|
OS
DESAFIOS DA DEMOCRATIZAÇÃO
Por
Filomeno Vieira Lopes
O
autor é economista de profissão e também activista político. É secretário
para as Relações Exteriores, Assuntos Parlamentares e Cívicos do partido político
Frente para a Democracia (FpD), estando por isso envolvido num vasto leque de
iniciativas da sociedade civil. Fonte: Revista
Eletrônica Conciliation Resources ACCORD; Issue 15: From Military
Resources to Justice? Editor: Guus
Meijer; 2004
O
controle do estado e das grandes riquezas mineiras sempre esteve na base dos
longos conflitos que têm afectado Angola desde a luta pela independência
nacional até a guerra separatista em Cabinda que continua até hoje. Todos os
acordos de paz tentaram essencialmente resolver a questão do exercício de
poder e de regime político. Na independência em 1975 foi declarado um regime
de partido único, onde a cidadania foi suprimida, não havendo qualquer espaço
ao desenvolvimento democrático. Quando o fim da Guerra Fria provocou uma onda
de democratização no continente Africano, Angola não ficou para atrás. Uma
das traves mestras das negociações políticas exaradas nos Acordos de
Bicesse foi a democratização do país, através de eleições que se
realizaram em Setembro de 1992. A atitude de 'quem vence, vence tudo' e a
contestação à vitória do Movimento Popular da Libertação de Angola (MPLA),
num contexto em que os exércitos partidários não tinham sido desarmados, nem
existiam órgãos arbitrais internos consolidados conduziu a retoma da guerra. O
facto de o conflito entre o governo do MPLA e a União Nacional pela Independência
Total de Angola (UNITA) ter sido terminado finalmente em 2002 por meios
militares, significa que a negociação política e o processo democrático
ainda não foram devidamente consolidados como normas geralmente aceites para a
gestão do estado. Nesta perspectiva, a criação de uma verdadeira democracia
participativa continua a ser o eixo fundamental na construção e consolidação
de paz.
A
contenção democrática durante o conflito pós-eleitoral
Durante
a guerra pós-eleitoral, o governo aludia que a restrição à abertura democrática
então iniciada decorria do facto natural do conflito armado obrigar o governo a
medidas excepcionais. Apesar de nunca ter sido declarado o estado de emergência,
o governo enveredou por um conjunto de atitudes, medidas e omissões que
dificultaram o aprofundamento do regime democrático que se pretendia estar a
ser defendido contra o opositor armado.
Ambas
as forças justificavam a violação dos direitos humanos pela natureza do
conflito cuja radicalização mútua conduziu, de forma particular, a violação
das próprias convenções internacionais, nomeadamente, na mobilização
indiscriminada de crianças para acções militares. Também a violação dos
direitos humanos fora do teatro de guerra era tolerada. Forças militares e
paramilitares, forças policiais e políticos afectos ao poder gozaram de
impunidade à pretexto de que não se poderia quebrar a unidade. As atitudes
governamentais visaram de forma particular os jornalistas independentes que
foram levados à barra dos tribunais por reportarem notícias contra a corrupção
e ainda intimidados, alguns mesmo assassinados, por reportarem notícias de carácter
militar ou ditas de segurança. Um caso que apaixonou a opinião pública foi a
ofensiva governamental contra jornalistas e jornais que publicaram uma
entrevista de Jonas Savimbi, o líder da guerrilha, dada a Voz da América em
Março de 2001.
Medidas
impedindo a formação e desenvolvimento das actividades de associações de carácter
cívico como a Associação Justiça Paz e Democracia (AJPD) bem como a alteração
das leis do direito de antena e de resposta dos partidos políticos (1995)
dificultaram a participação política destes e a consequente mediatização
das suas posições nos grandes órgãos de difusão que são pertença do
estado. As associações cívicas eram acusadas pelo regime de antipatrióticas
(por acolherem os relatórios sobre direitos humanos de organizações
internacionais) de trabalharem ao serviço do 'inimigo' e por serem
politicamente da oposição, alegações que criavam um ambiente de intimidação
e dava campo a acções musculadas da segurança de estado contra os seus
dirigentes.
O
direito constitucional de manifestação transformou-se praticamente em
'decreto' de autorização policial, registando-se ao longo desse tempo várias
prisões de militantes políticos por manifestarem esse direito. Toda a oposição
ao governo com capacidade de influenciar a massa de cidadãos era tomada como
'forma de facilitar a penetração do inimigo'. Por outro lado, o governo foi
incapaz de implementar as instituições constitucionais e legais ligadas a
defesa fundamental dos direitos dos cidadãos como o Tribunal de Contas (só
implementado em 2002), o Tribunal Constitucional, a Procuradoria Geral da República,
o Provedor de Justiça e Alta Autoridade Contra a Corrupção. Também os órgãos
de maior equilíbrio político-social consignados na revisão constitucional de
1992 como O Conselho Nacional de Concertação Social e O Conselho Nacional de
Comunicação Social não funcionam. Tais 'lacunas', omissões e
infuncionalidade propositados adicionadas a submissão do poder judicial ao
'comando único', à pretexto da situação de guerra, completam a malha de
restrições a uma verdadeira emergência democrática e compõem um círculo
coerente de bloqueamento do processo democrático.
Este
clima de contenção democrática induziu certos cidadãos a formularem a ideia
de que, no contexto angolano, onde emergiu uma classe de poder subordinada a vivência
da guerra, a paz era indispensável para a emergência da democracia, o que fez
com que o movimento político e social lutasse pela paz como prioridade. O
optimismo radicava no facto de ser evidente que a guerra era um forte pretexto
para que se não aprofundasse a democracia que pouco mais significava que a
existência de uma constituição, um conjunto de leis formais, um parlamento
multipartidário e de alguns títulos de jornais independentes bem como a emergência
tímida de algumas associações de carácter cívico.
Ao
longo da guerra observou-se uma atitude manifesta do MPLA de consolidar a sua
posição, quer através duma mais estreita partidarização das instituições
e da sociedade, quer através da privatização da economia pública para a
camada detentora de poder político. Tais fenómenos atrasaram ainda mais a
emergência dum estado democrático no pós-guerra.
As
tendências do pós-guerra
Com
a assinatura do Memorando de Luena entre o governo e a UNITA, em Abril de
2002, a nação testemunhou a paz dos bravos, a paz militar, permitindo o calar
das armas. Na verdade, estas calaram-se face a derrota militar duma das partes
sem um cessar-fogo sob guerra activa prenunciador duma negociação política
nem como resultado directo e explicito da luta então desenvolvida pelos
sectores anti-guerra da sociedade civil e dos partidos políticos democráticos.
A redução da paz á lógica militar, dois anos após o Memorando, vem
dificultando o desenvolvimento do processo de democratização pois este está
entrelaçado com a paz social, condição que torna reciprocamente efectiva a
democracia. A falta de vontade política, de transparência e sinceridade para
uma paz efectiva é aliás patente na prevalência da situação de guerra que
ainda decorre em Cabinda.
De
outra forma, o atraso acima observado na democratização com as restrições
acima referidas acrescentadas ao facto de ter sido no período da guerra que se
observou no essencial a transferência da propriedade do estado para um sector
estreitamente ligado ao poder político, praticando o estado uma política de
secretismo na gestão das finanças públicas sem prestação de contas públicas,
quer as do estado quer as das empresas públicas, vem dificultando a implementação
da 'paz social'. De facto a ausência de democratização efectiva periga a
consolidação da paz, visto que esta só se realiza quando estamos perante uma
situação clara de liberdade, de capacidade de partilha, de competição política
transparente e de justiça social, realidades contrárias ao controlo absoluto
da sociedade pela partidarização das instituições e privatização do
estado.
Dois
sintomas começam a observar-se na situação do pós-guerra. A dificuldade em
concluir de forma não problemática as tarefas supervenientes do Memorando
de Luena como o processo de desmobilização e reintegração social dos
militares, o não desarmamento da população civil e a própria participação
da UNITA em cargos públicos, bem como o ressurgimento da intolerância política,
patente em vários pronunciamentos dirigidos ao governo de militares e políticos
da UNITA; por outro, indiciam-se reacções do povo, algumas das quais
violentas, contra a política do governo e de abusos das autoridades,
nomeadamente, a transferência compulsiva de moradores de umas zonas para outras
devido a interesses imobiliários, a destruição de mercados sem que novas
infra-estruturas sejam construídas, o roubo descarado de agentes policiais dos
bens das kinguilas (cambistas informais) e zungueiras (vendedores
ambulantes), e outros casos de natureza repressiva. Nas províncias, em
particular, não há, na generalidade a mínima liberdade política, nem difusão
de ideias em debates, nem questionamento das medidas governamentais lesivas da
democracia, perdurando o medo como atitude normal dos cidadãos.
Tais
protestos, alguns dos quais assumindo já a postura de violência, num contexto
de crise multi-facetada (pobreza extrema, cerca de 70 por cento dos angolanos
vivendo com menos de um dólar por dia, desemprego acentuado, ausência de
investimentos nos sectores sociais como a saúde e educação) é um sinal de
ausência da consolidação da paz, fazendo notar que a falta de um 'pacto'
(reivindicado quer pela sociedade civil, quer pelos partidos políticos da oposição)
entre as várias forças políticas e sociais não permitiu criar um quadro de
esperança sobre o combate as causas que motivaram a guerra e que motivam a violência,
como a fome, as desigualdades sociais gritantes e a falta de liberdade. Antes
pelo contrário o governo persiste na sua atitude de obstaculizar a actividade
de organizações de defesa dos interesses dos cidadãos como as Mãos Livres, a
SOS Habitat, a associação cívica de Cabinda, Mpalabanda, e a Jubileu
2000. Um ponto crucial desta estratégia de contenção da abertura democrática
está na não extensão do sinal da Rádio Ecclésia, ligada a Igreja Católica,
a todo o território nacional, a menos que, como o exige o Presidente da República,
a emissora mude a sua linha editorial. A 'reconciliação nacional', com efeito,
tem estado restringida nos marcos de certa divisão de cargos políticos para os
membros da UNITA, anteriormente em guerra contra o governo.
A
política de contenção democrática conduziu a desqualificação do papel dos
partidos políticos da oposição (apenas eficiente em contextos democráticos)
e a ausência duma sociedade civil activa. Os partidos estando na Assembleia ou
fora dela têm sido incapazes de travar a corrupção que grassa no aparelho de
estado, de exigir a prestação de contas, de forçar o cumprimento da Constituição
através da implementação das instituições ali consignadas. Sabendo que quer
os partidos políticos, quer a sociedade civil organizada jogam no teatro político
o papel de forças de mediação, pois canalizam os anseios da massa de
cidadãos de forma constitucional, a sua incapacidade obriga aquela a
confrontar-se directamente com o regime que lhe aparece sob a forma policial
repressiva. Tal situação vem consolidando a ideia do partido no poder da
necessidade de investir cada vez mais em meios de repressão, o que é patente
no Orçamento Geral do Estado que, ainda para o ano de 2004, atribui 32 por
cento a defesa e segurança, percentagem superior a dos EUA e União Soviética
do tempo da Guerra Fria.
As
eleições e a nova Constituição – um parto difícil
Os
angolanos apenas votaram uma vez na vida, em 1992, na sequência dos Acordos
de Bicesse. A Assembleia Nacional tem maioria MPLA que pode votar qualquer
lei a seu favor. Em 1996 votou para uma auto-prorrogação do seu mandato a
pretexto da existência da guerra. Apesar da guerra ter terminado oficialmente a
4 de Abril de 2002, o partido no poder não quer definir uma data para as eleições
à pretexto de que é preciso que se preencham 14 condições necessárias, o
que, no seu parecer, não será possível antes de 2006. Estas condições vão
desde a adopção de uma nova Constituição e Lei Eleitoral até a revitalização
da economia rural e um consenso nacional sobre o desenvolvimento de Angola até
ao ano 2025. Os partidos da oposição, incluindo a UNITA, e sectores da
sociedade civil têm advogado a realização de eleições no ano de 2004 (FpD
em especial) ou 2005 para impedir que a Assembleia Nacional tenha mais um
mandato sem legitimidade popular e que o MPLA e o Presidente continuem no seu
estilo autocrático. O facto do Presidente não consultar os partidos políticos
para marcação das próximas eleições levou já a que os membros da oposição
na Comissão Constitucional abandonassem este órgão até que aquela entidade
faça a consulta conforme o prescrito na constituição.
De
facto regista-se um cansaço geral sobre o sistema político de governação e a
grande maioria vê nas eleições uma oportunidade de mudança. O grande desafio
político das eleições, seja qual for a data escolhida, será de assegurar um
'campo de jogo' mais equilibrado do que em 1992 – um grande desafio, visto a
omnipresença do partido no poder não só nas estruturas de governo e de estado
mas em todas os sectores da sociedade. Neste contexto, uma preocupação contínua
é a despartidarização das instituições e da sociedade manifesta, pois ainda
se regista a presença de células do partido no poder nos locais de trabalho,
sobretudo no sector estatal, e o controle directo pelo partido das Comissões de
Moradores e Coordenadores de Bairro – situações que estão a ser
desmanteladas só parcial e paulatinamente. Também a partidarização da Justiça,
da Polícia e de outros serviços de estado, empresas públicas, sector bancário,
clubes desportivos, fundações, etc constituem um obstáculo a ser superado.
Em
Janeiro de 2004, a Comissão Constitucional aprovou já os princípios sobre os
quais foi elaborado um Anteprojecto de Constituição por uma equipa técnica. O
anteprojecto corporiza um modelo presidencialista de governação, sem quaisquer
contrapoderes: "O Chefe de Governo é o Chefe de Estado, o Chefe do Governo
e o Comandante em Chefe das Forças Armadas" (artigo 47º do Anteprojecto
de Constituição da República de Angola). Nesse sentido, entre outras competências,
nomeia e exonera os Governadores Provinciais e do Banco Nacional, as entidades
judiciais, bem como orienta a sua acção, e dissolve o Parlamento. Entretanto,
"A República de Angola é um Estado unitário e indivisivel que respeita
na sua organização os princípios da autonomia dos órgãos do poder local e
da descentralização e desconcentração administrativas" (artigo 8º do
Anteprojecto). A Constituição não advoga a eleição de governadores
provinciais mas a nomeação dos governadores é feita sob proposta do partido
mais votado na província nas eleições legislativas que governará de forma desconcentrada,
ou seja, com órgãos locais de representação central. O MPLA cedeu este ponto
à UNITA que inicialmente pugnava com a demais oposição por eleição dos
governadores, como contrapartida do sistema presidencialista. Só ao nível do
poder autárquico (municípios e comunas) é que os órgãos são eleitos e
gozam de descentralização administrativa. De resto, o Anteprojecto referido
(artigo 227º) advoga como inovação a existência dum Conselho Nacional para
os Assuntos Locais, órgão de carácter consultivo e não permanente da
Assembleia Nacional.
Sem
democratização não há paz social
Pode
concluir-se que o processo democrático em Angola atravessa um momento difícil
e perigoso face a interdependência entre paz e democracia, onde qualquer dos
termos não consegue realizar-se. De facto a guerra forneceu os elementos de
contenção do processo democrático que permanece através da ideia de que o
vencedor militar deve conformar o sistema político como entende.
O
processo democrático está incompleto e de certa forma bloqueado, visto que se
regista um défice na implementação de instituições constitucionais e a
protelação da concorrência política através do processo eleitoral,
permanecendo uma estrutura autocrática. O mesmo pode ser observado na existência
de sistemas de coerção e arbitrariedade, bem como num crescendo da militarização
da vida social que dificulta a existência de associações e sindicatos e vem
suscitando o aparecimento de motins e o germinar da violência. Há falhas na
partilha dos recursos e do poder, dada a situação prevalecente de um
partido-estado e da concentração da riqueza numa minoria política. O estado
actual é na realidade um apêndice do partido no poder, que o absorve, por seu
turno, através dum sistema oligárquico ('cleptocrático') não declarado. O 'défice
democrático' também é visível no imobilismo da Assembleia Nacional e na sua
incapacidade de ter iniciativa legislativa e de fiscalizar a acção do
executivo. Finalmente, é evidente na inexistência de um diálogo permanente e
inclusivo, capaz de dar origem a uma proposta de superação dos grandes
desafios nacionais, entre os quais a reconciliação nacional genuína, a luta
contra a pobreza, a degradação do ambiente e o desenvolvimento sustentável.
Em
Março de 2004 trinta partidos políticos, incluindo a UNITA, e associações cívicas,
sob o patrocínio da Open Society-Angola, lançaram uma campanha 'Paz sem
democracia é fantasia'. A campanha não se limita a capital, mas realiza
encontros e manifestações nas províncias, desde Cabinda até Huambo e as
Lundas, na base dum Manifesto pela Democracia, que declara, entre outras coisas,
que "hoje (...) o exercício das liberdades e direitos apresentam-se como
os maiores desafios para o povo angolano."
Se
os angolanos pretendem preservar e consolidar a paz têm que ter a coragem de
enfrentar estes desafios e de tornar real o processo democrático.
|