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A
PROBLEMÁTICA DA TERRA NO CONTEXTO DA CONSTRUÇÃO DA PAZ: DESENVOLVIMENTO OU
CONFLITO?
Por
Fernando Pacheco.
Agrônomo
e Presidente do Conselho Directivo da ONG angolana ADRA (Acção para o
Desenvolvimento Rural e Ambiente).
A
terra constitui, no contexto actual, um tema transversal que abrange vários
aspectos da vida política, económica, social e cultural do país, no âmbito
do processo de reconstrução e reconciliação pretendido, visando a consolidação
da paz em Angola.
A
possibilidade de conflitos provocados pela terra foi subestimada até
recentemente. Os políticos do país, de raíz urbana e preocupados com uma
economia baseada no petróleo, estão há muito tempo alienados de questões
relacionadas ao desenvolvimento rural. O fim da guerra e o debate em torno do
ante-projecto de Lei de Terras mudaram esta situação. A questão da terra é
agora o centro de um debate nacional, assunto de muitas reportagens e motivo de
um contacto maior entre o mundo formal das leis e das elites com o mundo real da
maioria dos angolanos. Este artigo abordará o problema dentro da perspectiva da
população rural do país, embora a dimensão urbana seja igualmente relevante.
As
raízes do problema
Tal
como muitos outros países africanos, Angola herdou do período colonial um
sistema 'dualista' de posse e propriedade de terra e de abordagem do
desenvolvimento da agricultura. Tal estrutura se baseia em dois sistemas agrários
com padrões culturais, sociológicos e económicos distintos e com objectivos
diferentes. Estas diferenças são evidentes no relacionamento entre as unidades
de produção e os agrupamentos humanos a elas ligados; na sua posição perante
o mercado; na atitude perante o cálculo económico; na estrutura dos custos de
produção e nos fluxos de energia. Fala-se, pois, de agricultura familiar e
agricultura empresarial, embora a realidade seja bem mais complexa. Agricultura
familiar não é sinónimo de agricultura de subsistência, recorrendo mesmo,
por vezes, a mão de obra assalariada de forma não regular, nem a agricultura
empresarial diz respeito apenas aos grandes latifúndios. O sistema dualista é
uma consequência da discriminação rácica e 'civilizacional' inerente ao
Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias de Angola, Moçambique e
Guiné, cuja última versão data de 1954. Era como se existissem, face aquele
regime jurídico-legal, dois tipos de angolanos: os 'assimilados' e os 'indígenas'.
Isso haveria de marcar, de certo modo, o contexto sociológico e político do país
até à actualidade, apesar das grandes transformações verificadas.
Era
nesse quadro jurídico que se inseria o regime de terras. A legislação
portuguesa reconhecia o direito dos 'indígenas' desfrutarem de terras para
agricultura e habitação de acordo com os seus usos e costumes, mas não lhes
reconhecia o direito de propriedade. Mesmo depois de abolido o Estatuto em 1961
– consequência directa do início da luta armada pela independência – as
populações rurais continuaram submetidas a um regime diferenciado e de
subalternização. Nos últimos 12 anos de colonialismo Angola registou um
crescimento económico notável, como resultado de um processo de modernização
acelerado com que os portugueses pretendiam dar solução aos velhos problemas
políticos e sociais. Porém, esse crescimento foi feito, em grande medida, à
custa dos camponeses angolanos. Com efeito, nesse período aumentou a corrida às
terras por parte dos colonos portugueses, e as famílias rurais (cerca de um
milhão) viram reduzidas para menos de metade as áreas médias das terras que
ocupavam (de pouco mais de nove hectares em média por família em meados da década
de 1960 para cerca de quatro em 1973), enquanto que os seis mil agricultores
empresariais passaram a dispôr, em média, de 700 hectares, dos quais só
cultivavam, de facto, cerca de 10 por cento. Não surpreende, pois, que nas áreas
de maior concentração demográfica (como o planalto central), a situação da
agricultura familiar tivesse regredido com aumento dos níveis de pobreza,
atirando para a migração interna um número crescente de homens com consequências
sociais desastrosas e marcando, mais tarde, o quadro da guerra civil.
O
sistema dualista de uso e propriedade de terras e do desenvolvimento da
agricultura continuou a influenciar social e politicamente o contexto angolano
mesmo após a independência. Apesar da significativa mobilidade social que então
teve lugar, fruto da situação revolucionária e do notável esforço no campo
da educação, a sociedade angolana não se libertou do dualismo que vinha de trás.
Com efeito, os sucessivos governos do Movimento Popular pela Libertação de
Angola (MPLA) têm-se vindo a pautar por uma política que privilegia os centros
urbanos, remetendo as populações rurais para uma crescente situação de
exclusão que se traduz em vários domínios: político, social, económico,
institucional, territorial e das referências simbólicas. Isso explica, em
grande medida, o desenvolvimento da guerrilha da União Nacional pela Independência
Total de Angola (UNITA) entre 1976 e 1991.
É
verdade que a independência permitiu aos camponeses o resgate de boa parte das
suas terras de forma quase natural, na sequência da fuga dos portugueses e
apenas uma parte delas foi integrada nas empresas do estado que se vieram a
constituir. No entanto, esse mesmo abandono também provocou um retrocesso na
integração das economias rurais familiares nos circuitos mercantis – um dos
grandes objectivos da política colonial portuguesa nos seus últimos tempos.
Esse facto permitiu que se formasse no interior do país como que um enorme
manto de água onde os guerrilheiros puderam nadar com maior ou menor
facilidade, ainda que a adesão das populações à mensagem política da UNITA
não fosse uma constante.
A
privatização da década de 1990
O
colapso do modelo socialista no final dos anos 80 provocou mudanças várias na
política e na estratégia do MPLA, embora nem sempre de forma explícita ou
assumida. A construção de uma economia de mercado exige uma classe empresarial
dinâmica, que se pretende criar a partir das elites políticas e militares. Foi
nessa perspectiva que se decidiu redimensionar as propriedades do estado.
Redimensionar significava privatizar e adequar a dimensão das empresas às
capacidades técnicas e de gestão dos novos proprietários. Contudo, esta
segunda componente foi 'esquecida'. No caso das empresas agrícolas, a ausência
de um cadastro actualizado – ainda hoje se faz recurso ao existente em 1975
– foi determinante para que as propriedades fossem privatizadas de acordo com
a situação e dimensão anteriores, ainda que a terra fosse cedida apenas em
termos de direito de uso. Se tivermos em linha de conta, como se fez notar, que
no tempo colonial os portugueses não tinham capacidade para explorar, de facto,
senão cerca de 10 por cento das áreas de que dispunham, e que os novos empresários
angolanos são ainda muito frágeis, fácil é entender que a esmagadora maioria
das terras concedidas (50 por cento do total da área que constituía o sector
empresarial no período colonial já havia sido distribuída até ao final da década
de 1990) se encontram improdutivas. Para isso contribui o facto de, por causa da
guerra, só muito recentemente, os novos 'proprietários' terem tomado contacto
com as 'suas' propriedades, que, entretanto, continuaram ocupadas em muitos
casos por populações das áreas circunvizinhas ou por antigos trabalhadores.
Essa
privatização de empresas aconteceu antes e depois da aprovação, em 1992, da
primeira Lei de Terras após a independência. Trata-se de uma lei com aspectos
positivos no que respeita à defesa dos direitos das comunidades rurais, mas que
mantém o 'dualismo' sem apresentar vias para o superar. O 'conflito' entre práticas
costumeiras e direito positivo continua bem presente e isso permite pensar que,
por um lado, os direitos das populações rurais voltam a ser ignorados (o
primeiro reconhecimento legal da posse comunitária de terra ocorreu apenas em
2001, em Tchicala, província de Huíla) e, por outro, que certos direitos dos
cidadãos – como é o caso do direito das mulheres à herança – continuarão
a ser maltratados em termos das tais práticas costumeiras.
No
entanto, a implementação da lei, feita de forma desorganizada e pouco
transparente, está a ter como consequência: (i) as terras comunitárias
destinadas às povoações rurais (uma espécie de 'reservas' comunitárias)
continuam por definir, o que confere grande vulnerabilidade às famílias
rurais; (ii) os beneficiários dos títulos são, fundamentalmente, dirigentes
do MPLA, governantes ou ex-governantes, altos oficiais das Forças Armadas,
altos funcionários do estado, empresários, enfim, os grupos que hoje se podem
conotar com as elites existentes ou em processo de formação, mas são também
aqueles que, não fazendo parte das novas elites, conhecem o caminho das
instituições, deixando de fora, sobretudo, as populações desfavorecidas e
desinformadas, o que reforça a sua exclusão; (iii) as terras concedidas estão
geralmente improdutivas, mas não são retirados os títulos como prevê a lei;
(iv) começa a aparecer, ainda que de forma embrionária, um mercado de terras
que pode conduzir ao empobrecimento e aumento da vulnerabilidade das famílias;
(v) surgem alguns sinais de conflito social devido ao confronto de interesses
entre os sectores empresarial e familiar; (vi) o regresso de populações
deslocadas às suas áreas de origem, com medo de verem as suas terras ocupadas;
(vii) uma maior preocupação das populações com os títulos, pelo que eles
representam em termos de segurança, mas também pelo reconhecimento gradual da
primazia do direito positivo e escrito sobre o direito costumeiro.
Novos
conflitos de terra
Em
relação a estas últimas observações, já há sinais preocupantes vindos de
províncias como a Kwanza Sul, Huambo, Huíla, Cunene, e mesmo da periferia de
Luanda. É de prevêr que com o fim da guerra e com a falta de mecanismos
adequados, jurídicos ou outros, para a atribuição de terras, os conflitos se
vão multiplicando e agravando. Os dois casos seguintes demonstram o tipo de
conflito que surgiu nos últimos anos e pode ser generalizado no futuro.
Nos
Gambos, na província de Huíla, houve uma corrida às antigas demarcações por
parte de novos empresários. As populações pastoris reagiram negativamente a
esse movimento porque achavam que os novos agricultores dificultariam o acesso a
determinados pontos de água e de pastagem. O governo da província revelou que
muitos desses agricultores detinham áreas muito superiores àquelas registadas
ou que efectivamente necessitavam e que estariam mais de acordo com as suas
capacidades. O reordenamento daí resultante permitiu que as comunidades
recuperassem mais de 5 mil hectares para o seu uso colectivo. Este caso foi
parcialmente resolvido de forma negociada, mas ainda nos Gambos há situações
em que o radicalismo é mais acentuado nos dois lados.
Kenguela
Norte, nos arredores de Luanda, é outro exemplo. Após o abandono em 1975 de
terras cultivadas por uma empresa portuguesa, poucas pessoas permaneceram nessa
região árida. Embora nacionalizada, a propriedade da terra não foi assumida
pelo estado de forma efectiva. Gradualmente, a guerra provocou a vinda de
pessoas do interior para a região, e ao mesmo tempo, foram-se instalando empresários
privados com o propósito de criar gado. Estes ocuparam as terras sem recorrer
ao cadasto, enquanto que os residentes se consideravam seus 'proprietários' legítimos
por motivos históricos. As autoridades locais concediam lotes de terra aos
novos empresários e deslocados independemente do registo e ao demarcar os seus
lotes os empresários não consultaram as autoridades tradicionais. A terra
estava sendo cultivada por diferentes usuários de maneiras incompatíveis: os
camponeses cultivavam mandioca e criavam espécies pecuárias de pequeno porte,
enquanto que os empresários criavam gado bovino e caprino, espécies que
invadem as plantações dos camponeses. O caso estava sendo resolvido pelo
Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, com o apoio metodológico da
Organização para Agricultura e Alimentos da ONU. A solução conjunta que
propuseram combinava a demarcação dos terrenos comunitários, de forma a
estabelecer a coabitação e os direitos de propriedade, com compensações para
que as comunidades entregassem terra em troca de assistência em projectos de
desenvolvimento comunitários.
Muitas
das terras que eram produtivas antes da guerra foram abandonadas. É improvável
que as terras abandonadas que se encontram no sector familiar não-demarcado
(reconhecidas na última legislação assim como na colonial, mas sem um registo
oficial) venham a ser a causa de um grande conflito, a não ser que os
camponeses pobres desenvolvam uma maior capacidade de organização própria. É
mais provável que os produtores mais modernos, que abandonaram terras, entrem
em conflito com os camponeses ou novos 'proprietários' sobre os terrenos por
eles ocupados ou explorados. Outra forma de conflito latente é a tentativa dos
novos 'proprietários' de remover os camponeses das terras que lhes foram
concedidas. Sem processos adequados de identificação e demarcação de
terrenos, alguns dos novos 'proprietários' poderão recorrer ao uso da força.
Uma
nova Lei de Terras
Em
2002 começou o processo de aprovação de um novo ante-projecto de Lei de
Terras que procura corrigir algumas lacunas da anterior, mas que não resolve as
questões de fundo apontadas e, pelo contrário, pode criar novas dificuldades.
Alguns críticos afirmam que foi concebido para tornar mais fácil aos mais
abastados a manutenção dos direitos sobre a propriedade urbana, mas que pouco
faz para tratar da terra informalmente ocupada.
Porém,
o debate que ela suscitou na sociedade tem permitido pelo menos colocar a questão
da terra no centro do debate nacional (ainda que limitado praticamente às
cidades). Tambem tem resultado numa mais ampla divulgação do tema, que era
praticamente desconhecido do grande público e mesmo dos governantes e fazedores
de opinião. Tem estimulado um maior contacto entre o mundo real, onde se
processa a vida – que também é muitas vezes o mundo informal, dos excluídos
– com o mundo das leis, do formal, das elites. Tem gerido uma maior clarificação
dos problemas centrais do tema em debate nos quais se incluem (i) o direito
reivindicado pelas comunidades de possuírem um título que lhes dê o direito
de propriedade (não apenas de uso) das terras que eles consideram suas por as
terem herdado dos seus antepassados; (ii) o direito dessas mesmas comunidades de
reaverem as terras usurpadas durante a colonização e que estão a ser
entregues aos novos empresários; e (iii) o reconhecimento da importância da
propriedade da terra como aspiração legítima e necessidade de todos aqueles
que pretendam dedicar-se à agricultura e sua modernização, o que deve incluir
condições como as limitações das áreas, a sua efectiva utilização, e a
aplicação de multas pesadas a quem não cultiva. Enfim, o debate tem resultado
na melhoria do exercício da cidadania por parte de um leque maior de cidadãos.
Contribuição
para uma estratégia de paz e desenvolvimento
Angola
vive um processo de mudanças em que a consolidação da paz, a reconciliação
nacional e a construção da democracia se afiguram como elementos centrais. Por
isso é importante defender as pessoas que foram vítimas de injustiças ao
longo de muitas décadas e lutar para que elas tenham acesso a títulos de posse
de terras – comunitárias ou individuais, incluindo as mulheres
independentemente da sua situação (casada, viúva ou solteira). Paralelamente,
há que garantir que a terra não seja usurpada por uma elite empresarial inepta
e absentista que não está em condições de tirar proveito dela e, ao mesmo
tempo, facilitar o acesso à terra a quem, efectivamente, tenha condições de a
trabalhar e nela e dela viver. Em minha opinião isso, só por si, exigiria um
grande esforço por parte das instituições do estado e da sociedade civil.
A
história mostra que não basta dizer que a lei respeita os usos e costumes e
reconheça os direitos costumeiros, pois isso não dá segurança aos camponeses
pobres. O importante é que as práticas costumeiras possam ser incorporadas na
lei escrita e que os cidadãos, sem quaisquer tipos de descriminação, tenham
acesso facilitado às instituições por forma a fazer valer os seus direitos.
Isso permitirá a concepção de uma política de terras moderna em que o uso da
terra não deve ser função da diferenciação sociológica entre sector
familiar e empresarial, mas sim do tamanho da propriedade. Parafraseando o moçambicano
José Negrão, não é a definição da propriedade da terra que determina o
passo do processo de desenvolvimento, mas é este que vai exigir formas cada vez
mais complexas de definição da propriedade de terra.
É
errado pensar que a reabilitação e modernização da agricultura angolana
possa ser conseguida com base fundamental no chamado sector empresarial. Este,
tal como se apresenta hoje, não tem capacidades técnicas, financeiras e de
gestão, e as suas referências são as das empresas coloniais que, na sua
maioria, apresentavam níveis de produtividade e de rendimentos pouco
diferenciados dos do sector familiar e, por vezes, eram até menores. Por outro
lado, é também errado pensar que o sector familiar está (ou estava)
vocacionado fundamentalmente para a subsistência. Na verdade, as estatísticas
coloniais mostram que eram poucos os produtos agrícolas e pecuários onde o
sector empresarial produzia mais em volume que o familiar: café, algodão,
banana para exportação e pouco mais. Por fim, é utopia imaginar que o sector
empresarial possa beneficiar de grandes investimentos externos a médio prazo,
pois o ambiente político, a legislação, a burocracia, as infra-estruturas e
os custos desencorajam aqueles que possam ter boa vontade de investir em Angola
nos tempos próximos. Não custa, assim, admitir que nas condições de Angola o
sector familiar pode garantir mais emprego a curto e médio prazo que o
empresarial.
Por
tudo isso a solução para a questão rural deve ultrapassar a competição
entre os dois sectores e radicar na sua complementaridade como base de um
desenvolvimento simultaneamente endógeno e modernizante. O melhor domínio para
o investimento (nacional ou estrangeiro) será, pois, o do estabelecimento de
parcerias em que as famílias pobres entram com a terra e com o trabalho, e os
investidores com o capital e com o conhecimento técnico e de mercado em acções
a montante ou a jusante do ciclo produtivo. Esta seria, creio, uma boa estratégia
para se dar um golpe no 'dualismo'.
Tendo
em conta o que foi dito, é possível pensar que Angola vive um momento crucial
da sua história. Uma reforma agrária inclusiva pode permitir um
desenvolvimento democrático participativo e sustentável a partir da base. Porém,
se optar por um modelo que exclua as populações camponesas pobres (cerca de 80
por cento da população rural), poder-se-ão estar a criar os ingredientes para
novos conflitos.
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