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O PAPEL
DA GESTÃO DE RECURSOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA PAZ SUSTENTÁVEL
Por
Tony Hodges.
O
autor trabalhou em Angola para agências da ONU em 1994-95, 1996-98 e
2001-02. É autor de Angola: do afro-estalinismo ao capitalismo selvagem (S. João
do Estorial: Principia, 2002). Trabalha para a organização Oxford Policy
Management e encontra-se neste momento a trabalhar em Moçambique. Fonte:
Revista Eletrônica Conciliation Resources
ACCORD; Issue 15: From Military Resources to Justice? Editor: Guus
Meijer; 2004.
Angola
representa um exemplo claro de como os países em vias de desenvolvimento ricos
em significativos recursos naturais – em especial petróleo e outros minérios
– se encontram entre aqueles com maior tendência para má governanação,
conflitos armados e desempenhos fracos em termos de desenvolvimento económico e
social. Esta hipótese, sustentada por exemplos de muitas partes do mundo em
vias de desenvolvimento, postula que os países com instituições frágeis (uma
característica da maior parte dos países em vias de desenvolvimento) têm
pouca capacidade para aguentar as forças destruidoras da corrupção e do
conflito que são desencadeadas pelas tentativas de controlo e apropriação das
rendas do estado dependentes da tributação do petróleo e outras actividades
mineiras. As exportações de minério fazem subir o valor da moeda local,
debilitando a competitividade do resto da economia (como a agricultura e a indústria),
dado que as importações embaratecem. Muitas vezes estes factores alimentam-se
e exacerbam outras clivagens sociais, tais como divisões étnicas, regionais e
religiosas.
Uma
riqueza em recursos excepcional
Na
verdade, Angola possui uma excepcional dotação de recursos. É o segundo maior
produtor de petróleo sub-saariano (a seguir à Nigéria), com uma produção
actual de mais de 900.000 barris por dia (b/d), quase exclusivamente em
plataformas petrolíferas ao largo da costa norte. É também o quarto maior
produtor de diamantes do mundo (em valor), representando cerca de 15 por cento
da produção mundial de diamantes em bruto em 2000. Os recursos em diamantes de
aluvião e kimberlitos concentram-se principalmente no nordeste do país.
“Descobertos
em 1912, os diamantes começaram a ser explorados cinco anos depois. Até ao fim
da segunda guerra mundial constituíram a base da principal exportação de
Angola, altura em que o café ganhou a dianteira.
A produção
angolana de diamantes caracteriza-se pela sua abundância e grande qualidade. De
facto, mais de 70% dos diamantes descobertos são de grande qualidade, o que tem
conferido ao País o direito de figurar entre os principais países
produtores”.
Angola
tem igualmente jazidas de numerosos outros minérios por explorar e, no período
colonial, era um produtor de minério de ferro de dimensão média. Foram
encontradas jazidas substanciais de gás natural, mas ainda não são exploradas
produtivamente: a maior parte do gás associado às plataformas petrolíferas
ainda está a ser queimado e desperdiçado.
“Desde os
anos 50, e até 1975, o ferro era explorado em quatro províncias: Malange, Bié,
Huambo e Huíla, com uma produção que chegou a atingir a média de de 5,7 milhões
de toneladas por ano, entre 1970 e 1974. A maior parte do mineral era exportado
para o Japão, Alemanha e Grã-Bretanha, que pagavam a Angola 50 milhões de dólares
ao ano.
Além do ferro,
Angola possui reservas de fosfato, estimadas em 150 milhões de toneladas e
localizadas nas províncias de Cabinda e Zaire, que actualmente não estão a
ser exploradas.
No sudoeste do
País, nas províncias do Namíbe e Huíla, existem reservas de mármore,
granito e quartzo. O mármore é especialmente dirigido ao mercado local,
enquanto o granito negro é muito apreciado e exportado para os EUA e Japão”.
A
'maldição dos recursos'
Se
os seus recursos fossem devidamente aproveitados, Angola seria um dos países
mais prósperos de África. De facto, com uma população relativamente pequena,
apenas 14,5 milhões de habitantes, deveria ser capaz de apresentar indicadores
de bem-estar humano entre os melhores de toda a África sub-saariana. Em vez
disso, a guerra e a má governação provocaram o esbanjamento maciço de
recursos petrolíferos, ao mesmo tempo que limitaram gravemente o uso efectivo
da maior parte dos outros recursos (em especial na agricultura).
Embora
vários factores não-económicos tenham sido importantes na origem e
alastramento da guerra em Angola, a partir do início da década de 1990 o
conflito tornou-se numa luta feroz pelo poder entre elites internas rivais, na
qual os minérios representavam tanto o prémio da vitória como os meios para a
alcançar. Graças ao aumento da produção petrolífera, as receitas
governamentais provenientes do petróleo, que tinham estado abaixo de 1 mil milhões
de dólares por ano durante a maior parte dos anos 80, cifravam-se numa média
de um pouco mais de 2.5 mil milhões de dólares por ano entre 1995 e 2001. Por
seu lado, a União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA) foi
capaz de controlar as áreas diamantíferas mais valiosas do nordeste do país,
o que lhe rendeu cerca de 3.7 mil milhões de dólares em diamantes entre 1992 e
1998, gerando uma receita bruta estimada em 2 mil milhões de dólares, com a
qual pôde financiar a guerra.
O
petróleo tem estado, sem dúvida, igualmente no centro do conflito em Cabinda.
Esta pequena província é responsável por mais de 55 por cento da produção
petrolífera de Angola. Como consequência, a causa separatista, defendida desde
há muitos anos por várias facções da Frente para a Libertação do Enclave
de Cabinda (FLEC), é alimentada pela perspectiva de viabilidade financeira.
Pela mesma razão, contudo, nenhum governo angolano alguma vez poderia aceitar a
secessão de Cabinda.
Receitas
petrolíferas crescentes e recuperação no pós-guerra
A
'maldição dos recursos' não é inevitável. Na realidade,
Angola neste momento tem uma
oportunidade sem precedentes para ultrapassar o seu legado de guerra.
Em primeiro lugar, os acordos de paz de Abril de 2002 consagraram a vitória
militar do governo sobre a UNITA, deixando pouca margem aos derrotados para um
regresso à guerra no curto ou médio prazo.
Em
segundo lugar, o rápido aumento da
produção petrolífera e das receitas governamentais nos próximos anos criará
condições excepcionalmente favoráveis para a reconstrução, o
desenvolvimento e a redução da pobreza – se estes recursos forem bem geridos
e mais bem utilizados do que no passado.
Após as grandes descobertas de novas jazidas de petróleo em águas profundas
ao largo da costa angolana em meados da década de 1990, os
investimentos actualmente envolvidos irão mais do que duplicar a produção
petrolífera nos próximos anos, fazendo-a ascender a 2.2 mil milhões b/d em
2008. Isto colocará a produção petrolífera de Angola quase ao mesmo nível
da da Nigéria, e é bem possível que Angola acabe por suplantar a Nigéria
como principal produtor petrolífero da África sub-saariana. Os benefícios
potenciais são mais do que evidentes, considerando que Angola possui apenas
cerca de um décimo da população da Nigéria.
Os
benefícios directos para os angolanos da actividade petrolífera são, no
entanto, muito limitados.
Sendo uma indústria capital-intensiva, emprega
apenas cerca de 15.000 angolanos.
As ligações tanto a montante como a juzante, a
indústrias consumidoras de petróleo ou a refinarias domésticas, são
igualmente fracas. A
importância económica do petróleo, portanto, reside quase inteiramente na sua
função enquanto gerador de receitas fiscais para o estado.
Em 2001, 80 por cento das receitas governamentais vinham do sector petrolífero,
e esta receita deverá crescer espectacularmente nos próximos anos, como
é mostrado no Quadro 1, baseado em projecções feitas pelo Fundo Monetário
Internacional (FMI). Assumindo preços para o petróleo de 20 dólares e 24 dólares
por barril, o FMI projecta uma ascensão da receita fiscal do petróleo para
mais de 4 mil milhões de dólares em 2004, continuando a crescer constantemente
a partir daí, atingindo cerca de 8 mil milhões de dólares em 2008.
A
qualidade da gestão de recursos será provavelmente o factor decisivo para
determinar se Angola consegue uma paz sustentável de longo prazo ou sucumbe
mais uma vez a novas formas de conflito,
gerado por factores como a incapacidade
para desenvolver os sectores não-mineiros da economia (e assim criar emprego e
fontes de rendimento), a frustração e a raiva perante a continuidade dos altos
níveis de pobreza e desigualdade social e/ou rivalidades no seio da elite em
torno do acesso à receita do petróleo e outras oportunidades económicas. Há
aqui duas questões essenciais. A primeira é a questão de saber quais são as
prioridades de despesa do governo. A segunda é a transparência na gestão das
finanças públicas.
Alocação
de recursos
No
passado, os imperativos de segurança ditavam que proporções extremamente
elevadas das despesas governamentais fossem dirigidas para a defesa e segurança.
As despesas com defesa e segurança, enquanto percentagem do PIB, atingiram um máximo
de 26 por cento (de longe o nível mais elevado do mundo) em 1999, tendo, porém,
caído para 7 por cento em 2001 e 2002, o que, apesar de tudo, continua a ser
muito alto por padrões internacionais. Deve ser sublinhado que estes números
estarão muito provavelmente sub-estimados, visto que excluem despesas
substanciais na defesa e segurança não orçamentadas (que foram feitas fora do
quadro do sistema de gestão financeira do estado).
É igualmente preocupante o facto do
governo continuar a conceder uma grande prioridade à defesa e à segurança,
que em 2004 receberam 32 por cento do orçamento.
Ao
longo dos anos, as grandes despesas com a defesa e a segurança desviaram os
dinheiros públicos dos sectores sociais, em especial da educação e da saúde,
e das infra-estruturas básicas, como as estradas e o abastecimento de água.
Todos eles são sectores cruciais para o crescimento económico, a criação de
emprego, a redução da pobreza e o crescimento do bem-estar humano.
Tem havido algumas melhorias recentes, com a proporção dos sectores sociais no
total da despesa orçamentada a crescer de 9 por cento em 1999 para 22 por cento
em 2002 – estes números seriam muito mais baixos, porém, se a despesa não-orçamentada
fosse incluída, pois apenas uma parte muito pequena (se alguma) dessa despesa
vai para a saúde, a educação ou outros serviços sociais. É
também importante notar que, nos sectores sociais, a alocação de recursos tem
sido enviesada por interesses de elite, tais como o financiamento de bolsas no
estrangeiro e evacuação médica para o exterior, à custa das necessidades
mais elementares da população (cuidados de saúde primários e educação básica).
O
problema da transparência
A
segunda grande questão é a falta de transparência das finanças públicas.
Graças a ela, não é totalmente claro qual o montante de receita recebido pelo
governo, nem como é que é gasto esse montante. De acordo com as estimativas do
FMI, em 2003, 31 por cento das despesas do governo foram feitas fora do orçamento,
ou seja, executadas fora das regras e procedimentos para pagamentos
estabelecidos pelo governo, não tendo sido devidamente registadas nas contas
governamentais. É este o caso de 36 por cento das despesas governamentais entre
1998 e 2002. Além disso, para o destino dado a 11 por cento da despesa feita
entre 1998 e 2002 não se encontra qualquer explicação registada. Esta é a
discrepância (calculada pelo FMI) entre a despesa conhecida do governo (registada
e não-registada) e a receita conhecida, incluindo o financiamento.
Existem
outras questões de transparência intimamente ligadas às receitas
governamentais e à dívida externa. No que diz respeito à receita, aparecem
grandes discrepâncias nos dados relativos aos impostos sobre o petróleo. Este
problema resulta em parte do facto de os impostos das companhias petrolíferas
(e os 'bónus de assinatura' para novos blocos petrolíferos) por vezes não
serem directamente pagos ao Tesouro mas passarem por contas off-shore
detidas pela companhia petrolífera estatal, a Sonangol. Os atrasos da Sonangol
no pagamento de impostos ao Tesouro e a sua não indexação (em relação ao dólar),
num contexto de elevada inflação interna, resultaram em grandes perdas para o
estado. Além disso, o facto das contas da Sonangol nunca terem sido alvo de uma
auditoria independente faz com que seja impossível verificar se todos os
impostos pagos pelas companhias petrolíferas acabam por chegar ao Tesouro.
No
que se refere à dívida externa, o governo angolano, na década passada,
recorreu a empréstimos garantidos pelo petróleo para cobrir os seus
substanciais e persistentes défices. No final de 2000, existia um formidável
volume de cerca de 5 mil milhões de dólares destes empréstimos (representando
cerca de metade do total da dívida externa de Angola), que estão a ser pagos
com carregamentos de petróleo expressamente destinados ao efeito. Muitas vezes
estes empréstimos, pedidos pela Sonangol em nome do estado, não são
registados na base de dados de dívidas do governo e têm sido usados para
despesas extra-orçamentais.
A
falta de transparência dificulta a tarefa do governo angolano para mobilizar
apoio internacional destinado à reconstrução. Há o sentimento entre os países
doadores que, tendo em conta a escala das suas receitas petrolíferas, o governo
poderia fazer mais pela sua própria população e que, no mínimo, deveria ser
capaz de explicar devidamente a utilização dos seus recursos. Em jeito de
comparação, devemos lembrar que a discrepância inexplicada entre as receitas
conhecidas e o financiamento, de um lado, e a despesa registada, do outro, que
atingiam a média de 490 milhões de dólares por ano entre 1998 e 2002, é
maior do que a ajuda externa ao desenvolvimento em termos brutos (359 milhões
de dólares por ano entre 1997 e 1999).
A
falta de transparência significa ainda que o governo não pode fornecer de
forma credível os dados necessários para negociar no Clube de Paris a
reestruturação da grande dívida externa de Angola, que em Dezembro de 2002
incluía 5.3 mil milhões de dólares de créditos em mora.

Gestão
de recursos e corrupção
A
par do fraco sistema de auditoria governamental, a ausência de transparência
nas receitas, despesas e dívida cria condições propícias ao florescimento da
corrupção. As suspeições e as acusações abundam. Em Dezembro de 2000, as
autoridades francesas prenderam um homem de negócios franco-brasileiro, Pierre
Falcone, e Jean-Christophe Mitterrand, filho do antigo Presidente francês, sob
a acusação de tráfico de armas, o qual estaria relacionado com um negócio de
armas-por-petróleo com Angola em 1993. As acusações foram depois retiradas
por razões processuais, mas o 'Angolagate', como ficou conhecido, ajudou a
criar uma aura de suspeição em torno do mundo opaco dos empréstimos
garantidos com petróleo, finanças comerciais e contratos de armamento de
Angola. Um novo escândalo eclodiu em 2003, quando o governo angolano nomeou
Falcone, ainda sob investigação e proibido de entrar em França e nos Estados
Unidos, seu representante na UNESCO. As investigações continuam.
Uma
outra controvérsia surgiu no início de 2002, em torno do destino dos empréstimos
garantidos com petróleo usados na reestruturação da dívida bilateral de
Angola com a Rússia. Suspeitas relativas a estas transacções levaram as
autoridades judiciais suíças a abrir um inquérito, que revelou que centenas
de milhões de dólares tinham sido pagos nas contas bancárias particulares de
funcionários superiores angolanos (incluindo o chefe de estado) e homens de negócios
estrangeiros, à custa dos estados russo e angolano. Várias contas foram
congeladas.
Não
surpreende, por isso, e dados estes graves incidentes, que Angola seja comumente
vista como um dos países mais corruptos do mundo: ocupava o 124º lugar, num
conjunto de 133 países, no índice de percepções de corrupção da
Transparency International em 2003.
Num
sentido mais alargado, indo para além da fraude declarada, a corrupção abarca
uma variedade de práticas que, num sistema caracterizado pela ausência ou não
aplicação de regras e procedimentos claros, permite a indivíduos bem
relacionados ter acesso privilegiado a recursos e benefícios, à custa dos
interesses mais gerais da sociedade. Em Angola, onde o nepotismo tem sido uma
das estratégias centrais na conservação do poder político, tais práticas têm
sido comuns, em particular no que se refere aos diamantes e às terras agrícolas
comerciais. A corrupção é generalizada a todas as camadas sociais e é comum
em muitas relações quotidianas, por exemplo entre professores e estudantes e
entre a polícia e os cidadãos. É usual em muitas transações pedir uma
gazosa, ou seja, um suborno, embora esta denominada pequena corrupção não
seja apenas uma questão de imitação dos funcionários superiores pelos
inferiores, mas uma estratégia de sobrevivência adoptada pelos funcionários
angolanos, que são extremamente mal pagos.
Claro
que a corrupção não existe num só sentido. Envolve tanto o 'corruptor' como
o 'corrompido', e, como mostram o Angolagate e outros escândalos, tanto os
estrangeiros como os angolanos se encontram nela profundamente envolvidos. Por
esta razão, a acção internacional para impedir o conluio de elementos
criminosos internacionais com funcionários governamentais corruptos é crucial,
de forma a impedir que se desviem ilicitamente recursos de países onde o quadro
institucional para evitar, detectar e penalizar a corrupção é débil. Mas em
última análise aquilo de que Angola precisa é defender-se a si própria, com
a instauração de um quadro institucional daquele tipo, incluindo rigorosos
sistemas no Tesouro, contas públicas, encomendas públicas e auditoria, o
efectivo escrutínio das finanças públicas pela Assembleia Nacional e um
sistema judicial independente.
Diamantes
Para
além do papel que desempenharam no financiamento da UNITA durante os anos 90,
os diamantes têm sido também uma das principais fontes de enriquecimento dos
funcionários superiores governamentais e dos oficiais militares na última década.
O regime atribuiu concessões diamantíferas como recompensa pela lealdade,
criando clássicas situações de busca de renda (rent-seeking) em que os
concessionários angolanos agem como 'parceiros' de companhias estrangeiras,
partilhando os lucros, ao mesmo tempo que estas arcam com todos os custos de
prospecção, desenvolvimento e operação (e portanto todos os riscos).
Entretanto,
o contrabando de diamantes continua a ser um sério problema: o Mecanismo de
Monitorização de Sanções das Nações Unidas contra a UNITA estimava que, em
2000, cerca de um terço do estimado mil milhão de dólares de diamantes
exportados de Angola fossem contrabandeados, incluindo cerca de 100 milhões de
dólares em diamantes com origem na UNITA e 250 milhões de dólares noutros
diamantes ilegais. Apesar de ter subido ligeiramente nos anos mais recentes, a
receita governamental oriunda da indústria diamantífera continua baixa.
A
corrida à riqueza diamantífera, que tem sido principalmente conduzida por
estrangeiros, tem gerado ressentimentos entre a população local lunda-chokwe,
nas províncias ricas em diamantes de Lunda Norte e Lunda Sul. Isto reflectiu-se
na ascenção de um partido regional, o Partido da Renovação Social (PRS), que
ficou em segundo lugar em ambas as províncias (atrás do MPLA, mas à frente da
UNITA) nas eleições parlamentares de 1992.
O
papel dos actores externos
Devido
à tradicional natureza destrutiva do antigo envolvimento externo em Angola, os
estrangeiros estão mal colocados para influenciar no bom sentido as práticas
de gestão de recursos. Em geral gozam de pouca credibilidade no país: a maior
parte dos angolanos assume que o envolvimento estrangeiro é inteiramente
motivado pelo desejo de aproveitar o petróleo, os diamantes e os outros
recursos do país.
Como
é óbvio, isto é completamente verdadeiro para as empresas multinacionais
envolvidas em Angola. Pela própria natureza dos seus interesses comerciais (e o
seu receio de perderem concessões mineiras ou licenças comerciais),
encontram-se numa posição frágil para questionar as políticas ou práticas
governamentais. Muitos diriam que, de qualquer maneira, esse não é sequer o
seu papel.
No
entanto, grandes empresas internacionais têm sido pressionadas pelo mundo
desenvolvido para agir no quadro de normas de responsabilidade social
empresarial (RSE). A maior parte das grandes empresas internacionais a operar em
Angola tentaram cultivar uma imagem de RSE, envolvendo-se em acções filantrópicas
de pequena escala. Num caso perverso, certas acções filantrópicas tomaram a
forma de apoio à Fundação Eduardo dos Santos (FESA), um organismo de
objectivos supostamente caritativos mas cuja principal função é a promoção
da boa imagem do chefe de estado. A maior parte das companhias petrolíferas
canalizam a sua assistência filantrópica através de um 'fundo social' gerido
pela Sonangol (um denominado 'bónus social' tem de ser pago a este fundo, a par
dos bónus de assinatura pagos ao estado por cada novo bloco petrolífero),
enquanto que outras financiam projectos patrocinados por ONGs e agências da
ONU, para actividades que vão desde a desminagem a projectos de desenvolvimento
comunitário localizados. Embora muitas destas actividades sejam valiosas, em
termos financeiros representam uma fracção minúscula dos lucros que estas
companhias retiram (ou tentam retirar) dos seus investimentos em Angola, e também
não se dirigem directamente às questões de gestão de recursos que em última
análise são mais imporantes para o bem-estar do povo angolano.
As
iniciativas que a nível internacional vêm sendo tomadas para tentar parar o
comércio dos denominados 'diamantes de sangue' e promover a transparência na
indústria petrolífera têm tido maior alcance. Embora ambas as iniciativas
abranjam todo o mundo, foram fortemente influenciadas pela situação em Angola.
No
que se refere à primeira iniciativa, o trabalho da ONG Global Witness, sediada
na Grã-Bretanha, ajudou a reforçar a implementação das sanções da ONU
contra a UNITA impostas em 1998 (uma proibição de compra de diamantes
angolanos não-oficiais e o congelamento das contas bancárias da UNITA). Embora
não tenham sido totalmente eficazes, os esforços para tornar realmente
efectivas as sanções, como o estabelecimento de um regime de monitorização,
contribuíram para uma subida nos custos de transacção da UNITA, que assim viu
diminuídos os seus recursos para a guerra.
Significativamente,
isto foi acompanhado de uma alteração no papel desempenhado pela De Beers, a
companhia que controla cerca de 65 por cento do comércio mundial de diamantes
em bruto. Durante os anos 90, a De Beers comprara sistematicamente diamantes de
contrabando de zonas de conflito em África, incluindo Angola, de acordo com a
sua política de actuação como comprador de último recurso, um papel que
assumira desde os anos 30 para estabilizar o mercado mundial de diamantes.
Receosa de se tornar num alvo dos consumidores mundiais, em 2000 a De Beers
decidiu tomar uma posição firme contra os diamantes de sangue, e juntou-se à
campanha Transacções Fatais, para acabar com o contrabando desses diamantes,
através da introdução do Sistema de Certificação do Processo de Kimberley.
O sistema foi finalmente lançado em Janeiro de 2003, após três anos de
negociações entre governos, a indústria diamantífera e ONGs, embora tanto a
De Beers e as ONGs tenham criticado a incapacidade para montar um mecanismo de
monitorização eficaz e independente, o que pode debilitar fatalmente a
credibilidade do programa.
Pouca
ou nenhuma atenção foi dada entretanto às questões de gestão de recursos
relativas à indústria diamantífera angolana, tais como a natureza patrimonial
das concessões de diamantes e o potencial para conflito entre interesses
externos (concessionários angolanos e companhias mineiras e comerciais
estrangeiras) e comunidades locais nas zonas ricas em diamantes.
Para
além da questão dos diamantes de sangue, o principal alvo da atenção
internacional tem sido a necessidade de divulgação integral dos contributos
fiscais e royalties das companhias petrolíferas e mineiras nos países
em vias de desenvolvimento. Internacionalmente isto tem sido defendido pela
campanha Publique o Que Paga (PWYP, na sigla em inglês), uma coligação de
ONGs, e pela Iniciativa de Transparência das Indústrias Extractivas (EITI)
promovida pelo Primeiro-Ministro inglês, Tony Blair. No entanto, consultas
entre governos e companhias petrolíferas e mineiras têm resultado numa rejeição
de um quadro internacional de obrigações, tal como o pedido pela PWYP, que
exigiria das companhias a divulgação de todos os seus pagamentos.
É
improvável que um programa voluntário, tal como preconizado pela EITI, pudesse
vir a ter algum efeito prático, pois as companhias individuais não arriscarão
a divulgação dos seus pagamentos a não ser que as suas rivais sejam obrigadas
a fazer o mesmo. Na realidade, os potenciais riscos de divulgação voluntária
individual foram bem sentidos por uma companhia petrolífera, a British
Petroleum, em Angola, em 2001. Quando a BP decidiu unilateralmente publicar o
valor dos impostos pagos ao governo angolano, a Sonangol acusou a companhia de
quebrar cláusulas de confidencialidade nos seus acordos e ameaçou terminar os
seus contratos.
A
divulgação integral dos contributos fiscais seria apenas meio caminho na
melhoria da transparência. Embora ajudasse a clarificar qual a receita recebida
pelo estado angolano, não resultaria necessariamente numa gestão transparente
desses recursos. Para esta questão mais geral, o FMI tem tentado implementar
reformas na gestão das finanças públicas, especialmente através de dois
'programas monitorizados', em 1995 e 2000-01. Ambos se revelaram um fracasso, em
grande medida devido à incapacidade de orçamentar todas as despesas que foram
feitas.
Ao
longo dos anos, grandes e crescentes receitas petrolíferas têm permitido ao
governo angolano, ao contrário dos governos de outros países pobres africanos,
manter à distância os condicionamentos do FMI e evitar reformas fundamentais
na gestão das finanças públicas, apesar de sérios desiquilíbrios macro-económicos
e da grande dívida externa. Esta influência externa, já frágil, tornar-se-á
ainda mais fraca com o crescimento, nos próximos anos, das receitas do petróleo.
Em última análise, as mudanças fundamentais na gestão de recursos em Angola
não surgirão do exterior mas do interior, à medida que os angolanos forem
reivindicando o seu direito a beneficiar da exploração dos recursos naturais
do seu país.
Contudo,
ao fornecer acesso à informação e maior consciência da natureza dos
problemas que os países ricos em recursos enfrentam, a campanha internacional
pró-transparência pode ajudar os que dentro do país (seja no parlamento, na
imprensa, nas igrejas, nas associações profissionais, nos sindicatos e nas
ONGs) começam a exercer pressão no sentido de uma transparência total e de
uma melhor utilização dos crescentes recursos disponíveis para a reconstrução
e a redução da pobreza.
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