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AS TENTATIVAS (FRACASSADAS) DE
UMA POSSÍVEL
COLONIZAÇÃO ALEMÃ EM ANGOLA
Fonte: http://www.eb23-diogo-cao.rcts.pt/Trabalhos/nonio/xx/angola.htm
TENTATIVAS
DE COLONIZAÇÃO
Houve muitas
tentativas para o alojamento dos judeus em Angola. A primeira tentativa foi de
W. Terlo, um enólogo israelita que no dia 15 de Junho de 1912 conseguiu que
fosse aprovado por unanimidade no Parlamento português um projecto-lei chamado "Projecto
Bravo". Este projecto previa uma colonização de uma área de 45000 Km2
no planalto de Benguela. Depois de ter sido aprovado no Parlamento o "Projecto
Bravo" tinha que ser integrado na Constituição.
Mas a Jewish
Territorial Organisation (ITO), uma organização israelita que se dedicava
principalmente à procura de um refúgio para o povo judeu em qualquer parte do
mundo, recusou o "Projecto Bravo" que foi apresentado em Viena (27 a 30 de Junho
de 1912).
A ITO
considerava as concessões feitas pelo governo português insuficientes. Criticava
as condições económicas que limitavam as concessões de terrenos a colonos
individuais, que retiravam desta forma investimentos de empresas ou sociedades
de colonização. Exigia também que houvesse uma área para formar uma "nova pátria
judaica".
O projecto
Bravo designado mais tarde por "200 B" apresentava no primeiro artigo que os
colonos deviam-se tornar portugueses para usufruir dos terrenos. Para além disso
exigia também o uso exclusivo nas escolas publicas de ensino elementar e como
toda a correspondência respeitante aos serviços públicos.
A ITO
organizou uma expedição sobre a orientação de um cientista inglês J. W. Gregory
aos terrenos em Angola. Depois de percorrer 3000 milhas quadradas, concluiu que
era muito difícil colonizar.
Em 20 de
Janeiro de 1934 existiu uma nova tentativa para colonizar Angola. Passado um ano
depois de
Hitler chegar ao poder um embaixador português em Londres, Ruy Ennes Ulrich,
refere no seu relatório habitual que houve uma visita de dois judeus alemães,
Dr. Fritz Seidler (antigo secretário do ex-presidente alemão, Streseman) e Dr.
Ernest Meyer (membro da Federação Internacional dos jornalistas), diziam que
andavam à procura de território para se estabelecerem.
Dr. Fritz
Seidler tentou persuadir o governo português a aceitar os judeus dando o exemplo
do rei da Prússia. Seidler quando falava ou se referia aos seus protegidos nunca
os chamava "judeu" mas sim "emigrantes" ou "alemães instruídos".
No dia 24 de
Fevereiro de 1934, Ulrich aconselhou o Palácio das Necessidades a desiludirem os
israelitas a se estabelecerem em Angola "pois o silêncio pode ser interpretado
como um acolhimento favorável".
Numa nova
carta, Seidler informou que uma comissão cientifica internacional, Sociedade De
Acordo De Refugiados, sediada em Paris, começava a formação do banco para a
colonização que já se encontravam à disposição da sociedade.
Um mês mais
tarde, o jornal inglês "Daily Herald " publicou em 30 de Abril de 1934 um artigo
com o seguinte título: "Nova casa para 5 000 000 judeus. Projecto de acordo para
o oeste de África. Portugal oferece-se para dar terra". Nesta notícia dizia que
havia negociações secretas entre a delegação israelita e o Governo português
acerca da fundação de um Estado autónomo em angola.
Este seria
colonizado por 5 milhões de judeus provenientes da Alemanha, Áustria e dos
Estados da Europa oriental que ficaria sob presidência da
Sociedade das Nações. O governo português e o Private Inquiries (inquéritos
privados) do governo britânico teriam aprovado o plano e apenas teriam imposto
algumas condições.
Muitas
delegações diplomáticas e consulares portuguesas ficaram alarmadas e foram ao
palácio das Necessidades pedindo esclarecimentos. Com esta notícia o ministro
das colónias viu-se obrigado a desmenti-la ao representante da agência Reuter e
também o jornal judeu "Jewish Chronicle". Assim, o jornal "Daily Herald" fez
várias investigações de várias personalidades e concluiu que a única verdade era
a seguinte: "... alguns meses atrás, alguns judeus alemães tentaram com
insucesso negociar com o governo português o pedido de terra em Angola,
considerando, entre outros continentes para uma possível imigração para o oeste
de África para Angola":
Em Dezembro
de 1938, Jacques Politis veio a Portugal para negociar um certo número de
colonos judeus. Este projecto era unicamente para encontrar um refúgio seguro
para centenas de milhares de pessoas em risco de vida. Portugal tinha
benefícios, ou seja as empresas portuguesas adquiriam o monopólio tanto no
comércio como dos transportes necessários para o empreendimento. Finalmente se
Angola fosse atacada cada colono era obrigado a defender o território lutando
lado a lado com as forças militares portuguesas.
Uma das
condições colocadas por parte do governo português tanto no projecto "Bravo"
como no projecto de Jacques Politis era o uso exclusivo da língua portuguesa
tanto nas escolas como na correspondência oficial, mas o projecto de Jacques
Politis ia muito mais longe, ou seja o uso de português fosse obrigatório dentro
das próprias famílias judias.
No ano de
1938 houve uma conferência chamada a
Conferência de Évian que se dedicou à questão dos judeus residentes em
territórios. Dos 32 países que participaram nenhum estava interessado em aceitar
refugiados judeus. Mas esta conferência nem de todo foi inútil pois nela se
criou uma nova organização internacional, a Comissão Intergovernamental (IGC).
Esta organização tinha como missão negociar com as autoridades do
Reich para a saída organizada de centenas de milhares de judeus residentes
em território alemão.
Nos fins de
Outubro de 1938
Hitler mostrou-se disposto a negociar com a IGC e, em Dezembro o presidente
do banco central alemão e ex-ministro das finanças, Hjalmar Schacht, deslocou-se
pessoalmente a Londres e apresentou um projecto para a saída de judeus em etapas
e apenas exigia uma compensação financeira.
Em Janeiro de
1939 Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, queria albergar centenas de
milhares de judeus alemães em Angola. Roosevelt achava que o chefe do governo
português seria incapaz de recusar esta proposta porque além de ter uma
oportunidade única de ficar na História, também recebia montantes anuais
provenientes directamente dos cofres do novo Estado israelita.
Os ingleses,
em 1939, não ficaram muito contentes com estas propostas feitas ao governo
português.
Em fins de
Janeiro do mesmo ano, Myron Taylor, escreveu um ofício onde nele mostrava um
certo desagrado em relação à proposta de Roosevelt provocou em Londres.
Os ingleses
tinham medo porque eles tinham colónias tanto ao lado de Angola como ao lado de
Moçambique e temiam que os refugiados judeus da Alemanha fossem para as suas
colónias.
Uma
oportunidade para a realização deste projecto surge em Junho de 1939, Dr.
Augusto d' Esaguy (membro da comunidade israelita de Lisboa e presidente da
comissão portuguesa para a assistência aos refugiados israelitas ) visitou Sir
H. Emerson, alto comissário para os refugiados, em Londres. Dr. d'Esaguy
informou que o novo governador de Angola, o seu amigo Dr. Mano estava
interessado no acolhimento de refugiados.
Em Portugal
ninguém ficou indiferente a estas tentativas de criar uma colónia de judeus em
Angola e dominava cada vez mais a oposição a uma situação que poderia levar ao
aparecimento de um estado independente em território português.
O projecto
foi muito criticado porque uma colonização em massa por alemães devia ser
recusada pela simples razão dos envolvidos serem alemães. Também afirmavam que
"nenhuma emigração estrangeira em grupos seria vantajosa para a nossa obra de
colonização" para as colónias de Angola e Moçambique.
Lembrava-se
que a atitude dos anteriores colonos alemães "não é para inspirar confiança às
autoridades portuguesas" (alusão a tentativas no final do séc. XIX para a
Alemanha anexar Angola) e que "a aceitação de novos colonos alemães, judeus ou
não, não parece aconselhável, porque em última análise eles são sempre alemães e
constituem um elemento perigoso a considerar".
Também se
temia que houvesse mais desemprego, pois nesta altura reinava em todas as
economias do mundo o desemprego e a deslocação de centenas de milhares ou até
mesmo milhões de emigrantes representasse uma grave ameaça para a estabilidade
económica e social dos países de acolhimento.
Também a
imprensa portuguesa teve reacções, nomeadamente acerca do discurso de Hearst e
do projecto de Cazalet. A edição do "Diário de Notícias" de 21 de Novembro de
1938 acusava o Hearst de não querer ajudar o povo israelita, mas sim de
pretender resolver um assunto de política interna inglesa (que também não estava
interessada em receber no seu território milhares de refugiados judeus). E
justificava: "(...) não só para que a nossa soberania sobre esses territórios
que descobrimos e colonizámos seja sempre fácil de exercer mas ainda o que o
nosso feliz aumento da população nos aconselha a guardar para nós as riquezas
que temos para explorar". Ainda neste artigo acusava Cazalet de não ser amigo
dos portugueses, afirmando que o plano de alojar em Angola significaria
"preparar-nos no futuro, pelo menos, uma dificuldade diplomática com o
Fuhrer!"
(Hitler).
Salazar ia adiando a questão referindo
que queria ter mais informações acerca do estado actual da questão dos
refugiados judeus e das conversas de carácter oficial, antes de tomar qualquer
decisão.
O FRACASSO
DA COLONIZAÇÃO EM ANGOLA
As principais
razões que justificaram o fracasso do projecto de alojamento dos Judeus em
Angola começaram no ano de 1938.
Na
concretização deste projecto houve três dificuldades: em primeiro lugar era a
questão do financiamento. Eram quantias muito altas que os alemães exigiam.
Segundo, nenhum dos líderes concedia uma recompensa económica á Alemanha por
deixar sair os Judeus e finalmente, poucos meses antes da
Conferência de Evian nenhum governo manifestava interesse em dar territórios
a milhares de Judeus.
Oliveira
Salazar nunca tinha sido abordado oficialmente, ao longo do ano de 1939,
acerca da implantação de um estado Israelita em Angola
A Foreign
Office temia que as suas próprias colónias em África pudessem ser ameaçadas com
a entrada de judeus alemães em Angola: " (...) nós devemos decidir desde já em
opormo-nos a qualquer aproximação dos portugueses com o assunto e não podemos
tolerar a presença de um grande número de judeus alemães em Angola durante o
tempo de guerra, que pode ser uma fonte de perigo para as nossas colónias
africanas."
O receio na
criação de um novo foco de instabilidade política, através de um programa que
usava a implantação de judeus alemães em Angola, resultou das recentes
dificuldades inglesas no Próximo Oriente. Por terem autorizado a imigração de
judeus para a Palestina, houve uma grande hostilidade por parte das nações
árabes, colocando em perigo a sua ligação marítima com a Índia através do canal
de Suez.
Num encontro
de representantes dos governos americanos e ingleses sobre uma colonização
judaica na Guiana Britânica, ficou bem expresso o receio de repetir o mesmo
erro. Perante a proposta americana que previa uma imigração maciça, Winterton
ficou furioso e afirmou que: " não é a intenção do governo britânico permitir o
estabelecimento em massa em Guiana ou algo semelhante à situação na Palestina".
Quando se
iniciou a Segunda Guerra Mundial, os obstáculos vieram dificultar a saída dos
judeus do território alemão.
Embora esta
fosse possível legalmente até ao dia 23 de Outubro de 1941, apenas 70 000 judeus
conseguiram deixar o
Reich no início da guerra devido à pouca solidariedade por parte de todos os
governos mundiais.
Quando os
representantes dos governos americanos e britânicos se encontraram em Abril de
1943, nas Bermudas, para debater o destino dos refugiados da guerra, já existiam
informações detalhadas do genocídio praticado pelos nacionais- socialistas por
parte da opinião pública.
Embora a
vitória dos aliados fosse uma questão de tempo, eles receavam entrar em
negociações directas com as autoridades nazis sobre uma saída organizada dos
judeus que permaneciam nos territórios ocupados, pois se
Hitler consentisse essa saída, os seus territórios iriam ser inundados de
refugiados judeus.
Então estes
governos desviaram a sua atenção para aqueles refugiados que iriam necessitar de
um abrigo permanente após a guerra e foi aqui que os delegados americanos
apresentaram o projecto de Roosevelt para a colonização de Angola por parte de
israelitas, citando parte do relatório feito por Gregory, um cientista, onde
eram relatados as boas condições de Angola para este propósito. Destacando as
grandes vantagens que este projecto traria para o Governo Português, foi
recomendado que se iniciassem de imediato os preparativos necessários para a sua
realização.
Tanto o
embaixador inglês em Lisboa, Campbell, como os cônsules britânicos em Lourenço
Marques e Luanda confirmaram, em telegrama ultra-secreto, os factores que se
opunham à imigração maciça dos judeus, dizendo que só poderiam ser apenas umas
poucas centenas de refugiados.
Por outro
lado, Campbell desaconselhava uma intervenção ao nível governamental porque: "Eu
estou convicto que
Salazar detecta uma insidiosa tentativa da nossa parte para conseguirmos
influência nas colónias portuguesas de África. A única esperança de sucesso,
muito ténue, viria de um apelo de uma organização pública internacional."
Tal como
Campbell recomendara, o Foreign Office pediu ao presidente da Comissão
Intergovernamental, Sir Herbert Emmerson, para dar os primeiros passos e em 18
de Agosto de 1943, a embaixada portuguesa em Londres recebeu a visita desta
conhecida personalidade.
Com a sua
visita, Emmerson quis demonstrar o grande interesse da comissão pela a ajuda
portuguesa neste assunto, mas nem este importante gesto fez o governo de
Salazar mudar de ideias pois
Salazar fora alertado por relatórios que recebera do embaixador português em
Washington, Bianchi, por altura da conferência das Bermudas e por um parecer de
Fernando Nogueira em que dada altura se referiam notícias publicadas na imprensa
inglesa sobre a colonização judaica em Angola, de modo que sabia que resultaria
algo mais do que pequenos encargos financeiros na colaboração com a Comissão
Intergovernamental. Repetiu então a estratégia que aplicara depois da
Conferência de Évian e atrasou a resposta até à Primavera do ano seguinte.
Salazar recusa participar nos trabalhos
da Comissão Intergovernamental, já que Portugal não fora convidado para assistir
aquela
Conferência e nem às nações organizadoras nem às que participaram "pareceu
talvez precisa ou útil a intervenção portuguesa" e diz que não fazia sentido que
o governo português fosse convidado "para executar medidas em cuja elaboração
não tomámos parte e de que não tivemos conhecimento".
Com a
perspicaz menção do embaraço causado por não ter sido convidado, o Chefe da
diplomacia portuguesa conseguia habilidosamente desviar as tentativas das nações
aliadas de tomar as colónias portuguesas, sem ofender a comunidade
internacional.
Se o convite
fosse aceite por Portugal, a diplomacia portuguesa encontraria dificuldades em
vetar as iniciativas referentes ao aproveitamento das suas colónias, para alojar
refugiados, sem perder o apoio das nações anglo-saxónias noutras questões
prementes da política internacional.
Na tentativa
de conseguir um território apto para alojar as centenas de milhares de foragidos
provenientes de todo o mundo, Angola parecia quase o território ideal. Para os
círculos judeus territorialistas, Angola tinha a enorme vantagem de ser
governada por uma nação que não tinha ideologia
anti-semita, garantindo aos judeus os mesmos direitos dos cristãos.
Para o
governo americano contava sobretudo a localização dos territórios que estavam
longe das suas fronteiras nacionais e era uma região do mundo onde os EUA não
tinham nenhum interesse político. Mas também o factor demográfico parecia
indicar Angola como o local ideal para a realização de um estado israelita. Numa
área de 1 246 700 quilómetros quadrados viviam apenas 3 343 500 pessoas, das
quais 3 300 000 negros e apenas 30 000 brancos e 13 500 mestiços.
Para muitos
dos funcionários - chave do Ministério das Colónias, era a questão demográfica
que impedia a instalação de uma colónia e o medo de perder esta.
Uma última
razão que impedia o acolhimento de milhares de fugitivos estrangeiros foi o novo
conceito colonial. O Acto Colonial de 1930 frisava, nas suas "garantias gerais",
a missão imperial da nação portuguesa como difusora da civilização cristã.
Em 1912, nos
planos da implantação da colónia judia, o
Estado Novo recusava qualquer plano que visasse a redução ou até a perda da
soberania portuguesa sobre a colónia de Angola. O presidente do Conselho,
Oliveira Salazar, não deixou nenhuma dúvida: "Nós não admitimos discussão
sobre a nossa soberania e a nossa soberania não pode ser discutida em Genebra,
em Paris, Londres ou Roma.
As poucas
experiências feitas com projectos de colonização revelaram todas um falhanço
para todas as partes envolvidas.
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