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O GUERREIRO
FILIPE SALVADOR VOLTOU PRA LUZ
Quando
conheci e me apaixonei perdidamente por FILIPE SALVADOR, em novembro de 1989, na
exposição coletiva que ele fazia com artistas plásticos afro-brasileiros, no
Parque Lage, sob a direção do inesquecível Mestre JOSÉ DA PAIXÃO SILVA,
aquele angolano jovem, elegante, bonito, charmoso e educado, além de tudo isso
mostrava, através de suas telas, que ele tinha um talento extremamente
especial. Suas telas falavam de guerra, de dor e sofrimento, mas também de
superação e redenção, envoltas numa estética cubista e surrealista,
fortemente novas, modernas, enfim, recriadamente contemporâneas. Procurei
conhecer melhor aquele homem vivo, elétrico, pleno de energia, cuja força de
atração abria portas inacessíveis para artistas plásticos afro-brasileiros,
como na fundação da CAPA – Associação Casa do Artista Plástico
Afro-Brasileiro – inspirada na UNAP, trazendo para si amigos, oportunidades e
novidades.
FILIPE
SALVADOR era filho do já falecido Salvador da Conceição Francisco da Costa,
companheiro de guerra do vitorioso Agostinho Neto, nas primeiras batalhas de
libertação de Angola, e, de Luzia Gonçalves Manuel, que agora, aos 80 anos
sofreu mais uma grande perda, com a morte do querido filho artista internacional
– o Massada - mesmo depois de ter aberto mão do marido, irmãos, filhos
e de outros parentes que também sangraram pela liberdade do sagrado solo
angolano.
FILIPE
SALVADOR nasceu no dia 24 de fevereiro de 1960, na cidade do Negage, província
de Uíge, norte de Angola. Aos 14 anos atendeu aos chamados de Agostinho Neto,
pelo rádio, e se juntou ao MPLA – Movimento Pela Luta de Libertação de
Angola. Foi artilheiro, tanquista, soldado, cabo, sargento e tenente. Esteve
preso em campo de concentração, foi bombardeado e ficou com o coração de
fora, até ser salvo numa grande cirurgia por médicas cubanas. Escapou de
tiros, minas e bombardeios. Ao ser dispensado da guerra, pelos seus ferimentos físicos
e psíquicos, totalmente marcado pela violência, enterrou suas armas e jamais
voltou a empunha-las.
Já
no Brasil, caiu com o próprio carro, um ômega, de um viaduto de quinze metros,
na Av. Brasil. Foi atropelado na Bahia.... Sempre soube enganar a morte.
Na
tarde do último domingo, 12 de fevereiro de 2006, numa crise mental/psíquica
e existencial, a morte lhe acenou brejeira com uma água gelada e um cafezinho,
no Hospital Philipe Pinel, em Botafogo. Filipe Salvador, o grande Guerreiro de
Angola, ave de arribação para uns, entidade para outros, acreditou que seria
salvo de todos os seus dramas e problemas, por médicas psicólogas afetuosas e
enfermeiras ternas. Enganou-se. Nas enfermarias frias, desprovidas de atenção,
conforto e remédios adequados, o sopro de vida que lhe restava de outras tantas
batalhas, se apagou, sem horário certo, sem atenção ou consideração.
O
Grande Guerreiro Angolano, das artes e dos Direitos Humanos, caiu morto numa
enfermaria; vencido pelo Anti-Sistema de Saúde Pública Brasileira. Justo no
momento em que ele estava prestes a voltar para Angola, a convite do Consulado
Geral de Angola no Rio de Janeiro, para atuar como o grande artista plástico
que era, nas comemorações dos 30 Anos de Angola, por cuja liberdade lutou com
armas e pincéis. 
Neste
momento, em que devolvemos à terra, o corpo do nosso amigo, esposo, pai, filho
e irmão – FILIPE SALVADOR – sentimos uma profunda dor em nossos corações,
porque não teremos mais o incentivo de sua presença e só muita saudade.
Infelizmente,
por questões financeiras, sua querida mãe Luzia, sua doce irmã Lena, seus irmãos
Vino e Xende, não puderam vir para o funeral. Também seu único filho, de 14
anos, Kyesse Freedom Silva Salvador, que está estudando com bolsa da FESA –
Fundação José Eduardo dos Santos, no IABC – Instituto Adventista Brasil
Central, na cidade de Anápolis, no estado de Goiás, não pode vir para o
sepultamento de seu amado pai. Presentes da família, apenas seu irmão caçula
Victor, o Giro, sua prima Débora e seu esposo João Carlos, eu, a sempre
companheira, Anna Davies, seu primo José Barros Tambo e seu amigo das últimas
horas, Terson Faraó.
FILIPE
SALVADOR viveu 18 anos no Brasil e foi recebido pelos brasileiros com muito
carinho. O primeiro amigo de Filipe no Brasil foi o também artista plástico
Daviran Magalhães. A primeira exposição que eles fizeram, com o apoio de Anna
Davies teve o nome de AMIZADE BRASIL ANGOLA. Mas nunca lhe faltaram amigos para
aplainar o seu caminho em terras brasileiras. Lygia Fuentes e Mandela, Dra.
Marlene Louro, Sérgio Caldieri, Gringo Cardia, Marisa Ortz, Abel Duerê,
João Uchoa, Ademar Celito Jahn, o cantor Bebeto, Mário Wu e Cristina, Ruth
Pinheiro e Oswaldo Neves, Vera Marina e Helder, Wanderley Caramba, Rosáuria,
Maurício Nolasco, Carmen Tindó Secco, Eli Zambula e Zakeu Zengo. São incontáveis
os amigos que FILIPE SALVADOR conquistou no Brasil, do asfalto a favela, que ele
amava desesperadamente.
O
currículum artístico de FILIPE SALVADOR é irrepreensível e fala por si, como
suas obras de arte, seus quadros emocionantes, repletos de reveladoras
mensagens de mundos possíveis ou inalcançáveis, mas incessantemente buscados
por ele.
No
momento em que todas as portas se fecharam para ele no Brasil, estavam abertas
as portas de Angola, através do Consulado Geral de Angola no Rio de Janeiro, de
seus diplomatas, como os Vice-Consules, doutores, Diogo Fortunato e Francisco
Gunza e, muito especialmente, o Embaixador e Cônsul Geral de Angola no Brasil,
o Dr. Ismael Diogo da Silva, que repetidamente se revelou o amigo das horas
incertas e que muitos outros bons planos tinha para o seu artista predileto –
Filipe Salvador – planos estes interrompidos pela fatalidade.
Uma
outra pessoa, melhor dizendo, personalidade carioca, que dedicou ao FILIPE
SALVADOR uma devoção e apoio especiais, foi o Sr. JOAQUIM CABRAL GUEDES – o
famoso Sr. Cabral do Lidador. Ele foi um pai, um amigo e um irmão, que não
mediu esforços para amenizar as vicissitudes pelas quais FILIPE SALVADOR
passou, independentemente de sua própria vontade.
Enfim,
amigos e irmãos, não vou citar a minha banda de amigos diletos como Chiquinho,
meu xamã compadre e, Waléria Leal; são tantas pessoas as quais devo agradecer
que o tempo não permitiria, mas levo meu beijo e abraço a todos vcs que sabem
o que fizeram por mim, por nós, pelo nosso filho Kyesse Freedom.
FILIPE
SALVADOR, 45 anos foram suficientes para você fazer sua grande obra de vida.
Muitos não conseguem realizar tanto, nem aos 90. Você pode se considerar um
vitorioso, porque você tinha tudo para morrer na África e não morreu. Você
tinha tudo para fracassar no Brasil e venceu. Portanto, FILIPE SALVADOR, fazendo
todas as contas, noves fora o inesperado, o seu saldo positivo é a grande obra
de arte que você deixou, intrigando, instigando, apaixonando os amantes das
Belas Artes. Assim, posso terminar concordando com o grande crítico de arte,
infelizmente já falecido, Walmir Ayala, que em 1993, extasiado com a sua obra
escreveu que, você era um homem de luta, e quem luta e resiste verá a luz. VOCÊ
VENCEU FILIPE SALVADOR! Veja a luz e esteja na luz porque sua jornada de dores e
sofrimentos na terra, terminou.
Que
Deus – Jeová, seu amado filho Jesus Cristo, os guias de luz, Olorum, os
mentores espirituais e os Orixás, através do seu Ori, salvem seu Oxalufã, seu
Oxaguian, seu Ogum, seu Xangô e seus BaBalaôs. Humm, hummm, e também
salvando seus Exus, para que você entre no Odara do Reino dos Céus, porque você
se fez merecer.
AXÉ
FILIPE! VIVA A ÁFRICA! VIVA O NEGRO! VIVA O POVO DE ANGOLA E VIVA O
BRASIL! SARAVÁ!
Rio
de Janeiro, 16 de fevereiro de 2006
Anna Davies
Texto lido no enterro
do artista plástico angolano Filipe
Salvador – Cemitério São João Batista
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