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DEMOCRACIA
E DESENVOLVIMENTO
EM
ÁFRICA – DESAFIOS E ALTERNATIVAS
Por
Zakeu A. Zengo
Texto
apresentado na Semana da África, na UFMG, organizado pela ONG CEDHUR em 2004.
Foram fundamentais na elaboração deste paper algumas teses defendidas
originalmente na minha tese doutoral em Antropologia Social do Desenvolvimento
(Inglaterra), intitulada “Poder tradicional e questão do desenvolvimento em
África”.
Apesar
da diversidade das taxas de crescimento, as economias africanas permaneceram
extrovertidas entre 1960 e 1980. No geral eram de tipo primário ou colonial, e
predominava o setor manufatureiro e agrário (agro-mineiro e agro-pecuário num
pequeno número de casos), com uma tendência geral para a baixa de rendimentos
e das produtividades. Estes setores só chegaram a desempenhar um papel motor
quando foi necessário responder a uma procura preexistente, para o mercado
interno e externo.
A
procura sustentada dos produtos básicos, bem como o financiamento externo,
conduziu entre 1960 e 1973 ao crescimento do PIB nos países litorâneos,
especialmente naqueles em que o potencial de exportação não fora esgotado
antes da independência, como o Senegal e o Gana. Ao longo da década de 1970, a
desregulação do sistema monetário e os empréstimos anárquicos, acompanhados
pela subida conseqüente dos preços dos produtos básicos, sustentaram certo
crescimento econômico artificial em alguns países do continente. Entretanto, a
partir da década de 80, privadas deste motor exterior, todas estas economias
entraram numa fase de crise generalizada.
Nessas
décadas ocorria simultaneamente, e com sucesso, as revoluções que emanciparam
o continente do domínio colonial. A única exceção foi a África do Sul que,
como todos sabem, permaneceu refém do Estado colonial até ao limiar do século
passado. Nas novas condições então emergentes, o colapso do Estado colonial,
bem como as incapacidades locais para o desenvolvimento de perfis políticos
eficientes, ambos os fatores devidos à convulsão armada herdada das guerras
para a independência, estagnaram totalmente as economias africanas a partir do
início da década de 1980. Em seqüência da desordem política e estrutural
herdada das guerras nacionais, a própria sobrevivência dos estados nacionais só
foi garantida pela emergência de regimes autocráticos que, sob subvenção dos
interesses representados pela guerra fria, contribuíram para:
(a)
solapação/apropriação das riquezas territoriais pela classe dominante,
privando qualquer ideologia do progresso de um dos seus fatores de base e motor
fundamental: a disponibilidade e sustentabilidade econômica (surge então a
cultura da dependência e do clientelismo);
(b)
desmantelamento e sucateamento das estruturas produtivas nacionais, mesmo as básicas
(como a cultura agrícola de subsistência, característica milenar dos seus
povos), incapacitando o continente para a retomada do caminho do progresso e
emancipação econômica;
(c)
ausência de perspectivas reais capazes de autorizar a defesa ou adoção de
medidas de progresso, político ou econômico, sem reformas profundas.
É
preciso aqui observar que a possibilidade de se pensar em reformas capazes de
viabilizar o desenvolvimento e a democracia na África já é complexa em si
mesma, uma vez que os acontecimentos das décadas referidas contribuíram não
apenas para a constituição de um estado de coisas, mas também a instauração
de uma nova versão de mentalidades que se entranharam na alma e no ser dos
povos graças as bem sucedidas campanhas nacionalistas dos movimentos
libertadores (de um lado), e a cultura do ódio e ressentimentos internos delas
resultadas, do outro. Só Deus sabe se em países como Somália, Ruanda, Etiópia,
Angola, RDCongo, Chade será possível um dia o que se chama de plena cultura
democrática. A esperança é, no entanto, não apenas necessária mas possível.
A África do Sul está ensinando a lição ao continente.
Foi
neste contexto geral que as aspirações à democracia se manifestaram cada vez
mais abertamente a partir dos meados da década de 1980. Para se ter idéia, já
em 1981 tinha sido lançado na África um Fórum para a Democracia no Terceiro
Mundo, de cujas discussões e pesquisas resultou a publicação em 1986 do livro
La longue marche vers démocratie en Afrique, que é permanece como referência
fundamental para os estudantes do assunto. Devido ao fim da guerra fria, e de
certo modo à ilusão de que o Ocidente sustentaria daí em diante,
simultameamente e por todo o lado, a desintervenção econômica e as oposições
que invocavam a democracia liberal, as aspirações pró-democracia ampliaram-se
rapidamente. Exprimiam-se com tanto mais força quanto, desde a sua integração
no sistema capitalista mundial, o subcontinente só tinha conhecido regimes não
democráticos nas suas estruturas.
Como
todos sabem, os Estados coloniais eram autocráticos. Os movimentos
nacionalistas não tinham considerado a democratização das sociedades pós-coloniais
como uma prioridade. Deste modo, todos os Estados pós-coloniais, populistas
radicais ou compradores anti-nacionalistas, reprimiam qualquer tentativa de
surgimento ou de consolidação de sociedades civis, essenciais à democracia
burguesa liberal. O argumento principal do movimento foi o que Samir Amim chama
de “desenvolvimentismo” no seu livro L´échange inégal, de 1988.
Se
aparentemente a realidade econômica e o impasse social do ajustamento
neoliberal são catastróficos, os das lutas políticas foram vistos como
encorajadores. Os ENTRAVES JURÍDICOS à formação de sociedades civis são
levantados em quase todos os países. Depois de 30 anos de pós-colonialismo a
alternância no poder dos partidos políticos, que é um dos critérios
essenciais da democracia liberal, só havia se verificado nas pequenas ilhas
Maurícios. Hoje já contam-se dezenas de governos saídos de eleições que se
saldaram pela derrota dos regimes e grupos dominantes, casos de Benin, Cabo
Verde, Congo, Madagascar, Mali, Níger e Zâmbia, entre outros.
Será
que estamos realmente diante de uma evolução democrática geral irreversível?
Será que está mesmo aberto o caminho para a democracia política baseada no
modelo da democracia liberal euro-americana, a única que o capitalismo
reconhece além para além da autocracia? É possível ao Estado africano
orquestrar a democratização no sentido burguês e, paralelamente, fazer sair
as economias no nível de “quarto mundo” em que se encontram, submetendo-se
às pressões da mundialização do sistema produtivo? Tenho sérias dúvidas a
respeito.
A
meu ver, ainda está por inventar a forma de democracia que seja complementar de
um desenvolvimento sócio-econômico em benefício das classes populares e não
apenas para sair do “quarto-mundismo”. Para isso, a luta contra os regimes
autocráticos só irá até o fim se, por efeito da base social e da ideologia
dos movimentos que a conduzem, se inscrever numa perspectiva do poder a três
dimensões:
a)
A repulitização das camadas populares, rurais e urbanas, pela sua
auto-organização contra a “feudalização do poder no meio rural” (P.A.Nyong´o,
edit., La longue marche vers la démocratie em Afrique.
Paris: Publisud, 1986), a “mobilização populista” e a “centralização
democrática”, que são tantas outras formas de confiscação do poder em
benefício de uma reduzida camada dirigente;
b)
A orquestração de uma interação dialética entre a democratização
da sociedade (e não apenas da esfera política) e o desenvolvimento das forças
produtivas, começando pela modernização agrícola sustentada por uma
industrialização largamente autônoma na perspectiva pan-africanista;
c)
A opção por um sistema político internacional policêntrico e,
portanto, mais democrático, visto que as grandes regiões da África finalmente
confederadas defenderiam eficazmente os interesses dos povos do continente.
Nada
disso se parece com as reivindicações por uma democracia liberal para a África,
e este é exatamente a tese que defendemos. A teoria da alternativa de um
desenvolvimento democrático autônomo, no sentido que acabamos de definir, pode
ser muito bem utilizado na condição de um pano de fundo para uma teoria do
desenvolvimento e democracia viável para a África. Infelizmente não posso me
deter nestas considerações. O essencial desta fala quer centrar-se numa análise
crítica das relações entre a centralização do poder, de base autocrático,
e os problemas típicos do “quarto-mundismo”.
IMPASSES
LIGADOS AO PROBLEMA DA AUTOCRACIA EM ÁFRICA
Antes
de apresentar as características de base dos regimes autocráticos
prevalecentes no continente, que constituem hoje talvez o maior desafio
estrutural e político na marcha para a democracia, temos de esclarecer as posições
utilizadas pelos teóricos do capitalismo realmente existente e as correntes
existentes em África.
Para
os porta-vozes do capitalismo internacional, a democratização segundo o modelo
ocidental se confronta na periferia com o bloqueiamente de uma dupla polarização,
inerente à acumulação no capitalismo real (Cf. Samir Amin, L´empire de chãos.
Paris: L´Harmattan, 1991). Já os africanistas argumentam que a democracia
burguesa na África sairá do aprofundamento da integração no mercado mundial
e das “pressões exercidas pelo Ocidente”, que estaria interessado,
particularmente após o fim do sistema soviético, em encorajar a democratização
de todos os Estados do planeta segundo o modelo liberal. Neste sentido a África
estaria inserida dentro de uma tendência natural da socialização política
mundial, que é a imperiosa adoção de modelos democráticos de gestão política
das nações.
Uma
segunda corrente africana aceita que a mundialização deixaria sempre
suficiente autonomia a cada sociedade periférica para o desenlace dos conflitos
depender principalmente das condições locais. Aqui parece ressoar a profecia
do filósofo político John Rawls, para quem regimes constitucionais liberais
devem podem divergir e expressar diferentes variações internas a cada Estado,
sem com isso comprometer a democracia liberal e a possibilidade de uma Sociedade
dos Povos democráticos liberais. Ao especificar as condições internas que
regem as sociedades democráticas constitucionais, para além das quais um
Estado liberal dificilmente alcançaria a plena democracia, Rawls diz no seu O
Direto dos Povos: “A terceira condição para que uma concepção liberal de
justiça seja realista é que os seus primeiros princípios e preceitos sejam
funcionais e aplicáveis a arranjos políticos e sociais em andamento” (p.18).
Isto, parece claro, no caso interno.
Os
conflitos referidos por esta terceira corrente, a depender das condições
locais, são provavelmente aqueles inerentes aos problemas da pauperização
social que o modelo da democracia liberal capitalista comporta relativamente as
economias dos países subdesenvolvidos. A nosso ver não uma diferença absoluta
entre essas três correntes. As duas últimas, defendidas também na África,
consideram a democracia por excelência – como denunciam S. Amin e I. Shivli
no artigo “Contradictory class perspectives in the debate on democracy”,
publicado no livro An African debate on democracy and constributionalism -
e não passam de versões atualizadas da teoria da modernização política do
início dos anos 60. Sabe-se que foram as decisões ocidentais, sobretudo
americanas, de suportar ou instaurar ditaduras militares ou civis na periferia
que puseram fim às investigações neste sentido. Uma pena!
Pessoalmente
sou partidário da tese do bloqueiamento estrutural, que integra perfeitamente o
movimento historicamente confirmado das modificações nas formas da autocracia
da periferia e mesmo os momentos de “pequena democracia”. Em outras
palavras, as democracias liberais e as autocracias são formas de gestão dos
conflitos no sistema capitalista. As primeiras não passam, conforme a tendência,
de face política da acumulação central e as segundas a da acumulação periférica.
Bem entendido, cada grupo comporta variantes.
Por
que características se reconhece uma democracia liberal central? Com toda a
segurança, não é pela base eleitoral do poder (O PROBLEMA DA LEGITIMAÇÃO),
já que ela não é em geral mais ampla que nas autocracias quando as eleições
são livres e transparentes, como na Índia por exemplo. Por vezes, o seu
sistema eleitoral do poder é mesmo menos eqüitativo e a taxa de participação
eleitoral menos elevada do que nas referidas formas democráticas. Mesmo ao nível
das possibilidades de alternância, as diferenças nem sempre são decisivas,
como mostram os casos do Japão e da Índia.
Contudo,
os regimes do capitalismo central parece sempre mais democráticos que os das
periferias; e isto porque a diferença essencial deriva menos das estruturas da
democracia do que do poder essencial das sociedades civis e das liberdades que
lhes estão ligadas. Mas há que ir mais longe. A democracia liberal pressupõe
que se reúna certas condições econômicas e não econômicas. Assenta
portanto na alienação política, só possível se estiverem reunidas as necessárias
condições econômicas.
Limitando-se
no plano descritivo, o discurso dominante afirma que na democracia liberal o
poder político baseia a sua legitimidade na soberania popular, por um lado, e
na garantia pelo Estado do respeito pelos direitos fundamentais, alguns dos
quais definidos justamente como direitos naturais. Mas, se reduzirmos esse
modelo de democracia à sua essência, não será ela um sistema político no
qual as classes populares, e particularmente a classe operária em sentido
amplo, o campesinato e outros grupos sobreexplorados (como as mulheres e os
marginais) aderem às regras de eleições livres periódicas para definir, de
entre os candidatos, uma maioria de governo a que obedecem os aparelhos de
Estado? Não é verdade que as regras do jogo democrático estão concebidas de
forma a vedar permanentemente a essas classes populares o acesso ao poder e o
exercício da sua própria hegemonia? E que os direitos fundamentais garantem a
exploração da força de trabalho e a sua submissão ao capital?
A
alienação política que acabo de definir manifesta a hegemonia ideológica e
cultural da burguesia. Combinada com a alienação metafísica e mercantil,
reduz a necessidade de recorrer à violência para proteger as pessoas e a
propriedade privada dos meios de produção. Mas será o único conceito de
organização política do capitalismo, como se pretende com freqüência?
É
certo que alguns países da Europa ocidental, o Japão e algumas outras extensões
ultramarinas, se diferenciaram no sistema político mundial e evoluíram de
acordo com este conceito desde a segunda guerra mundial. Mas não são países
africanos. Os regimes não democráticos da periferia não são menos característicos
do capitalismo. Para esse regime é essencial a existência de um potencial econômico
de democratização para o desenvolvimento, pelo menos em duas de suas funções
que são complementares.
Em
primeiro lugar, permitir a formação de um espaço duradouro de solidariedade
interclassista, a nação, graças a uma partilha social das riquezas e da
capacidade de acesso aos serviços, bem como uma distribuição geográfica das
atividades econômicas e culturais por uma classe média em expansão contínua,
que seja considerada eqüitativa e com perspectivas de melhoria. Além disso,
que este potencial econômico forneça ao Estado recursos suficientes para uma
gestão cada vez mais cara da ordem e da segurança das pessoas e dos bens. Quer
dizer, a democracia liberal exige um Estado rico para dar certa, um Estado que
seja o centro de uma extração importante de mais-valia, para garantir a
organização e manutenção da segurança dos ricos, sem ser necessário
recorrer a um poder manchado pela ilegalidade e pela ilegitimidade. É,
portanto, constitucionalista.
O
ciclo se fecha, enfim, no fato de que há a democracia liberal exige uma base
cultural e ideológica necessária para aprofundar a alienação político do
povo. Para uma alienação politicamente eficaz é preciso que o eleitor
acredite na possibilidade da defesa do interesse geral pelos homens políticos
no poder e que não tenha consciência do seu enfeudamento unilateral aos
capitalistas. Como se tornou impossível para a democracia liberal, praticamente
desde a década de 1980 do século passado, a formação de uma burguesia
nacional que não beneficie de uma transferência maciça e visível de recursos
financeiros por parte do Estado, as pessoas passaram a carecer naturalmente das
lentes capazes de enxergar o caráter pernicioso desse dispositivo de injustiça
da democracia liberal. No prisma estritamente econômico, nenhuma democracia
liberal pode ser efetivamente eqüitativa em sua estrutura jurídica e
procedimental.
Para
terminar esta crítica à democracia liberal tradicional do ocidente, que espero
iluminará a tese a ser ventilada mais adiante no tocante aos destinos democráticos
do continente, impõe-se apenas mais uma observação. A identificação do
capitalismo industrial com a democracia permite hoje aos defensores do sistema
existente esboçar duas teorias erradas. Na primeira, diz-se que o
desenvolvimento econômico teria conduzido por si mesmo à democracia liberal
sem lutas políticas e em especial sem revoluções. Este ponto já foi
refutado. Basta acrescentar que não é possível confundir democracia com
regimes de liberdade, Estado de direito com democracia. O capitalismo necessitou
desde cedo de uma força de trabalho que venda livremente o seu tempo de
trabalho, ou mais geralmente, autônoma em relação ao Estado. Contudo, a formação
social capitalista acabada tem coexistido sem dificuldade com formas de trabalho
forçado. Por outro lado, a sociedade civil pode mesmo funcionar num regime não
democrático, como ocorreu com o Japão antes da segunda guerra mundial.
Como
óbvio observar, na África não estão reunidas as condições de alienação
política e portanto de democracia liberal. Seu estado de “quarto-mundismo”
constitui uma oposição radical e de princípio à democracia liberal real.
Pela
sua natureza, o Estado do Quarto Mundo é um mecanismo de extração de mais
valia das camadas populares e de permanente endividamento externo em benefício
exclusivo dos ricos e dos credores estrangeiros, o que permite a uma ínfima
parte da população ter um nível de vida com freqüência superior ao nível médio
dos países desenvolvidos e acumular, em geral, de forma improdutiva.
O
Estado do “Quarto Mundo” não pode ter pretensões de fundar uma democracia
ocidental. No entanto os povos aspiram a viver em liberdade e a participar na
vida política. Em muitos países com uma pequena democracia em marcha,
inclusive naqueles onde já se verificou alternância de poder (caso da Zâmbia,
por exemplo), as classes dirigentes elevadas ao poder pela contestação popular
da ordem colonial e pós-colonial, desligaram-se do povo pelo seu nível de
vida. Nestes e na grande maioria dos países subsarianos, a partilha das
riquezas é feita pelo sistema continua sendo por apadrinhamento/clientelismo.
Mas, por efeito da crise do desenvolvimento e da economia mundial, esses
rendimentos desaparecem.
Fala-se
de luta de morte pelo acesso à classe dirigente e dominante, que se completa
atualmente com a resistência para não se ser expulsa dela. Isso leva a
territorialização do poder, fato que garante a sua manutenção e sua
circularidade, já que até o prestígio político passou a ser um patrimônio
acumulado exclusivamente por essa classe, a ele redutível. Na África as massas
não mais conseguem reconhecer e aceitar a novidade política ou social ligada
aos círculos fora da classe dominante e dos movimentos históricos da resistência
militar. Considerando que estas duas últimas classes traçam sua descendência
histórica com os movimentos de resistência militar ou das guerrilhas,
sociedades civis democraticamente organizadas poderão vir a constituir uma
utopia acadêmica (pelo menos a curto e médio prazo), não obstante uma utopia
realista. Até as exceções não sobreviveriam à teoria se considerarmos o
alinhamento étnico e o fundamentalismo religioso como componente de manutenção
política da classe dominante na atual África.
Retorno
ao raciocínio anterior. O agravamento da crise das finanças públicas e da
balança de pagamentos que forçam ao ajustamento pela contração do consumo
popular individual e coletivo é conseqüência desta forma de relação entre o
poder e a economia. O conceito de nação esvazia-se à medida que desaparecem
as ilusões de uma inversão desta tendência. Já sabemos que quanto mais aguda
é a crise das finanças públicas, mais forte será o ressentimento popular
para com os ricaços. O apoio técnico e financeiro do Ocidente dos Estados
cujos povos os rejeitam à custa de grandes sacrifícios fá-los surgir como
aquilo que realmente são – instrumentos de opressão e de ajustamento das
sociedades locais às exigências econômicas e estratégicas do exterior.
Ao
contrário do que supõem os adeptos da democracia liberal em África, o que lá
precisamos não são apenas eleições livres e alternância no poder de uma
minoria da burguesia compradora. O que a África precisa é uma mudança de
sistema. Em outras palavras, as aspirações reais do continente situam-se na
perspectiva de sociedades pós-capitalistas, melhores que o capitalismo. O
problema é que a transformação destas aspirações continua confusa. Daí as
reações considerados irracionais do ponto de vista capitalista, mas que não põem
em causa a hegemonia da minoria dominante: a tendência para reassumir práticas
religiosas, étnicas ou comunitárias, o incivismo e a idealização
desinformada da democracia liberal. Nem conflito aberto de classes (os que
mandam devem continuar mandando, do jeito como sempre mandaram, apenas mais
afetos ao jogo limpo de dominar à sombra de uma falsa legitimidade), nem
consenso (sobre quais sistemas políticos a adotar, adequados e necessários
para resgatar o continente da insignificância história da governabilidade
humana) – tal é a situação atual.
Está
ocorrendo o seguinte: para subir ao poder, minorias hábeis da classe
(burguesia) dominante podem apoiar-se nestas reações de rejeição do grupo
dirigente imediato, mas apenas para continuar as mesmas políticas econômicas e
sociais durante o interregno de uma “pequena democracia”, antes de regressar
às formas de autocracia primária (QUALQUER SEMELHANÇA COM O BRASIL ATUAL É
MERA COINCIDÊNCIA). Efetivamente, qualquer poder saído de eleições livres e
transparentes que não baseie a “aliança democrática” num forte componente
popular, nacionalista e pan-africanista autônoma, continuará a ser comprador
(exportador e importador) e opressor. E o pior, opor-se-á ao recurso à
“pequena democracia” para resolver os seus conflitos internos.
Nestas
condições, a “abertura democrática”, necessidade política, moral e histórica
para as forças populares e nacionalistas, pode desembocar no caos e na
incapacidade para se cristalizar. Esse é o verdadeiro desafio para o
desenvolvimento democrático no continente africano. Defendemos, portanto a
repolitização como exigência da democratização da África. Sem ela, a África
não tem futuro.
REPOLITIZAÇÃO
PARA A DEMOCRACIA
Vou
agora tentar aprofundar a idéia de repulitização, na linha do que
anteriormente chamei de “mudança do sistema”, pondo a descoberto dois tipos
de desafio para o problema da democratização da África. São eles: a
reetnicização e a heterogeneidade cultural-religiosa.
As
recentes eleições livres na África do Sul, em seu segundo histórico, mais
uma vez mostraram ao mundo que pode haver democracia na África. Muitos
africanos hoje passaram a pensar assim também, depois dessa incontestável
demonstração de unidade nacional. Se este otimismo se confirmará para sempre,
só Deus sabe. Contudo, há por detrás dessa rara e suspeita demonstração de
reconciliação e anistia nacional muitos fatores determinantes, todos ligados
ao que chamo de repolitzação. As mais salientes são aqueles resultados das
revoltas populares de 1984 contra o apartheid.
De
fato, essas revoltas marcaram um corte na história do movimento social pós-colonial.
Não há como subestimar o considerável impacto psicológico que aqueles
acontecimentos provocaram ao mundo, na África em especial. Marcam o fim do medo
entre os jovens e os marginalizados dos diversos “sowetos” populares da AS.
Mesmo assim, não foi uma repolitização comparável à que acompanhou as lutas
de libertação nacionalistas. A principal diferença tem a ver com a percepção
e o uso da heterogeneidade cultural por parte dos líderes destes últimos
movimentos. Não podemos perder isto de vista na marcha para a democratização
e o desenvolvimento.
As
lutas de libertação nacional foram dirigidas por líderes desetnicizados
(dizia-se na época “evoluídos” ou “destribalizados”, tecnicamente de
“assimilados”). Faziam parte do grupo restrito que formava o embrião da
“sociedade civil nativa”, de que o povo obviamente estava excluído. Começaram
em geral por reivindicar a igualdade com os colonos (Cf. P. Lumumba; Le Congo,
terre d’avenir est-il menacé?). Mas quando tomaram consciência da
necessidade da construção nacional, mobilizaram populações culturalmente
heterogêneas (e pouco urbanizadas) com tanto maior facilidade, a meu ver por três
razões: (a) a aspiração ao auto-governo está implantada em cada ser humano,
(b) a repugnância da situação colonial, uma dominação insuportavelmente
violenta, (c) as diferenças sociais e/ou culturais entre colonizados e colonos.
Não foi muito difícil “politizar” ideologicamente as massas populares para
garantir as revoltas armas de libertação.
Influenciadas
pela força do conceito de Estado nacional burguês da Europa Ocidental,
julgavam poder reduzir a distância entre o conceito e a realidade pela manutenção
da politização, pelo desenvolvimento acelerado das forças produtivas e pela
redução das desigualdades sociais e geográficas. Infelizmente, estes líderes
empenhavam-se numa tarefa impossível – construir a nação sem se
desconectar. A crise é tal que hoje a base da maioria dos dirigentes da luta
pela democracia são tão étnicas, regionais ou confessionais (religiosas) como
aquelas que levaram os primeiros e atuais autocratas ao poder dominante.
Contetam-se em adaptar-se aos efeitos centrífugos da expansão e da crise do
Quarto Mundo.
Os
movimentos populares e nacionalistas de hoje têm de opor-se a esta reetnicização/tribalização
se o que defendem é a plena democracia na África. E o meio principal para o
conseguir é a repolitização, a qual, bem entendido, só terá êxito se o
sistema econômico mundial e a política internacional se lhe tornarem favoráveis.
Passo a resenhar rapidamente apenas as condições internas desta repolitização,
concentrando a atenção no problema da heterogeneidade/homogeneidade cultural.
Sustentamos
contra aqueles que pensam dever rejeitar-se o conceito de Estado nacional
jacobino herdado da história do capitalismo na Europa ocidental, que o projeto
de nação culturalmente homogênea em planos tão fundamentais como a língua e
o regime de propriedade, a igualdade dos sexos, etc., não pode ser abandonado
sem riscos. A principal lição a extrair do desmoronamento da URSS e da Jugoslávia,
dos problemas da Índia, etc., é clara: há que tentar realizar, por meios
democráticos, a máxima heterogeneidade, necessária ao projeto alternativo. A
unicidade das modalidades de acesso à terra e a unidade lingüística
constituem, a nosso ver, as bases mínimas deste projeto.
As
políticas dos Estados africanos nestes domínios são desfavoráveis aos
movimentos populares e nacionalistas progressistas. Enquanto entre 1950 e 1960
os dirigentes eram desetnicizados (muitos ainda o são nos países subsarianos,
como em Angola e Moçambique) hoje as elites exibem-se como representantes das
suas etnias, mesmo quando estão desenraizados que já não falam a língua nem
respeitam os “valores tradicionais” da terra (creio que só no passado o
Estado angolano iniciou consultas com as autoridades tradicionais, visando a
inclusão da perspectiva tradicional de poder na sua idéia de governabilidade
eficiente). A urbanização poderia ter dado um golpe sério no etnicismo (mas não
necessariamente no regionalismo) se tivesse sido acompanhada por uma política
ousada de unificação lingüística.
Esta
etnicização das elites acompanha o aprofundamento do “espírito
regionalista” nas camadas populares, espírito articulado com a linhagem e a
comunidade aldeã. Efetivamente e como regra geral, o princípio de livre acesso
à terra da linhagem continua a prevalecer nas aldeias (S. Melone, La terre et
la parenté...). Este modo de acesso que privilegia as linhagens e não os indivíduos
é um fator essencial na manutenção das relações comunitárias pelos
migrantes e urbanizados. Tanto mais que na cidade a crise precoce da
industrialização originou um recuo relativo, e com freqüência absoluto, dos
assalariados modernos em benefício da mão-de-obra familiar característica da
submissão informal do trabalho ao capital.
Que
seja dito uma mais vez: é a crise da construção nacional, particularmente
nestes efeitos sociais desastrosos, que explica a proliferação das “associações
regionalistas” no meio urbano. Isto é particularmente verdadeiro com relação
a África ocidental. Para qualquer membro de uma dessas associações, as obrigações
estão ligadas a direitos; o laço com a terra confere aquilo que John Rawls
chama de bens primários: direitos fundamentais (direito a) e direitos materiais
(direito sobre). Os primeiros dizem respeito à manutenção do seu estatuto na
comunidade, à proteção contra as forças do mal, e ao direito de sobrevivência.
Os direitos materiais traduzem-se frequentemente por direitos de usufruto da
terra. Desde que cumpra as suas obrigações, o habitante urbano conserva os
seus direitos sobre a terra comunitária. Através das suas obrigações,
acumula direitos potenciais de reciprocidade: a possibilidade de enviar os
filhos para a aldeia, de ser auxiliado em caso de dificuldade ou de funeral. De
modo mais geral, “os direitos são análogos a um seguro por capitalização
contra as calamidades que possam provir do mundo real e do mundo imaginário.
Neste caso, as prestações do seguro serão representadas por cotizações
permitindo ajudar de forma coletiva o aderente em dificuldade” (F.R. Mahieu,
Les fondements de la crise économique em Afrique.
Paris: L’Harmattan, 1990, p. 58).
Na
realidade, a “comunidade” funciona cada vez mais como um mito a dois níveis.
Em primeiro lugar, ao nível da propriedade, visto que o acesso das camadas
populares às terras da linhagem ou da comunidade é cada vez mais limitado pelo
processo de apropriação das melhores terras pelo Estado ou pelo capital
privado (diz-se que as terras diamantíferas em Angola foram todas privatizadas,
em favor, é óbvio, dos membros no poder ou seus familiares. Não sei se isto
implicaria também em apropriação, por tabela, das riquezas minerais dessas
terras; se for assim, será o exemplo mais descarado de golpe econômico com
vistas a inviabilizar a democracia e o desenvolvimento nacional. De qualquer
modo, documentos capazes de comprovar este rumor ainda não estão disponíveis
aos pesquisadores, creio).
Em
segundo lugar, ao nível da ideologia da solidariedade; aparentemente, esta
funciona em benefício dos membros mais pobres, mas, na realidade, à medida que
aumenta o número de pobres, os mais ricos e mais poderosos resolvem os seus
problemas entre si num quadro que transcende a aldeia e mesmo a etnia.
Acima
da comunidade, que é uma realidade, não obstante em crise, funciona a
ideologia da etnia, que não passa de uma arma suplementar utilizada pela
burguesia para dividir as camadas populares. Assim, nos governos tomam assento
“representantes” de etnias que ninguém elegeu, “representantes” tão
apreciados pelos seus pares como impopulares na sua etnia ou mesmo na sua
“comunidade”. O essencial para a classe dominante é que a comunidade
bloqueie o processo da formação de organizações autônomas das camadas
populares.
(Chama
atenção a atual mobilização em curso em Angola no sentido de disseminar
comitês de recrutamento de militância partidária, visando os interesses políticos
eleitoreiros. Algumas lideranças de um dos partidos de oposição foram levadas
a tribunal, na província de Benguela, por reclamar publicamente que o partido
dirigente estava dificultando a sua reinstalação numa localidade. Note-se as
duas seguintes manchetes:
Lunda-Norte:
MPLA transfere células para áreas de residência
Dundo,
20/05 - Cinco células de militantes do MPLA das 68 existentes nos locais de
trabalho, no município de Kambulo, Lunda-Norte, foram já transferidas para áreas
de residência, no âmbito de uma das orientações do seu V Congresso,
realizado em Dezembro último, em Luanda.
O primeiro secretário municipal do MPLA, Domingos Chicalo disse hoje à Angop,
que à luz da nova filosofia, o seu partido tem realizado actividades de
mobilização e recrutamento de novos militantes para as suas fileiras, prevendo
os próximos desafios eleitorais.
O dirigente partidário considerou de exitosa a actividade da reorganização
das estruturas de base, levada a cabo pelos membros do partido no município.
E
esta:
Benguela:
Dirigentes da UNITA no Bocoio vão a tribunal
Bocoio
(Benguela), 19/05 - Dirigentes da UNITA no município do Bocoio, a 110 quilómetros
da cidade de Benguela, vão responder em tribunal, nos próximos dias, acusados
de faltar com a verdade, calúnias e difamação, disse hoje à Angop o
comandante local da Polícia Nacional, intendente Augusto Pequenino.
Adiantou que os membros do maior partido na oposição em Angola, cuja
identificação escusou revelar em pronunciamentos públicos, acusaram
recentemente a administração local de ter ordenado a colocação de efectivos
das Forças Armadas Angolanas na Comuna do Passe, com vista a inviabilizar a
reinstalação da organização do "galo negro".
O oficial superior da Polícia Nacional no Bocoio disse serem infundadas tais
acusações, esclarecendo que o pessoal das FAA há muito deixou a localidade do
Passe, na seqüência dos acordos de paz assinados entre o Governo e a UNITA.”
O
segundo aspecto relacionado com a questão da etnicização é o papel da
heterogeneidade lingüística para uma real e possível democratização da África.
A ausência de políticas de homogeneização lingüística é um verdadeiro escândalo
na África. Cada governo tem os seus ministros da cultura, da educação, do
ensino superior e da pesquisa científica, dispõe pelo menos de uma
universidade – mas as classes dirigentes foram incapazes de desenvolver os
idiomas de origem local ou européia para os transformar em instrumentos de
cultura, de ciência e de tecnologia.
No
terreno das línguas de origem local, Madagascar será por muito tempo a única
exceção notável. A codificação e a escrita do malgache desde o século XIX
transformou-o após a independência numa língua potencialmente dominante sobre
o francês. Na zona do suaíli, o Quênia e a Tanzânia ainda hesitam. Na Etiópia,
o amárico estava vocacionado para se tornar a língua unificadora graças ao
seu prestígio histórico e a uma relativa intraversão lingüística, mas o
projeto encontra-se largamente comprometido devido a uma reetnicização
virulenta, grande parte das razões devidas aos conflitos político-tribais da década
passada. E mesmo em países onde línguas de origem européia sofreram uma
apropriação nacional, como Maurícios e Cabo Verde, o fenômeno explica-se
pelo povoamento por imigração durante o colonialismo e não por políticas
lingüísticas dos Estados pós-coloniais.
O
resultado final é uma espécie de caos lingüístico, causa e conseqüência da
deriva do sistema educativo. Mais da metade das crianças em idade escolar
nascidas nos últimos 20 anos em Angola não falam o português. Elas nasceram e
cresceram nas áreas rurais onde a únicas línguas são as nativas, vastas regiões
que os conflitos armados isolou longe dos centros urbanos, de onde a educação
via língua portuguesa apenas é difundida. Em termos lingüísticos são
duplamente analfabetos, portanto: desconhecem a língua oficial do país e são
literalmente iletrados – porque não houve como promover escolaridade nessas
áreas, já que fechadas ao acesso do Estado ao longo de todo esse tempo. Temos
aí uma larga massa de jovens em idade de votar que ainda não sabem escrever o
próprio nome – e nós estamos sonhando com uma democracia que tem de ser
inclusivista.
As
classes dominantes acomodam-se bem com esse caos lingüístico, até porque
contribui para a despolitização. Em contrapartida, é um obstáculo à formação
de uma intelectualidade ligada aos movimentos populares: como é evidente, a
unidade lingüística não basta para dar nascimento a uma intelectualidade
ligada às camadas populares, mas é-lhe necessária. Na atualidade, para se ser
um autêntico intelectual africano em ciências sociais e humanas, seria necessário,
em algumas países, dominar uma dezena de línguas, sem mesmo assim poder ter a
esperança de ser lido com facilidade.
Evidentemente
a unidade lingüística só é aceitável se estiverem reunidas duas condições:
primeiro, o processo deve ser democrático e não acarretar qualquer prestígio
especial para o grupo de origem (a língua pode ser rebatizada); em segundo
lugar, deve permitir um debate que envolva o espírito crítico e favoreça uma
repolitização saudável.
O
segundo aspecto da questão é o problema da unidade religiosa. A priori, a
unidade religiosa não é favorável e nem desfavorável à repolitização. A
flexibilidade (se posso designar assim a idéia de tolerância religiosa) deve
ser a regra, contrariamente ao que defende os fundamentalistas, para os quais o
dogma original contém uma verdade não sujeita a interpretação, e os
integristas, opostos aos laicismo. A história está cheia de conflitos que se
explicam pelas divergências de interpretação dos livros sagrados. Com efeito,
a religião desempenhou um papel essencial na organização das sociedades e da
sua submissão ou, ao contrário, da sua dominação. Na África considera-se
muitas vezes que as religiões tradicionais têm tanto ou mais impacto sobre o
comportamento dos cristãos e dos muçulmanos que o cristianismo que o islamismo
(Zengo, Cristianismo e Teologia da reconstrução africana – dissertação
mestrado/teologia, 1997). Seja como for, parece prevalecer um certo sincretismo
possibilitador de tolerância, tanto nos países de predominância islâmica
como nos cristãos. É por isso que, no conjunto, o conceito de Estado laico é
aceito no continente.
Na
América Latina, como se sabe, a teologia da libertação foi complementar do
marxismo. Esta reconciliação entre a crença em Deus e a luta de classes
contribuiu, em países como a Nicarágua, para o êxito dos movimentos populares
contra a ditadura e a sobreexploração, apesar de a Igreja oficial ser,
obviamente contrária a essa teologia. Há quem diga que a proliferação nesta
região de seitas protestantes com sede nos Estados Unidos satisfez em grande
parte a vontade do governo americano de reduzir a influência daquela sobre os
excluídos do mercado capitalista.
Por
que a teologia da libertação não se enraíza na África? Possivelmente pelas
seguintes razões sociológicas: a pobreza africana não é ainda tão abjecta
como a do Brasil por exemplo, onde em toda a parte os miseráveis são
afrontados com a humilhante situação de ter que conviver porta-a-porta com os
burgueses. Possivelmente 70% dos miseráveis africanos não conhecem a cara do
luxo dos ricos, já que este gira apenas em torno dos poucos que detêm o poder
político – que não vão no campo nem para fazer campanha política. Mas há
ainda que atribuir o fato, mais fundamentalmente, à fraqueza histórica dos
movimentos comunistas. Embora muitos partidos de partidos-Estados se
proclamassem marxistas-leninistas, eu não ousaria incluí-los nos movimentos
social-comunistas. A teologia da libertação só de desenvolve em reação à
influência do marxismo nas camadas populares. A repolitização na África terá
de passar, pois, pela experiência da politização do tipo marxista verificada
na América Latina para ser nacional.
No
entanto, é para desconfiar que se as massas populares conseguirem organizar-se
em movimentos poderosos, como é por exemplo o caso da África do Sul, as forças
retrógradas ativariam as os fundamentalismos religiosos, cristãos e muçulmanos,
como efetivamente usa ocorrer nos países da África do norte com relação ao
islamismo. Mas, no conjunto, a influência do fundamentalismo religioso mantém-se
por enquanto limitada no resto da África. As linhas de vulnerabilidade
principais continuam a ser as divisões entre “etnias” e “comunidades aldeãs”.
Neste
sentido, o vento a favor dos esforços de permanente democratização parecem
ser aqueles que vêem do Sul. A luta do povo negro da África do Sul contra o
apartheid revestiu uma amplitude extraordinária entre 1984 e a libertação de
Nelson Mandela, em 1991. O regime racista, oficialmente instaurado pela Grã-Bretanha
em 1921 e consideravelmente reforçado após a ocupação bôer em 1948, entrou
desde essa data na sua fase final. O poder branco conduz hoje apenas uma luta de
retaguarda pois, mesmo que obtenha da direção da ANC, pela terceira vez
reconduzida ao poder, concessões opostas no plano constitucional às grandes
reformas sócio-econômicas, não interromperá a luta por uma democracia
liberal. É o exame das razões fundamentais da mobilização popular contra o
apartheid que permite fundamentar esta tese.
Em
primeiro lugar, a aspereza da luta anti-apartheid resulta da violência que
emana da transparência das relações entre a economia e o poder político. O
Estado bôer tinha como única missão servir os bôeres. Encontramos nele o fenômeno
da violência das relações coloniais, mas enquanto na África subsariana o
colonialismo pôde ser substituído pelo neocolonialismo, ao apartheid sucederá
o desenvolvimento de uma perspectiva socialista ou o caos. Tudo depende da
configuração que os sul-africanos derem ao programa da repolitização das
massas, em prol da democracia plena. Se os “brancos” não emigrarem em
massa, a sua presença será fonte de tensões permanentes (haja vista ao esforço
posto agora em ação para evitar que as arquibancadas não sejam coloridas
apenas de peles brancas durante a copa do mundo, que será realizado nesse país
em 2010. A fim de evitar esse vexame social, o governo já começou a buscar
subvenções do capital internacional visando baratear o custo dos ingressos, pô-los
ao alcance das condições reais dos negros). Uma classe capitalista compradora
negra só poderia formar-se rapidamente na África do Sul pilhando o Estado e
portanto instituindo ou apoiando um poder autocrático. Mas as conquistas
obtidas pela luta popular bloqueiam essa saída.
O
mais poderoso fator anti-autocrático é a “desetnicização” do
proletariado. O movimento Inkata de Buthelezi tenta retribalizá-lo, em aliança
com o poder branco, mas não o conseguirá porque a identificação étnica, clânica
e comunitária se tornou residual na identificação de classe. Nisso, o
proletariado sul-africano, “destribalizado” e sobre-explorado e
subaproveitado no exército de reserva, é comparável ao proletariado europeu
do século XIX. Pode mesmo ser visto como uma bomba com potencial revolucionário.
Assim como o proletariado europeu do século XIX, ele está potencialmente
pronto a enveredar pela via do socialismo revolucionário. Mostrar-se-ão as
organizações políticas progressistas e os sindicatos à altura do desafio?
Ou, em outras palavras, a solidariedade entre o proletariado ativo e o enorme exército
de reserva que assegurou a vitória sobre o apartheid sobreviverá ao
desmantelamento deste último? É esse o temor do poder branco, ultrapassado por
vezes pela sua ala ultra-facista, que visa a eliminação sistemática dos
quadros partidários de uma forte componente popular no futuro bloco do poder
(Cf. artigo de H. Campbell “Quand la base défie l’apartheid: alliances
populaires et État en Afrique du Sud”, in P. Anyang Nyongo’o, ed., La long
marche vers la démocratie en Afrique. Paris, 1986).
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