Luanda! Tenho saudades dos teus entardeceres.
Comigo transporto os
teus arrabaldes. Enquanto o infortúnio de estar dentro de algo tão incómodo,
é turba para mim.
Aqui as ruas são monótonas,
frias, enternecidas pela penumbra, pelo mofo, pelo cheiro a morte.
Milhares de almas
deambulam, como grandes companheiros. Me convidam para o passeio da imortalidade
da noite.
Na madrugada quando os
gatos são cegos e os mortos pardos, cada um procura um abrigo de sonho.
O meu porto anseia
atracar na longínqua Marginal abrindo-se e fechando-se como um servo
esquivando-se do seu amo.
A tua imagem
resplandece a minha mortífera sombra. Sempre que te busco os meus pés vacilam
no horizonte nocturno.
Desde que me afastei
de ti, as ondas do teu mar parecem persianas opacas que não cedem ao abrir…
O pátio soturno, fúnebre
abre-se escancarado dizendo: é o delírio da morte.
O meu canto estende-se
sobre o teu manto, mas não ouves o meu choro dolente.
Os meus olhos
esgotaram as ruas e varandas de tanto te procurar.
Igualo-te às musas
inexistentes, na varanda do sono! Mas tu não morres és imortal!
Não morres porque sou
teu filho! Apesar de aí não ter nascido, almejo permanecer em terras Kaluandas.
Ó deusas e musas da
minha Luanda bonita, gostosa, formosa!
Porque permitistes que
tal destino me acompanhasse.
Quisera não assistir
ao meu próprio precipício.
Tal infortúnio é
coisa que nenhum mortal desejava ter como desenlace—caminhar sobre Gólgota!
Escutai o meu lamento. Nunca quis mudar de vida. Viver com as deusas tropicais
era o que de mais aprazível, tinha em outras vidas.
Desbundar à
beira-mar… gargalhar… amarrar o meu corpo ao mar e deixar-me levar…
Garinar aqui e ali sem
questionação da coloração da minha pele.
Ser contemplado pelos
meus e outros canucos, cambombiando-me, contos da Tuga.
Um dia quando me
acoitasse a velhice, ajudar-me-iam a subir escadas de – seis ou sete andares
– dum prédio, sem elevador.
Quisera, que assim
fosse, o meu desviver.
Ó deuses do Maiombe,
ó deuses da Lunda, ó deuses do Namibe, aplacai a minha dor!
Mandai-me de volta à
banda a minha doce sereia Kaluanda.
Eu quero sentir as
risadas dos meus kambas. Sentir o tilintar dos copos. Quero entrar no Kudissanga
e apanhar uma nganza.
Depois de uma boa
torra sair sorrateiramente, no rendilhar da madrugada e entrar na “Santa
Ana”.
Quero ouvir os murmúrios.
Ainda que o meu corpo já nada possa sentir quero ser picado pelos mosquitos e
cheirar os girassóis.
A minha vida esteve
sempre entre as cortinas da malária, da cólera e tuberculose. E resisti.
Andei em todos os
becos da vida sulcando lábios alheios.
E nada me aconteceu.
Leva-me de volta à
banda. Eu quero estar em Luanda. Quero estar envolto na confusão do noitediar
kaluandense.
Ó deusa Kaluanda, diz
aos meus kambas que estou insatisfeito.
Estou vivendo momentos
de Tabor… O meu mundo não é este!
O meu mundo é o das
janelas abertas.
Do amanhecer com o sol
a rasgar o seu lustre no meu corpo! Me avisam que devo permanecer aqui!
Tranquilo!
- Não me lixem o espírito.
Tirem-me daqui… Quero estar na área.
Lá a vida é bem
melhor! Que venturas viver na banda!
Quero ver o montão de
gente correndo no domingar à praia, como se a água do mar fosse acabar…
Nunca adoeci! Bebia água
não tratada, gingubava na rua, comia kitaba na praça. E fui muito feliz!
Em Luanda nunca me
acanalharam a vida. Fui aceite como irmão pula; nascido na terra, um muangolé
puro...Um mukuaxi!
Ché Luanda, Luanda!
Ché Luanda Luandéé… Escuta o meu clamor.
Os vizinhos da prisão
zombam, riem-se da minha dor. Escarnecem de mim!
Néscios! Pobres almas
penadas que nunca conheceram, a docilidade tropical.
Eles não sabem onde
mora a felicidade. Nem sabem o que é ser andré, na banda.
Foi na banda, na minha
Luanda, onde senti as venturas de uma vida bem vivida, tava sempre na área…
Foram vinte e cinco anos airosos.
Quero permanecer em
Luanda. Deixem-me lá…
Lá estão as doces
mulheres; belas garinas que nascem preparadas, para a fornicação e para a
procriação.
Foram elas que
remendaram o meu coração. Decerto que todas as musas esperam por mim.
Eu sinto na calada da
noite, os rosários, as novenas e as batidas das ketas; o choro miudinho da
garina, que até agora não se afasta do portão.
Infligem-me milongos,
na busca incessante da causa da minha viagem. Sanguelam o meu corpo pra lá e
pra cá… Ninguém levou o kissoko ao meu tambi. Por isso o meu espírito
vagueia inquieto.
E quando alvoroço a
minha voz, apaga-se o timbre. E os meus olhos só vêem distâncias…
Que direito tendes vós
de enterrar o meu porte, neste frio quintal…
Eu quero que varram a
minha morte…
Leva o meu lamento, ó
deusa Kaluanda… Vê a minha angústia.
Leva-me de volta à
minha terra! À minha Luanda bonita!
Foi lá na banda onde
me aceitaram, como Fernando D´Aqui...
- O mundo não devia
ter dono!
A naturalidade dos
homens devia ser: aonde o brotar do coração falasse: - Aqui é a minha terra!
A minha pátria é
aquela que adoça a palma da minha muxima e que faz gemer o meu ngúzu!
A minha bandeira é
aquela, que se ergue altiva ao ritmo das batidas do batuque de um coração
ritmado e quente, como o semba e a rebita...

Outras
obras de Isabel Ferreira

Laços
de Amor (poesia), Luanda, 1995
Caminhos
Ledos (poesia), Luanda, 1996
Nirvana
(poesia), Luanda, 2004
Fernando
D´Aqui (Ficção), S.Paulo/ 2005
No
prelo: À Margem das Palavras Nuas

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