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O PAPEL
DA MÍDIA NO CONFLITO E NA RECONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA
Por
Ismael Mateus.
O
autor é Secretário-Geral do Sindicato de Jornalistas Angolanos (SJA).
Trabalhou como redactor-chefe de órgãos de comunicação social em Angola e
escreve regularmente na imprensa independente. Fonte: Revista
Eletrônica Conciliation Resources ACCORD; Issue 15: From Military
Resources to Justice? Editor: Guus
Meijer; 2004
Os
órgãos de comunicação social em Angola enfrentam hoje o enorme desafio de se
transformarem numa força que trabalha em benefício da democracia e da
reconciliação, depois de décadas sendo vistos basicamente como instrumentos
de luta político-ideológica e de combate aos inimigos militares. A importância
que os órgãos de comunicação social assumiram no conflito e controle político
deriva do tempo colonial, quando as autoridades portuguesas e os
anti-colonialistas do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)
transferiram as suas diferenças para as antenas radiofónicas. Vem daí, por
exemplo, a história do programa Angola Combatente, emitido em Brazzaville e
ouvido então secretamente em várias partes de Angola.
1975-1991:
controlando a mídia
Depois
da independência, as duas facções passaram a usar formas diferentes de
comunicação social para promover as suas causas. O governo empregou a lógica
do 'jornalismo de estado' decorrente da inspiração marxista-leninista. Salvo
nos primeiros anos da independência, quando fervilhava intensamente a flâmula
revolucionária, a pressão e a censura não se faziam através da prévia
aprovação dos textos. O estilo arcaico do 'lápis azul' muito raramente foi
usado; existindo antes uma intervenção directa sobre o papel decisório dos
editores e chefes dos serviços noticiosos.
Em
nome da guerra, os órgãos de comunicação social foram 'enxertados' de
elementos que não reuniam as mínimas condições técnicas e éticas para
exercerem a profissão. Contava apenas o critério político. Desde que fossem
respeitadas as directrizes políticas, qualquer operário, qualquer militar,
qualquer comissário político transformava-se em 'bom jornalista'. Por outro
lado, qualquer jornalista não seria suficientemente bom se não se inspirasse
na ideologia socialista, se não veiculasse os princípios e as directrizes políticas
do poder existente. Uma das facetas mais visíveis do engajamento político dos
órgãos de comunicação social, foi a linguagem. A Agência de Notícias (Angop),
o Jornal de Angola, a Rádio Nacional de Angola e a Televisão Pública de
Angola tornaram-se em porta-vozes da retórica política e da agressividade
militar contra o inimigo.
A
instrumentalização político-militar dos órgãos foi a lógica dominante nos
16 anos que se seguiram à independência. A utilização da mídia para
mobilização pública foi manifesta no Primeiro Seminário Nacional de Informação
em 1982, encarregue de definir as linhas estratégicas da comunicação social,
que concluiu que "a informação deve trabalhar para que as agressões
sul-africanas sejam sentidas, nas suas verdadeiras dimensões, como sendo um
problema de todos os angolanos". Os órgãos de informação estavam cheios
de entrevistas propagandísticas de feitos militares, reportagens transmitidas
até à exaustão para denunciar as agressões militares, e escribas exaltados
lançando apelos à defesa nacional e ao combate cerrado 'aos inimigos' –
leia-se a angolanos do lado oposto. Os trabalhos jornalísticos reflectiam o
estado da guerra conforme a visão do governo, quer para levantar o moral das
tropas, quer para comemorar uma importante vitória ou até silenciar uma pesada
derrota. Em tempo de maior agressividade, os discursos eram mais inflamados,
usando-se longos e agressivos editoriais. Registaram-se episódios de combates
ou ataques de que toda a população sabia, com hospitais cheios de feridos,
enquanto a comunicação social continuava, tranquilamente, a divulgar notícias
de acontecimentos de menor importância ou a destacar as vitórias no campo
desportivo.
1991-2002:
da liberalização ao retorno à guerra
Inverteu-se
ligeiramente o quadro a partir de 1991 com a conversão do regime ao
multipartidarismo. Depressa surgem os primeiros órgãos privados, primeiro o
semanário Correio da Semana e depois a rádio Luanda Antena Comercial (LAC).
Pena é que esse período tenha durado pouco menos que um ano por causa do clima
geral de campanha eleitoral. Uma vez mais, as marcas do conflito estabeleceram
as fronteiras da actuação dos jornalistas. A comunicação social estatal (o
Jornal de Angola, o programa de rádio Angola Combatente e a televisão estatal)
assumiu um discurso partidarizado, na mesma medida que os órgãos oficialmente
partidarizados da UNITA, a Rádio Vorgan (Voz da Resistência do Galo Negro) e o
jornal Terra Angolana.
E
se a campanha representou um regresso ao discurso partidarizado na imprensa, o
reinício da guerra após as eleições ditou o ressurgimento da linguagem
musculada. Assumindo a velha lógica dos meios de comunicação como veículos
ideológico-partidários, os órgãos públicos, pelo partido no poder, e os órgãos
afectos à União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA) usaram as
antenas e o espaço público para o insulto recíproco. Ambas as partes voltaram
a recorrer aos discursos inflamados: editoriais, declarações de dedo em riste
e muita intolerância.
À
medida que a guerra foi crescendo, foi-se assistindo ao recrudescer da
agressividade na imprensa, abrangendo não só os beligerantes, mas também a
mediação e a comunidade internacional. Margaret Anstee descreve vários
momentos dessa agressividade, que em muitos casos se tornou pessoal, como foi o
caso da Rádio VORGAN: "Entre as muitas observações cuidadosamente
escolhidas, estavam as acusações de que eu era corrupta, paga pelos «Futunguistas»
(isto é, a comitiva presidencial), e tinha traído o meu próprio país,
Angola, e a confiança da Organização das Nações Unidas".
Os
militares emitiram comunicados regulares e programas dirigidos às forças
armadas na comunicação estatal. A guerra no Huambo (quartel-general da UNITA),
em 1993, proporcionou um momento televisivo de grande horror com imagens e
descrições horripilantes de bombardeamentos, mortes violentas, tratamentos
inumanos e outros detalhes. Outros exemplos se seguiram, com relatos telefónicos
dos repórteres da Rádio Nacional nas principais cidades atingidas pela guerra.
A única diferença no cenário geral foi introduzido pela imprensa privada,
primeiro com o bissemanário Folha 8, que divulga, entre outras notícias,
ataques não veiculados pela imprensa oficial e planos militares das forças
armadas. Seguiram-se outros semanários, principalmente o Agora e o Angolense
que, gradualmente, foram dando voz às faixas da sociedade civil, entre
religiosos e políticos, que se opunham à guerra. A par dos esforços da
Igreja, é a imprensa privada que ajuda a construir na sociedade angolana uma
consciência crítica em relação à guerra. O ressurgimento da Rádio Ecclésia,
afecta à Igreja Católica, em 1997, vai dar novo alento a essa corrente de
massa crítica, abrindo os seus microfones à opinião popular. Ainda que o
desfecho da guerra não possa ser atribuído ao aumento de uma opinião crítica
na sociedade, é razoável admitir que, ao menos, a sociedade conquistou uma
maior pluralidade de opiniões no final dos anos 90 e desmistificou o suposto 'unanimismo
popular' no apoio à guerra, tantas vezes sugerido pelos órgãos públicos da
comunicação social.
Os
órgãos internacionais de comunicação social passaram a ter um papel cada vez
maior. Para um acompanhamento mais pormenorizado da situação em Angola, a Voz
da América criou um gabinete especial em Luanda e um programa, chamado Linha
Aberta, especificamente dirigido aos angolanos. Sucederam-se agências, rádios
e jornais estrangeiros que fixaram em Luanda os seus enviados especiais. É em
Portugal que o drama angolano merece mais manchetes e mais espaço de divulgação.
Nalguns casos, as entrevistas, reportagens e comentários da imprensa portuguesa
acabaram por ter repercussões de grande impacto em Luanda. Não apenas ao nível
da classe política mas também junto da imprensa privada angolana que, em
determinadas alturas, usa a reposição de trabalhos e as citações dos jornais
portugueses como forma de contornar a pressão contra a divulgação de notícias
sobre a guerra.
A
mídia angolana hoje e a construção da democracia
Paradoxalmente,
a guerra veio, no entanto, agravar e acelerar a cristalização de um jornalismo
mais crítico e mais comunicativo. Nos últimos anos da guerra, o próprio
governo e o partido no poder deu mostras de pretender uma inversão dos slogans
militaristas que dominaram o período que se seguiu à crise pós-eleitoral de
1992. Na sequência deste longo período ambíguo, há uma pressão social
crescente para uma comunicação social mais crítica.
O
jornalismo veiculado pela imprensa estatal tem sofrido melhorias visíveis, mas
não ainda as suficientes para que não se sinta uma tendência política, nem
para afastar a velha experiência da instrumentalização governamental. O
quadro das rádios não tem conhecido grandes alterações, mas prevê-se o
aparecimento em breve de novas rádios privadas. Ainda está em revisão a Lei
de Imprensa, havendo já consenso de que a nova lei abrirá as portas à televisão
privada. Contudo, existe falta de clareza no conceito de emissões públicas e
no entendimento das definições de rádios 'privadas' e 'comunitárias', não
existindo provisões no projecto-lei para a existência de estações de rádio
comunitárias. Entretanto, a Rádio Ecclésia, acusada de 'terrorismo radiofónico'
pelo governo, em 2003, enfrenta graves obstáculos criados pelas autoridades no
que respeita ao seu plano de estender o seu sinal a todo o país.
No
sector independente, todas as semanas são publicados cerca de oito semanários,
num esforço verdadeiramente notável, num país em que não existe indústria
de papel e onde uma única gráfica imprime todos os jornais privados.
Infelizmente,
não há, exceptuando pequenas iniciativas de fraca expressão, imprensa
regional. As excepções incluem iniciativas como o boletim comunitário Ondaka,
editado pela ONG Development Workshop, no Huambo, em português e língua
umbundu. Os jornais privados circulam predominantemente em Luanda e apenas três
outras províncias têm rádios privadas (Rádio Morena em Benguela, Rádio 2000
em Lubango e Rádio Comercial em Cabinda) mas elas, na verdade, não oferecem
uma efectiva alternativa na pluralidade e na liberdade de expressão, tanto ao nível
do mercado concorrencial como ao nível dos conteúdos.
A
qualidade do jornalismo angolano reflecte hoje os longos anos de silêncios,
consentidos ou impostos, da prática de um jornalismo 'ao serviço da pátria',
ao invés de um jornalismo de interesse público. Nalguns círculos do
jornalismo e do poder político, existe ainda hoje a sensação de que o
jornalismo se destina a defender o governo e de que quem assim não procede,
pretende necessariamente derrubá-lo. A velha prática do controle editorial
instalou-se de tal modo, que se mantém hoje uma luta permanente entre alguns
editores, que se procuram profissionalizar, e chefes de serviços e directores
gerais que insistem em sujeitar as regras do jornalismo aos ditames políticos.
Houve
alguns casos de perseguições do governo a jornalistas. O caso mais divulgado
foi o de Rafael Marques, que foi ilegalmente detido durante várias semanas em
1999, sob a acusação de difamar o Presidente (chamando-lhe 'ditador'),
tendo-lhe mais tarde sido atribuída uma pena suspensa de seis meses, depois de
um julgamento manchado por irregularidades. Ironicamente, a publicidade
internacional que rodeou este caso acabou por dar a Marques uma grande margem
para criticar o governo, tendo-se tornado coordenador do gabinete do Fundação
Open Society-Angola.
No
momento actual, a comunicação social angolana vive um período de transição.
Acabado o período do grande combate, há necessidade de uma redefinição
estratégica que garanta uma oferta equilibrada de meios de comunicação em
todo o país, mas há também questões de ordem técnica a melhorar.
A
crise hoje vivida não se resume exclusivamente à injecção de não
profissionais na classe durante os longos anos de conflito. Há igualmente a
considerar o facto de não existirem estruturas sólidas de ensino: não existe,
ainda hoje, nenhuma faculdade de jornalismo e só em 2003, começou a funcionar
um centro de formação. Também não existem carteiras profissionais nem órgãos
de auto-regulação da classe, um código de conduta ou lei da imprensa. Além
disso, ainda subsiste o facto de muitos dos mais bem sucedidos jornalistas serem
'assediados' pela política ou pela carreira diplomática.
A
maior participação da comunicação social no desenvolvimento democrático do
país incluirá a inversão do entendimento conceptual da ideia de serviço público.
Numa comunicação social virada para o desenvolvimento, as prioridades da
programação jornalística reorientam-se, também, para os conteúdos
informativos e formativos na perspectiva da construção da nação e, no
particular, na perspectiva do desenvolvimento local de cada região.
Através
da comunicação social pode fazer-se a educação cívica dos cidadãos,
municiando as pessoas de conhecimentos sobre os seus direitos, deveres e
garantias. Através da comunicação social, seja em rádios comunitárias,
jornais regionais ou programas dirigidos de televisão é possível levar o
desenvolvimento aos mais recônditos pontos do país e é possível criar pontes
entre as várias entidades culturais que compõem a emergente nação angolana.
Há que considerar um possível aumento do uso de línguas indígenas e conteúdos
locais, assim como um uso mais cuidadoso da língua nacional, o português,
incluindo uma formação mais séria dos jornalistas enquanto difusores dessa língua.
Um
dos elementos do jornalismo moderno que mais contribui para a democratização
da sociedade é o jornalismo de investigação. É um mecanismo valioso de
monitorização do desempenho de instituições democráticas no senso mais
amplo, que inclui instituições governamentais, organizações cívicas e
empresas públicas. Em função do fraco nível de formação dos jornalistas e
das exigências do mercado de leitores/ouvintes, os diferentes meios de comunicação
social buscam e publicam histórias apelidadas de 'investigação'. Na verdade,
estão ainda longe disso, pois acabam por ser um conjunto de informações não
confirmadas, em muitos casos de fiabilidade muito duvidosa, feitas com base em
fontes anónimas. Por outro lado, algumas das melhores oportunidades foram
desperdiçadas. Quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) descobriu que
grandes somas de dinheiro desapareceram dos cofres do estado, foi a BBC da Grã-Bretanha
que divulgou essa informação.
Há
claramente no jornalismo angolano ausência de verdadeiras reportagens de
investigação, embora os jornais, sobretudo estes, divulguem amiúde alegados
casos de corrupção, injustiça e abusos de poder. Regra geral, tais acusações
não têm grandes consequências, não só porque é duvidosa a vontade política
de investigar os indícios avançados pela imprensa, mas também porque
estruturalmente as informações veiculadas pela comunicação social carecem de
um trabalho mais detalhado e que dê margens de esquiva ao poder político. O
grande contributo da comunicação social para a democratização da sociedade,
nesta fase do pós-guerra, está ainda por ser prestado, sem desprimor,
obviamente, para o trabalho de denúncia que já vem sendo feito.
Sendo
a imprensa no geral um suporte essencial para a democratização do país, o
crescimento desajustado cria distorções na implantação da liberdade de
imprensa e no exercício da liberdade de expressão dos cidadãos.
Conclusão
O
desafio que se coloca agora à comunicação social angolana e também ás
instituições que se decidirem a apoiar a democracia em Angola é enorme.
Contudo, apesar de existirem estruturas profissionais como o Sindicato dos
Jornalistas Angolanos (SJA) e o Centro de Imprensa em Luanda, estas necessitam
de ser reforçadas. Juntamente com a fraca formação profissional, esta situação
restringe a capacidade da comunicação social para dar uma resposta imediata a
este desafio. Mas o país, saído da guerra, atolado em casos de corrupção e
tentando soerguer-se com novos valores éticos e morais, não tem tempo para o
longo prazo de uma tarefa tão ingente.
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