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ÁFRICA ANTES DOS PORTUGUESES- O Portulano de Zheng He
OS CHINESES JÁ NAVEGAVAM PARA LÁ
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Mei-Ling Hsu, norte-americana de origem chinesa,
professora de geografia durante muitos anos na Universidade de Minnesota
(EUA), publicou em O CORREIO DA UNESCO, Agosto de 1991, Ano 19, Nº 8,
BRASIL, sob o título "O portulano de Zheng He" um interessantíssimo artigo
de que transcrevemos, com a devida vénia, da página 21 dessa edição, as
seguintes passagens:
"O famoso portulano do Almirante Zheng He, elaborado em meados do século XV
da nossa era, é a carta náutica chinesa mais antiga que conhecemos. Esse
longo rolo manuscrito, de 5,60 m de comprimento por 20,5 m de largura,
descreve o itinerário entre o porto chinês de Nanquim, o estreito de Ormuz e
os portos da costa oriental da África.
Entre 1405 e 1433, a serviço do Imperador Yongle,
Zheng He (1371-1435) empreendeu sete expedições marítimas que o levaram até o
estreito de Ormuz e à costa oriental africana. Essas expedições mobilizaram
meios consideráveis: a primeira contava com nada menos de 317 navios, incluindo
62 embarcações de alto calado, "carregadas de tesouros", e a maior delas, com
cerca de 100 m de comprimento e 50 m de largura, transportava 3.100 toneladas.
O mapa que Zheng He nos legou descreve sua última
viagem(1431-33), mas também reproduz informações acumuladas anteriormente por
ele e por navegantes que o precederam. O rolo primitivo foi cortado para formar
um livro de cerca de 40 páginas - o Wu Bei Zhi (Tratado do equipamento
marítimo), publicado em 1628.Esse rolo deve ser lido da direita para a esquerda.
Descreve um périplo de 12 mil quilômetros entre a China e os portos da Arábia e
da África, atingindo a oeste Khorramshar e Jidá, na Ásia, e a ilha de Kilwa
Kisiwani, na África. As informações mais detalhadas referem-se às costas da
China e do Sudeste da Ásia."
Ex-eunuco da corte, que se tornou valido do imperador da China, Zheng He
precedeu os portugueses em suas navegações na costa oriental africana, onde a
China tinha clientela e contatos até no atual Zimbabwé ( ex-Rhodesia do Sul),
segundo parece (ver "AN OUTLINE HISTORY OF CHINA", edição do Ministério da
Educação e Cultura da República Popular da China, Pequim, 1956, versão em língua
inglesa), e no Império do Mwatíânvua que abrangia o Katanga conguês, a atual
Zâmbia (ex-Ehodesia do Norte) e o Leste de Angola, na terra dos T´Chokwés ou
quiôcos.

Rei Muatiânvwa, do reino Tchokwe, e comitiva recebido por
autoridades coloniais portuguesas.
No penúltimo parágrafo de seu artigo, Mei-Ling Hsu
observa:
" A última parte do mapa é dedicada à vasta extensão marítima entre a ponta do
subcontinente indiano e o litoral da Arábia e da África, onde os navios tinham
de enfrentar o mar alto."
Não restam dúvidas, portanto, de que impérios e
reinos africanos já mantinham relações comerciais com os chineses e estes... já
faziam expedições marítimas para a África Oriental muito antes de qualquer outro
povo europeu ali ter arribado.
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2- O REINO DO CONGO, IMPORTANTE ESTADO AFRICANO FEUDAL
O Reino do Congo era um verdadeiro Estado feudal, englobando a atual República
do Congo-Brazzavile (ex-Congo francês), o Baixo-Congo até Kinshasa, capital da
atual República Democrática do Congo (ex-Congo belga, ex-República do Zaire...),
e uma parte do norte de Angola.
Uma lenda a desfazer é a de que esse reino banto teria sido sempre hostil aos
europeus, o que contraria a verdade histórica...
Os reis negros, longe de se entregarem a um
nacionalismo xenófobo, desde os primeiros contatos, em sua maioria,
multiplicaram suas atenções quanto ao relacionamento com os "brancos". Pediram
missionários, mestres de ofícios, mercadores, enviaram embaixadas a Portugal e
ao Vaticano, mau grado as dificuldades de comunicações marítimas, solicitando
intercâmbio.
O Rio Zaire ou Congo - "Rio Poderoso" - ou
simplesmente "RIO" (ZAIRE) impressionaria profundamente os seus descobridores,
comandados por Diogo Cão. Aquela torrente de água doce a penetrar, por alguns
quilômetros, pelo mar dentro, era suficiente testemunho de sua extraordinária
pujança e importância. Os Portugueses não conheciam coisa que se assemelhasse a
isso, seu Tejo pátrio ficava muito áquem da majestade africana do "Zaire".
Rumores corriam, conforme uma velha tradição
européia, de que devia existir um meio de comunicação com o lendário Reino do
Preste-João (,afinal, este viria a revelar-se na Etiópia com seu cristianismo
copta, mais tarde). Seria por ali o caminho?
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3- A CHEGADA DE DIOGO CÃO AO REINO DO CONGO. INICIO DA ACULTURAÇÃO LUSÓFONA - O
PADRÃO DE SÃO JORGE.
1486- O audacioso navegador português Diogo Cão encontrou no Reino do Congo, um
país política e administrativamente bem estruturado, dividido em províncias,
confiadas a sobas vassalos, próspero e totalmente independente.
Diogo implantou o Padrão de S.Jorge situando-o na
margem esquerda do citado grande curso fluvial. Por contatos estabelecidos com
os íncolas ribeirinhos, souberam os Portugueses da existência, no interior, dum
poderoso rei. Aquele capitão Português enviou ao potentado Negro mensageiros e
presentes. Mas não se deteve no local, prosseguiu viagem para sul. Só decorridas
15 luas arribou novamente no Congo, trazendo consigo 4 Negros que havia pêgo à
chegada, os quais enviou ao rei, vestidos já à portuguesa, bem alimentados,
falando a língua portuguesa. Foram esses os primeiros embaixadores da
civilização lusitana.
Ficou o monarca encantado, ao ouvir da boca dos seus súbditos já meio
ocidentalizados notícias precisas a respeito dos estrangeiros. E assim se
encetaram amistosas relações entre portugueses e congueses....
4- A CIVILIZAÇÃO CONGOLESA NA IDADE DO FERRO.
Não conheciam os congueses a escrita; eram ágrafos, mas sabiam prospectar e
garimpar do subsolo os minérios de que careciam: tinham conhecimentos de
metalurgia, sabiam já fundir e moldar o ferro e o cobre. Produziam belas
cerâmicas, sabiam tecer, aproveitando até a casca do embondeiro (baobá) para
produzir "panos" e de tal maneira se haviam nessa arte, que os portugueses os
utilizavam em seus barcos como panos de velas.
Os agricultores negros já cultivavam os milhinhos, o sorgo, as bananeiras, os
inhames e outros cultivares. Criavam suínos, caprinos, ovinos, galináceos e,
segundo o africanista André Scohy sscreveu: "Já se realizavam ali eleições
populares, organizando-se embriões de um contrapeso democrático ao autoritarismo
feudal."
5- O INÍCIO DO COLONIALISMO RELIGIOSO - A CONVERSÃO AO CRISTIANISMO CATÓLICO
Em 1491, Nzinga Ntinu converteu-se ao catolicismo com o nome de D.João, mas ao
passo e à medida que foi envelhecendo, retornou, paulatinamente, ao paganismo.
Ao pedir o batismo, o rei conguês tinha sido
sincero. Dois filhos tinha ele: o mais velho, Mbemba a Nzinga que passou a
chamar-se D.Afonso; o mais novo, Mpanzu a Kitima, que não recebeu o sacramento.
A nova religião era severa; impunha a monogamia, coisa difícil de observar.
Obrigava ao respeito pela pessoa dos súbditos, condição esta ainda mais difícil,
porque os reis africanos gozavam de poderes discricionários, absolutos. Impunha
respeito pela propriedade alheia e proibia o uso de bebidas alcoólicas... D.
João protestou, sobretudo contra o primeiro preceito (monogamia) e, pouco a
pouco, foi dispensando os conselhos dos religiosos que desta forma se viram
afastados da corte. O filho mais novo, Mpanzu a Kitima tornou-se abertamente o
chefe de uma espécie de partido de oposição ao Cristianismo e à penetração
cultural ( na verdade, colonialismo cultural embrionário...) dos Portugueses.
O príncipe D.Afonso, convertido de coração à nova
religião, ao constatar que seu irmão e seu pai estavam enveredando por um
caminho que ele não aceitava, abandonou a embala e exilou-se, voluntariamente na
província de Sundi. O velho rei, Manisonho ou D.João, viria a falecer não muitos
anos após este acontecimento.
6- ECONOMIA MONETÁRIA DO REINO DO CONGO. BÚZIOS COMO MOEDA PRINCIPAL.
Tinham os congueses a sua própria moeda de troca, os célebres zimbos, búzios que
abundam nas areias da restinga de Luanda considerada a "casa da moeda" do Reino
do Congo. Bluteau, no seu Vocabulário, recorrendo principalmente a Dapper,
estudioso da dominação holandesa em Angola, já emprega o termo "zimbo" para
determinar a concha parda "pescada" no Rio de Janeiro e em Luanda que, enviada
para o Congo, Songo e Pinda, no norte de Angola, exercia papel relevante na vida
econômica das populações. De "O ZIMBO NA HISTORIOGRAFIA ANGOLANA" da autoria de
Carlos Couto, edição do Instituto de Investigação Científica de Angola, Luanda,
1973, 48 páginas, transcrevemos as seguintes passagens:
" A ilha de Luanda, fronteira à terra firme, onde Paulo Dias de Novais fundou,
em 1576, a vila de S. Paulo, que veio a ter foros de cidade em 1605, no governo
de Manuel Cerveira Pereira, funcionou, durante largos anos, como "banco emissor"
da monarquia conguesa.

O zimbo, apanhado ao longo da Ilha tornou-se, por
dilatados anos, a pedra fundamental do edifício econômico daquela Coroa e o
sustentáculo político da majestade negra. É natural que, em épocas recuadas,
outros instrumentos de troca tivessem precedido a Olivancillaria nana como
padrão monetário. Aliás, a teoria da difusão cultural permite-nos admitir tal
hipótese. Mas, à chegada dos Portugueses, era o zimbo que circulava como unidade
de troca junto das populações da costa norte."
A referida ilha era conhecida dos Portugueses desde
os alvores do século XVI, em particular dos radicados em São Tomé, cujos navios
lançavam ferro ao largo dela, na suja ganância do tráfico de escravos que
enriquecendo os homens, empobrecia a terra; foi ela considerada pertença dos
potentados congueses até meados do século XVII, data em que Angola, pela mão de
Salvador Correia de Sá e Benevides, é subtraída ao jugo calvinista ( e não
luterano como, por lapso, de que nos penitenciamos, escrevemos no artigo
referente à Restauração de Angola em 1648) e "reintegrada"(?!), sem perda de
Unidade, na Coroa portuguesa quando o soberano conguês D. António I, foi
derrotado, em 29 de Outubro de 1665, por forças brasileiras (ainda era oriundo
do Brasil o governador de Angola), na célebre batalha de AMBUÍLA, iniciando-se,
assim, a decadência do Reino do Congo.
7- A "CASA DA MOEDA" REAL NO REINO DOS NGOLAS
A Ilha das Cabras, como era conhecida a Ilha de Luanda, na verdade uma restinga
, estava já em território do chamado reino do N´Gola (ou Angola...) que
confinava no rio Dande com o reino do Congo, a norte daquele curso de água por
ocasião da reconquista aos holandeses, estendendo-se até ao rio Cuanza. Estava
ela na posse do soberano conguês que dali obtinha a sua moeda corrente- os
zimbos; não tendo valor troca na Europa, viria a suscitar, nas operações
comerciais, o pagamento de mercadorias em "marfim negro" (escravos) para
Portugal, marfim, peles, a par de remessas, durante a primeira metade do século
XVI, de alguns milhares de nobres e filhos de notáveis do reino como bolsistas (bolseiros,
no Português da Europa) afim de ali estudarem, alguns deles se tornando
eclesiásticos e destes, um se destacando: - D. Henrique, filho de D. Afonso.
8- A MORTE DO REI NZINGA NTINU. SUCESSÃO E AUMENTO DA APROXIMAÇÃO
LUSO-CONGOLESA. TRANSFORMAÇÃO DO REINO. ESCRAVIDÃO VERSUS ESCRAVATURA
1506- O velho monarca morre, tendo designado como sucessor seu filho Afonso, um
negro da elite, dotado de notável inteligência e que praticava o catolicismo.
Inicia-se uma fase de maior aproximação e assimilação cultural em ordem aos
europeus (Portugueses).
D. Afonso fundou em 1514 um colégio destinado aos
melhores rapazes do Congo, que chegou a ter cerca de 400 alunos. Esforçou-se ao
máximo por espalhar o cristianismo em todo o seu reino e combateu a idolatria. O
Papa Paulo III elogiou-o abertamente num Breve de 5 de Maio de 1535, declarando
que ele havia desempenhado não só o seu múnus de rei, mas também o de pastor.
Suaviter et fortiter.: Ao mesmo tempo, D. Afonso não
queria comprometer o bom sucesso da sua obra com medidas drásticas de efeitos
negativos. Destarte, tendo em vista as pressões da sociedade tradicional
conguesa, conseguiu do Papa certas dispensas para o casamento entre parentes.
Governando com competência e dedicação, o novo rei conguês não simpatizava com
comerciantes e, muito menos, com os traficantes de escravos. Relutava em
consentir no despovoamento do seu reino. Favorecia a escravidão e punha fortes
entraves à escravatura. E acreditava, de alma e coração, na transformação do seu
reino. |
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